domingo, setembro 30, 2007

O Cineasta do Bin Laden




Concepção coletiva do Senso-Comum, escrita por Ternura e Perfeição

Como todos sabem, e o exemplo do Danilo não me deixa mentir, todo o cineasta é homossexual. Se assumido, enrustido, quáquá ou Vilage People, não importa. Isso funciona aqui, nos EUA, na Argentina, na China e, como não poderia deixar de ser, no Afeganistão. Ou seja, quando o Osama ou Usama(tomatoes ou tomatoes) Bin Laden filma seus vídeos para mandar para a Al Jazeera e aterrorizar o mundo ocidental(leia-se EUA), ele também é obrigado a se submeter a um cineasta, logo, a uma biba. Se excluirmos a chance dele ser um "gay que é muhamed, tentando camuflar", como diriam os últimos paulistas engraçados que existiram, o cineasta de Osama deve ser é um tipinho bem efeminado. Com isso, e considerando que o set de filmagem, a câmera e a atuação não são lá essas coisas, posso vislumbrar os pitís que esse cineasta dê durante as gravações.

"- Pronto, pronto. Nesse momento que o fófi fala "Morte aos americanos", poderiam colocar uns fogos de artifício bem no fundinho? Acende uns incensos, queria um barulhinho de rajada de ak47 bem baixinho, tem como? Alguém sabe tocar gaita, flauta ou coisa assim? Tem como começar com o "God save the queen" e passar para a marcha fúnebre? Aquela música do mickey também serve ou alguma coisa mais broadway, só um detalhezinho para dar um arzinho new york, sabe? Tem aquela versão de "New York, New York" que a Enia fez? Lindo aquilo, né? Emocinante, toca o fundo do meu âmago. Pensando bem, a do mickey não vale, a gente não quer uma coisa muito miami, né? Miami tá tão demodé, nem dá vontade de jogar uma bomba por lá.

- Com licença, o que é aquilo debaixo do queixo dele? Por acaso tem uma taturana subindo pelo pescoço dele? Eu sei, eu sei, imagem de macho barbudo, com turbante e fuzil, mas custa dar uma aparadinha, fofo? Só para tirar as pontinhas duplas, ponta dupla na barba é o ó do borogodó! Pronto, vamos recomeçar.

Osama - Fogo celestial cairá sobre as cabeças de vós, ocidentais infiéis...

- PÁRA TUDO, PÁRA TUDO. Você consegue impor mais emoção nesse ponto? Essa voz de Cid Moreira narrando jogo de bocha, mata qualquer um de tédio. E se morrerem de tédio, o que você vai fazer com aquele carregamento de urânio que você comprou? Transformar em purpurina e botar a Arábia para brilhar? Não, não, eu sei que você consegue mais. Pensa no Chuck Norris, agora cruza ele com o Stalone, e dá um toque de Jude Law, para ficar mais charmoso. Captou, captou? Assim, poder+macheza+sotaque esquisito, essa é a fórmula do sucesso, me deixa toda arrepiada. Já estou com medinho.

- Staff, pessoal do set! Cadê aquela mocinha que cuida da iluminação? Será que ela poderia botar mais açucar no meu café? Gente, eu sei que vocês estão de saco cheio, querendo voltar a fazer o que quer que seja que vocês façam nesse deserto horroso, mas, se o resultado não ficar bom, vou ter que recomeçar tudo de novo e ninguém quer isso, certo? Isso aqui tá muito sem emoção, eu quero sentir guerra, sentir morte, sentir poder, entendem? Vamos, vamos, todo mundo dá um pulinho lá fora, faz umas flexões e explode umas granadinhas, só para dar mais ânimo. Enquanto isso, chama aquele homem-bomba de semana que vêm que eu vou ensinar a eles umas coisas que não dá para morrer sem saber.

- BICHA, QUE COISA HORRÍVEL! Ou esse turbante branco chiquerérrimo, ou esse casaco militar! Misturar camuflado com branco é a mais nova gafe de Milão. É paz com guerra, sabe? Não combina... Hoje em dia, se perdoa até xadrez com listrado, mas camuflado com branco, NEM PENSAR, OUVIU FOFA? Muda o modelito, vai, que eu tô atrasado para a minha depiladora. Aliás, se alguém quiser o cartão dela, ela faz maravilhas no meu oriente médio.

- Olha edição, a fita ficou ótima, mas eu não quero ver nenhum de vocês descansarem, ouviram? Todo editor quer ser diretor quando crescer. Ou seja, todos vocês tem muito a aprender comigo. Por isso, eu quero todos dando duro por essa fita. Já pedi para a mocinha da iluminação virar a noite aqui, porque vamos precisar de muito café essa noite. O diretor vai ser bem bonzinho com vocês, tá? Ensinar tudo que sabe... Essa profissão é tão dura, tem que se engolir cada coisa. Hoje à noite, vocês vão saber do que um cineasta é feito.

- Chefito! Binzinho! Isso, você mesmo, lindinho. Tem como dar um pulito aqui rapidinho? Sabe o mocinho que cuida do som? Então, troca ele de lugar naquela escala com o homem-bomba gostosinho. Pois é, ele errou no som, bem na parte que você dizia que "Alá é misericordioso". É deixa o bombadinho aqui mais uma semaninha... Vamos ter que gravar de novo, acredita? Gente incompetente para mim, tem mais é que andar na prancha. E dessa vez, tenta não falar "Alá" tão grave, afinal você não quer que as pessoas pensem que Alá é um deus quadradão, uma coisa meio Darth Vader, meio Pavaroti, né?

Osama se enche. Atira no cineasta. Daqui para frente, só transmite em rádio. Cineasta é muito chato.

sábado, setembro 29, 2007

Falsas Promessas(trecho avulso do "Luzido Indecente")

Quando eu tinha uns 15 anos, minha irmã mais velha se converteu a uma religião neo-pentecostal, dessas que transformam cinemas em igrejas e as quais chamamos de evangélicos ou crentes. Na visão alcóolica do meu pai bon vivant, Natália apenas procurava mais uma desculpa para não ter que se preocupado com beijos, flertes e namorados. Balbuciava ele, com seu cheiro nauseabundo de pinga com torresmo, "Essa menina procura na bíblia uma toca de avestruz para meter a cabeça. Vê se carregar o mesmo livro embaixo do braço todo dia e vestir essas saias de beatas deixa alguém feliz?" Ele sempre voltava a esse ponto, ser feliz. Às vezes, tento me lembrar qual foi a última vez que ele fez alguma coisa para ser feliz. Além de beber, é claro.
(...)
Para meu lado, a nova religião de Natália apenas me incomodava numa hora. Cinco da manhã. Sempre que chegava em casa, fedendo a cigarro e todo lanhado, minha irmã começava um pequeno sermão. No início eram apenas divagações sobre religião. Nascidos em família de ateus extremamente céticos, essa discussão sempre pendia para meu lado. Na minha humilde opinião, é mais fácil provar a descrença que a fé. Pena que essa última, uma vez instalada, seja invulnerável. Quando esse tipo de discussão inútil se instalva, meu pai fazia questão de interceder. A meu favor, por mais incrível que possa parecer. "Beber umas cervejas e dar uns beijos na boca é a melhor coisa que seu irmão pode fazer aos quinze anos". Eu sempre concordava, mesmo que contrariado por concordar.
(...)
Após aquela conversa telefônica, Natália tentou outro caminho para minha involuntária evangelização. "Não vê como sofre e faz sofrer?" Tive que retrucar. "O que sabe você sobre tal assunto?" Ela calou-se. confirmou minhas suspeitas, de fato, ela nada sabia. Entretanto, Natália respondeu, falando sem saber, palavras que não entendia, mas cuja semântica mudou no caminho entre sua boca e meu ouvido. "Você não nota que a cada beijo você entrega algo muito precioso de si?" Quem foi o babaca desse pastor que ensinou essas coisas para ela?(...)Sim, eu entregava algo precioso. Muito precioso. A cada beijo que dou arrisco-me um pouco a me apaixonar e a cada paixão, arrisco meus ouvidos a promessas vazias. Pior do que ouvir tais promessas, contudo, é entrar em xeque. Após saber do vazio das promessas alheias, devo esvaziar minhas promessas e me fazer hipócrita ou manter minhas juras de amor eterno e me fazer masoquista?

quarta-feira, setembro 26, 2007

Cama de Agulhas - Mudança

Seres imaginários leitores de "Cama de Agulhas" mudei o endereço do livro para um blog próprio: http://camadeagulhas.blogspot.com/. Continuarei postando todas as quartas. A de hoje estará disponível essa madrugada.
Grato.

domingo, setembro 23, 2007

Balada da jovem paixão

Ele começou: "Se eu tivesse que desejar alguma coisa agora, qualquer coisa, desejaria que cada segundo demorasse três. Desse jeito, não me afligiria tanto o coração, mas ainda não me afogaria em nossos beijos. Se eu tivesse que recitar minhas maiores ambições, nenhuma delas tem o menor sentido, frente a profundidade de teus olhos verdes."
E ela questiona: "Como se afogarias em beijos e onde achas profundidades em meus olhos? Não vês que não é água o que escorre de mim? Não vês que estou a me derreter em felicidades?"
Ele, contrariado, emenda: "E não poderia eu me afogar em felicidades?"
Mas, ela questiona: "Seria deveras ruim se afogar em mim? Pense em que morte bela! Não morrerias em meus braços, mas envolto em mim... Não haveriam épicos ou shakespeares que descrevessem tão belo final! "
Ele, amendrontado, declara: "Não posso imaginar mais bela mortalha. Só não poderei aceitar uma paixão com belo fim, mas com tão breve duração. De certo, a bela morte embeleza a vida, mas não há vida para embelezarmos! Não quero mais gargalos, quero quebrar a garrafa e beber da fonte!"
Ele hesita. Baixara a guarda, como a tanto não fazia. Ela, contudo, gargalha:
"Não vês quanto tolo somos? Sou inteiramente tua, sou tua fonte. Venha a mim, meu pequeno pardal medroso! Beba o quanto quiseres e se afogue, quando assim o aprazir. Não tenho porque temer que voes, sei que a felicidade vicia."
Agora, era ele que se derretia.

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quarta-feira, setembro 19, 2007

Cama de Agulhas - O primeiro exercício – parte 1, a Janela(continuação)

deitar-me na cama me fez o que sou; agora, eu tinha um Motor, um movimento. ainda não achara porquês, mas em meu caminho esbarraria com um, eventualmente. cabe pensar que não coincidentemente foi por essa época que me ocorreu a primeira insônia que me recordo inteiramente. não que antes não tivesse problemas para dormir, mas como os enevoados pensamentos de criança que misturam a realidade vivida e as histórias contadas, as minhas insônias anteriores não tem a fé necessária para eu considerá-las verdade. voltara de minha primeira viagem motorizada, uma viagem extremamente cansativa, uma espécie de corrida epícura à lugar algum. entre ninfas e sátiros, numa sombria e silenciosa marcha sem endorfina, sem êxtase, sem chegadas e sem vitórias. quando girei a chave da ignição, o motor do carro no qual viajara não tardou um momento em parar, mas quando cai sobre minha cama, esse Motor-de-Dentro esqueceu de desligar-se. apesar de já terminado o ginásio, não entendia a inércia que fazia meu corpo tender ao movimento mesmo que para os olhares mais desavisados estivesse perfeitamente imóvel sobre minha colcha. como o movimento externo tem uma inércia que mantém os corpos em movimento, e que apenas o atrito, a resistência do ar ou outra força rompe, o que dizer desses movimentos que se passam dentro de um corpo? haveria dentro de mim algo para esse Motor se atritar com? que outra força usaria eu para parar e conseguir dormir? como faria para encher-me de ar? na época, eu sabia... ou melhor, eu ainda sei como parar o Motor da época. Como todas as outras coisas que me compõem, o Motor evolui, a meu contragosto. ele aprende com minhas vitórias e com minhas derrotas, de forma que nem minha consciência é capaz de aprender, Ele odeia ser parado e trata todas minhas noites de sono como um fracasso. naquele tempo já remoto, me bastava algumas corridas com os olhos envolta do quarto ou aquela atenção hercúlea indispensável para assistir televisão por mais de dois pensamentos ou a presença rara mas enaltecida de outro corpo repousado sobre a cama, todos esses fatores pouco importantes e distantes da substância de minha insônia mas que mesmo assim faziam com que meu sono viesse facilmente, num apelo desesperado de meu corpo por descanso. hoje meu fardo é deveras maior, esse Motor já conhece todos os meus truques, e minha Insônia já extravasa em muito minha inércia. já não consigo dormir até mesmo por estar parado demais... nesse eterno jogo entre eu e a Insônia pela maciez de minha cama, Ela é a dama e a mestra e restou-me criar vãos exercícios para enganá-la.

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segunda-feira, setembro 17, 2007

Pequena Bossa do Pequeno Boçal

por Luíz Fernando Veríssimo

Uma garrafa de vinho. Dois cigarros, um de maconha. Vou abrir minha mente, só um pouco. Afinal, preciso escrever alguma coisa. Ensinaram-me nas rodas de botequim que álcool e outras drogas de pequeno potencial são o combustível da criatividade. Não tenho porque temer, já sou viciado há tempos. Por escrever como uma maneira de exaltar uma pretensa intelectualidade e por álcool e outras drogas de pequeno potencial como uma forma de exaltar minha pretensa sociabilidade. Já comecei a falar merda, talvez daqui a pouco possa ir naquele sambinha e fingir simpatia. Vou acelerar o passo, já está tarde e o samba morre cedo.

Uma garrafa de saquê. É bom que não me dá ressaca. É melhor que me deixe bêbado. Bem, tá faltando alguma coisa nessa crônica. Algo para ficar mais popular. Ela está meio séria, acho que é isso. Vou colocar alguém se dando mal por azar... Falta algo mais, merda de garrafa pequena. Caralho!, era isso que faltava, "caralho". Não caralho-pica, mas caralho-palavra. Não se faz nada popular sem um palavrão ou outro. E tem que ser um que fique engraçadinho. O grotesco morreu junto com o velho safado. Foi o que me disse um blog de um crítico literário. Velho safado, velho safado...

Uma garrafa de Velho Barreiro. Agora que o texto ficou popular, preciso exaltar-me. Velho safado, velho safado... Vou citar alguém. Citar alguém e fazer crítica levianas à política é a melhor forma de parecer inteligente. Qual era o nome mesmo do velho safado? Era meio alemão, meio americano, eu vi num documentário. Putz, tinha naquele filme sobre vinhos. Bem, o google ajuda. Acho que é cubovsky. "Você quis dizer dubovsky?" Acho que sim. Isso, Peter Dubovsky, meio americano, meio alemão. Jogador de futebol, nem é esse. Já sei, vou procurar por "velho safado". Hum... "velho safado come o rabo de ninfeta putinha e não paga". Não acho que seja isso. Vou tentar "velhos safado livro". Aqui, Charles Bukowski. Vou colocar uma citação, santo deus inventou o google e buda o wikiquote. Já ouviram falar? É dez, te dá um monte de citação de gente que você não sabe quem foi para colocar em textinhos auto-promocionais como o meu.

Uma latinha de cerveja. Hum... tem essa aqui, mas é de outro, "Kerouac". Deve ser arábe. Vou dizer logo que é da mil e uma noites. Deu em um blog que é a onda literária do momento. E esse meu texto, é sobre a vida ou é sobre política? Acho que tá mais para vida, vou assinar como Pedro Bial, vou deixar o Jabor para depois. Até porque, esqueci o primeiro nome do Jabor e já cansei de google. Pronto, agora eu publico no meu blog como meu e mandou com meu endereço de e-mail falso como do Bial. Depois que o texto correr, daqui a um mês, mando um e-mail reclamando a autoria. Vão dizer que eu escrevo tão bem quanto o Bial... Eu sou muito bom nisso. Um dia, acabo na Globo comendo ex-BBBs. Putz, ainda não usei "comer alguém" no texto. Preciso arranjar uma brecha. É isso que faço melhor, arranjar brechas. Devia ser político. É como disse o Jabor, "A vocação de um político de carreira é transformar cada solução em um problema".

Uma long neck de Bohemia, um perfume, um chapéu e sambinha-lá-vou-eu. Com sorte, como alguém hoje.

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quinta-feira, setembro 13, 2007

Cama de Agulhas - O primeiro exercício – parte 1, a Janela

O primeiro exercício – parte 1, a Janela


deitei-me em minha cama, mas não consegui dormir. deitar me na cama me fez o que sou. olhei em volta de meu quarto, e enumerei os móveis de meu quarto, uma cama, um armário, uma mesa e uma janela. a Janela de meu quarto não dá para o mundo, como o nome “janela” poderia sugerir, mas para a parede do prédio vizinho, numa proximidade tal que faz parecer que a Janela foi diretamente esculpida da parede desse prédio, com o único e inescusável intuito de fingir dar(para depois negar) as liberdades que só uma janela nos pode dar. enquanto janelas costumam ser não-paredes, a Janela de meu quarto era uma parede não-janela. minhas noites em claro podem se confundir com a Janela. quantas noites sem sono se devem à minha contemplação estática daquela Janela? e afinal, permanecer imóvel diante de uma janela, não pensando em nada mais importante do que em como meus dias tinham sido supostamente vazios, não é dormir? apenas dormimos quando estamos de olhos fechados, ou será que estar imóvel, inútil e sonhando, não pode ser chamado de dormir? estão de todo errado aqueles que consideram dormir um momento ébrio em que nos permitimos parar de pensar? mas se assim for porque nossa sanidade depende tanto de nossas noites de sono? ser são é ser capaz de não pensar?

lembro que, quando criança, aprendi a falar, a andar, a usar talheres, observando aqueles que já o soubesse. e a viver sentado por intermináveis hora em frente a uma janela, como teria aprendido, da mesma forma? só o que me ensinaram é que o importante não estava na janela, objeto esse que servia apenas para circundar o mundo que deveríamos ver, como um óculos, ou uma regra que de tão impregnada em nossas cabeças, estaria além da observação, seria um prisma colado em nossas pálpebras com artesanal perfeição que sua existência se confundiria com a dos nossos próprios olhos ou como uma janela, um buraco cujas formas ou silhuetas deveriam ser esquecidos em detrimento da observação do interior de suas bordas ou seja do exterior do mundo. para a visão importa apenas o observador e o observado, sendo toda a trajetória que a luz percorre para alcançar nossos olhos (trajetória essa que se bem entendida pode salvar nos de toda espécie de ilusão ou miragem, prevenindo-nos de qualquer tropeço ocasional ou de quaisquer estafantes voltas em círculo) ignorada como devem ser ignorada a busca frente a chegada da meta. a meta é capital, o objetivo é capital, a principal cena da maratona é o corte da fita na chegada e não a largada ou os quarenta e dois quilômetros de percurso. nossa chegada é a morte, nosso momento final. em nossa vida e sociedade, essa será nossa grande paixão, a quem dedicaremos mais tempo de pensamento e dedicação. somos idólatras da morte, quer na busca de cruzes e mártires, quer na busca por saúde e juventude, pois a morte é o que encontramos limitado pelas bordas de nossa janela.

e quando o interior de uma janela não é o exterior do mundo? o que fazer de minha janela, cuja parede contida, perfeitamente lisa e branca, impecavelmente uniforme, por impropriedade absoluta de substância não deveria ser observada? e o que fazer dessa máxima, pela qual apenas o conteúdo, e jamais o continente, deve ser observado? como observar o inobservável ou como reprisar toda uma maratona sem mostrar os momentos finais do vitorioso? ou, talvez, como convencer um maratonista a correr numa pista sem linha de chegada? adoramos a morte por medo de vivermos eternamente, como o maratonista que teme nunca parar de correr uma corrida sem chegada?

mas, tais perguntas não adentravam a cabeça do meu eu-criança. o instinto de aprendizado mímico, tão enraizado em nossa natureza, não me permitia deixar de copiar papagaiamente as atitudes dos adultos. meu avô olhava o mar, com saudades da época que tinha pernas para nadar, minha avó olhava as mulheres que desfilavam pelas ruas, com saudades da época que tinha beleza. eu olhava as formigas que caminhavam ordeira e ordenadamente pela parede do vizinho. a repensar sobre a minha infância na Janela não-janela, diria que eu buscava naquelas formigas, um propósito. eu ainda devia estar procurando. será que ainda existem formigas naquela parede? sim, elas ainda estão lá. cadê meu propósito? que pergunta estúpida! meu avô não achou pernas, nem minha avó beleza, já deveria ter aprendido, que no interior das janelas, ficam metas, não realizações.

olhar para uma janela sem ver seu interior. era essa minha sina. seria demais para uma criança exigir que mantivesse qualquer vínculo com a lógica ao dizer-lhe que observe apenas o que a Janela contenha, sendo que o elemento contido, uma parede, é igualmente inobservável. no choque de duas realidades incontestáveis, de duas obviedades ruidosamente claras, a ponto de a confundirmos com nossos próprios olhos, o que ainda conseguimos ver?

e se comer desse fome? e se respirar matasse? apesar de toda ilógica aparente, por apressar os trabalhos de nosso corpo em digerir, de fato comer dá fome... e nossa inalação supre de oxigênio todos nossos cânceres e tubérculos e portanto mata-nos, o que ainda podemos fazer para matar a fome ou para permanecermos vivos? da mesma forma que continuamos a comer ou respirar, apesar da, aqui, comprovada ausência de lógica em tais fatos, eu quando criança passei a observar a parede- por- trás- da- Janela. contraditoriamente, os mesmo que me impuseram tal dilema, os adultos que moravam em minha casa, muito estranharam que eu permanecesse horas a observar as formigas que passavam pela tal parede do outro prédio, na paródia sombria do que essa gente costumava fazer ao olhar para janelas-que-dão-para-as-ruas. se de fato meditava ou contemplava o nada não me lembro, mas a necessidade de uma lógica estável que nos dê firmeza nos pés me encarcerava por horas de fronte a tal Janela toda vez que não entendia muito bem as lógicas do mundo em minha volta.

quando finalmente crescido, justamente nos momentos que mais precisaria de estabilidade sobre os pés, a Janela já não me supria de tal urgência. junto com o carro que recebi de aniversário aos 18, ganhei um Motor que não para de rodar dentro de mim e que em seu incessante mover apressa-me por dentro evitando que, por mais forte que eu tente, passe mais que alguns segundos em frente à parede. apressa-me para velocidades, velocidades nas quais não consigo enxergar por onde estou, num desejo eterno por montanhas- russas que impeçam que veja com nitidez o contorno do cenário por onde ando, talvez porque sem ver os contornos seja incapaz de reparar por onde passo e assim, sorvendo o mínimo de imagens a minha volta eu tenha igualmente o mínimo do que afligir-me naqueles intermináveis instantes entre deitar e dormir. esse redemoinho de quedas e vertigens, histórias de sucessos e fracassos, é minha nova-janela, mas não estática em demasiado como a Janela, essa nova- janela, esse Motor, é como um filme de ação no qual de tanto se mexer o ator, entre aviões, carros e bandidos que nos faz esquecer por que tanto se corre em tal filme. mas nem o fracasso com a primeira janela, a Janela, me alertou sobre meus riscos nessa nova forma de estática, essa estática em movimento, e me tornei escravo desse Motor-Perpétuo como antes fora das minhas inspeções à parede.

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domingo, setembro 09, 2007

Formas em Cinza (trecho avulso)

"You don’t know me
Bet you’ll never get to know me
You don’t know me at all
Feel so lonely
The world is spinning round slowly
There’s nothing you can show me

From behind the wall
Show me from behind the wall
Show me from behind the wall
Show me from behind the wall

(Eu você nos dois, já temos um passado meu amor
Um violão guardado, aquela flor)
Show me from behind the wall
Show me from behind the wall
Show me from behind the wall"


"You don't know me" de Caetano Veloso e músicas incidentais.

[Sentou-se na cadeira do terraço, como em qualquer outro dia. Sentia-se velho. Sentia-se fraco. Era novo demais para toda a dor que carregava. Começou seu ritual diário. Colocou na vitrola um disco antigo e fez tocar uma música brega. Pigarreou por alguns segundos e acendeu o cachimbo. Costumava dizer para os amigos que fumava no terraço para não enfumaçar a casa. Nada poderia ser mais mentiroso.

A soltar pequenas baforadas, ele continou a sua rotina e passou a rememorar passados longíquos. Passado quando fumar era proibido e ouvir sua música brega era má notícia. Passado recheado de gritos, torturas e sofrimento. Passado no qual as semânticas mais comuns eram difusas, onde os significados pareciam distintos. Palavras que ele fazia questão de não mais ouvir ou falar. Palavras que a música brega falava por ele. Breguice, amor rimar com dor, ou para ser mais preciso, o amor ser a dor.

Chega-se ao ponto central de sua rotina, ele lembra dela. De como ela odiava que ele fumasse, de como ela não suportava que ele bebesse, de como o gosto musical deles não se aproximavam em um mísero átimo melódico. Lembrou de cada grito, de cada choro, de cada tormenta. A fumaça, as nuvens e a tempestade, do desespero, do cansaço e das lágrimas, dos olhos, gestos e verbos. Lembrou da dor que era amar. Se aproximou do parapeito do terraço e procurou a janela dela. Tentou soprar seu cachimbo para que fedesse do outro lado do terraço.

Quando se divorciaram, não conseguiram chegar a um acordo quanto o apartamento. Não queriam vender, não conseguiriam ceder. Ele teve a idéia de dividir o imóvel em dois e eles passaram de casados a vizinhos. O terraço fora dividido ao meio, mas apenas ele passava por lá. Ele passava toda tarde lá, fumando e ouvindo música se imaginava estar a mostrar a ela as belezas da liberdade. Ela nunca mais resmungara sobre isso. Quando se encontravam nos elevadores, ela mantinha o sorriso pálido e frio, com terna educação. Nunca reclamou do volume do som, nunca soltou um ai, ou qualquer outra demonstração de raiva. Ele havia criado uma trincheira sem guerra. Empoleirado no terraço, imaginava causar tormentos ao seu inimigo, apesar da fumaça não deixar ele ver muito bem o que acontecia do outro lado. Mas, naquele dia, ela deu um pulo no terraço. Olhou-o de um jeito amistoso e disse:

- Você nunca desistirá, não é? Não notas que a única coisa que consegues é causar-me a dor de perceber que acabei com sua vida? Quantos anos isso já se prolongou? Você acha que não me acostumei com esse fedor? Essa música já me é silêncio. Será que você nunca vai procurar saber quem eu sou, será que nunca vai tentar desvendar essa sua paixão por mim? Vai mesmo permanecer batendo cabeça nessa parede que você mesmo construiu para nos dividir? Eu cansei. Meu amor cansou-se. Eu coloquei o apartamento a venda e meu coração no mercado. Estou velha, eu sei, mas sempre haverá alguém para me dar um amor sem paredes ou brutalidades. Adeus.

Ele jurava que queria festejar a saída dela. Mas, não conseguia.]

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sábado, setembro 08, 2007

Biscoito da sorte


- "Não aja como uma rã sentada no fundo do poço". E o seu?
- "Tudo o que é luminoso depende de um elemento ao qual se liga afim de poder continuar a brilhar". Não gostei.
- Pois é, acho que veio trocado.
- Por que você acha isso?
- Ah, querido, é sobre isso que queria conversar com você...
- Sobre biscoitos da sorte?
- Não, sobre nossa relação...
- Quando é que o assunto foi parar na "nossa relação"?
- Com os biscoitos... você não entende? Você deveria ter terminado comigo faz tempo. Eu sou o fundo do seu poço, você não consegue ver? Tudo que você faz no nosso namoro é procurar um jeito de se ferir mais, sabe? Eu nunca te amei, nem nunca fiz questão de fingir isso.
- Mas...
- Cara, eu nunca nem fiz questão de ser educada com você. Mas, você continua do meu lado a pedir carinho, como um cachorro abandonado. Você não tem amor próprio? Que vontade de apanhar de merda!
- É que eu te amo e prefiro te perdoar...
- Eu não faço nada para ser perdoada. Aliás, que coisa escrota, "perdoar". Você faz é questão de dar a outra face e não tem esse papo de dignidade e virtude. Quem dá a outra face não é santo, é masoquista.
- Mas, e você? É sádica, por acaso?
- É aí que vem a minha frase da sorte, que por azar foi você quem tirou. Você é o elemento que eu me ligo para poder brilhar. Quando as pessoas olham nós dois, e vêem você nessa fossa abissal e eu altiva e satisfeita, eu pareço radiante. Elas sentem pena de você, mas não me julgam, me admiram. Eu pareço grande, porque você está pequeno.
- Então é tudo pelo seu ego?
- Não, era. Hoje, acabou.
- Mas, meu amor...
- Cara, eu não quero discutir isso com você. Discutir é só mais uma forma de você se ferir. Eu vou embora.


A moça se levanta e vai embora. Desolado, o rapaz olha para a embalagem de biscoito e pragueja:

- Por que diabos ainda chamam isso de biscoito da "sorte"?

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quinta-feira, setembro 06, 2007

Cama de agulhas(um livro por Caio Almendra) - Prólogo

Por livre e espontânea pressão, resolvi finalizar o trabalho de revisão do meu segundo livro e passar a publicá-lo no Senso. A boa notícia é que até o fim do ano, e provavelmente até boa parte do ano que vem, não irei mais publicar as minhas horrendas crônicas. Mas, agora vocês terão o desprivilégio de ler meu livro em primeira mão. Trata-se de um romance sobre uma noite insone que tive a mais de 6 anos e que mudou minha percepção de vida. Sem mais, eis o "Cama de Agulhas - Prólogo.

tentei dormir mas algo me
algo me torce, algo me
algo me eleva, algo me larga,
algo me alaga de vida no sufoco
ultra espaçoso da agorafobia cotidiana
tentei dormir mas há farpas na cama

deitar me na cama me fez o que sou


Prólogo,

ou os quatro, quase cinco, exercícios para tentar dormir


deitar me na cama me fez o que sou; lembro-me bem, que no dia que dormir tornou-se viver, sentei me à cama, retirei meus sapatos e como quem tivesse passado o dia a trabalhar, apesar do meu ócio convicto e habitual, deitei-me na esperança tola de dormir. não, eu não trabalhava, nem mesmo me ocupava com qualquer coisa que pudesse se chamar de fatigante. todo o meu cansaço, bem como quase toda a minha vida, era um fingimento bobo, um mimetismo animal incompreensível, como que uma vontade de parecer com os meus semelhantes, para não dar a vista dos predadores.

demorei tempo demais para conseguir fechar os olhos. então, comecei minha rotina de exercícios para tentar dormir. o primeiro era simples, olhei para o teto e enumerei os móveis de meu quarto: uma cama, um armário, uma mesa e uma janela. o segundo era folclórico, contei carneirinhos, cabritinhos, poodles e outros animais irritantes. o terceiro, deprimente, masturbei-me pensando em todo o tipo de fantasia sexual(fantasias que nunca tive vontade real de cumprir). o quarto pretendia-se culto, reli livros clássicos. o último, bem, o último... o último era inédito. o último é tudo que tenho que dizer, o último é prolixo, o último é o próximo. o último...




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quarta-feira, setembro 05, 2007

Respiração

O rapaz convivia há tanto tempo com aquela sensação, que já não sabia como era não senti-la. Era como tentar esquecer que tinha braços ou pernas ou um coração. Era como inventar não ser capaz de ver as cores, como se fosse de outra espécie, como cachorros e gatos, que só vêem em preto e branco. Pensar nela era tão comum e cotidiano, tão perenemente contínuo, que o rapaz começou a comparar esse imenso sentimento ao ato de se lembrar de respirar - era uma constante que você só repara na existência quando um pequeno enlace em sua vida te revela sua obviedade. Após tal revelação, não conseguimos mais parar de pensar no ato. "É como respirar", ele explicava aos amigos, "Se você pensa se está respirando ou não, você não consegue mais parar de se concentrar na própria respiração". Os amigos o olhavam assustados, como se tivessem medo dele estar perdido de amores e ódios. Mas, ele continuava seu discurso, "Vocês não entendem? Estar concentrado em sua própria respiração não atrapalha a pensar em outras coisas". Foi quando um amigo apontou a questão, "Há um pequeno probleminha nessa sua história de respiração. Temos apenas um nariz. Já é pelo menos o quarto sentimento que você me descreve como respiratório".

"É que o meu coração é muito maior que meu nariz".

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Solução Imperial

SENTENÇA JUDICIAL EM 1833 ("Ipsis litteris, ipsis verbis").

PROVÍNCIA DE SERGIPE

O adjunto de promotor público, representando contra o cabra Manoel Duda, porque no dia 11 do mês de Nossa Senhora Sant' Ana quando a mulher do Xico Bento ia para a fonte, já perto dela, o supracitado cabra que estava de em uma moita de mato, sahiu della de supetão e fez proposta a dita mulher, por quem queria para coisa que não se pode trazer a lume, e como ella se recuzasse, o dito cabra abrafolou-se dela, deitou-a no chão, deixando as encomendas della de fora e ao Deus dará. Elle não conseguiu matrimonio porque ella gritou e veio em amparo della Nocreto Correia e Norberto Barbosa, que prenderam o cujo em flagrante. Dizem as leises que duas testemunhas que assistam a qualquer naufrágio do sucesso faz prova.


CONSIDERO:

QUE o cabra Manoel Duda agrediu a mulher de Xico Bento para conxambrar com ella e fazer chumbregâncias, coisas que só marido della competia conxambrar, porque casados pelo regime da Santa Igreja Cathólica Romana;

QUE o cabra Manoel Duda é um suplicante deboxado que nunca soube respeitar as famílias de suas vizinhas, tanto que quiz também fazer conxambranas com a Quitéria e Clarinha, moças donzellas;

QUE Manoel Duda é um sujetio perigoso e que não tiver uma cousa que atenue a perigança dele, amanhan está metendo medo até nos homens.


CONDENO:

O cabra Manoel Duda, pelo malifício que fez à mulher do Xico Bento, a ser CAPADO, capadura que deverá ser feita a MACETE. A execução desta peça deverá ser feita na cadeia desta Villa.


Nomeio carrasco o carcereiro.

Cumpra-se e apregue-se editais nos lugares públicos.

Manoel Fernandes dos Santos,

Juiz de Direito da Vila de Porto da Folha Sergipe, 15 de Outubro de 1833.
Fonte: Instituto Histórico de Alagoas.