quarta-feira, setembro 19, 2007

Cama de Agulhas - O primeiro exercício – parte 1, a Janela(continuação)

deitar-me na cama me fez o que sou; agora, eu tinha um Motor, um movimento. ainda não achara porquês, mas em meu caminho esbarraria com um, eventualmente. cabe pensar que não coincidentemente foi por essa época que me ocorreu a primeira insônia que me recordo inteiramente. não que antes não tivesse problemas para dormir, mas como os enevoados pensamentos de criança que misturam a realidade vivida e as histórias contadas, as minhas insônias anteriores não tem a fé necessária para eu considerá-las verdade. voltara de minha primeira viagem motorizada, uma viagem extremamente cansativa, uma espécie de corrida epícura à lugar algum. entre ninfas e sátiros, numa sombria e silenciosa marcha sem endorfina, sem êxtase, sem chegadas e sem vitórias. quando girei a chave da ignição, o motor do carro no qual viajara não tardou um momento em parar, mas quando cai sobre minha cama, esse Motor-de-Dentro esqueceu de desligar-se. apesar de já terminado o ginásio, não entendia a inércia que fazia meu corpo tender ao movimento mesmo que para os olhares mais desavisados estivesse perfeitamente imóvel sobre minha colcha. como o movimento externo tem uma inércia que mantém os corpos em movimento, e que apenas o atrito, a resistência do ar ou outra força rompe, o que dizer desses movimentos que se passam dentro de um corpo? haveria dentro de mim algo para esse Motor se atritar com? que outra força usaria eu para parar e conseguir dormir? como faria para encher-me de ar? na época, eu sabia... ou melhor, eu ainda sei como parar o Motor da época. Como todas as outras coisas que me compõem, o Motor evolui, a meu contragosto. ele aprende com minhas vitórias e com minhas derrotas, de forma que nem minha consciência é capaz de aprender, Ele odeia ser parado e trata todas minhas noites de sono como um fracasso. naquele tempo já remoto, me bastava algumas corridas com os olhos envolta do quarto ou aquela atenção hercúlea indispensável para assistir televisão por mais de dois pensamentos ou a presença rara mas enaltecida de outro corpo repousado sobre a cama, todos esses fatores pouco importantes e distantes da substância de minha insônia mas que mesmo assim faziam com que meu sono viesse facilmente, num apelo desesperado de meu corpo por descanso. hoje meu fardo é deveras maior, esse Motor já conhece todos os meus truques, e minha Insônia já extravasa em muito minha inércia. já não consigo dormir até mesmo por estar parado demais... nesse eterno jogo entre eu e a Insônia pela maciez de minha cama, Ela é a dama e a mestra e restou-me criar vãos exercícios para enganá-la.

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