Cama de agulhas(um livro por Caio Almendra) - Prólogo
tentei dormir mas algo me
algo me torce, algo me
algo me eleva, algo me larga,
algo me alaga de vida no sufoco
ultra espaçoso da agorafobia cotidiana
tentei dormir mas há farpas na cama
Prólogo,
ou os quatro, quase cinco, exercícios para tentar dormir
deitar me na cama me fez o que sou; lembro-me bem, que no dia que dormir tornou-se viver, sentei me à cama, retirei meus sapatos e como quem tivesse passado o dia a trabalhar, apesar do meu ócio convicto e habitual, deitei-me na esperança tola de dormir. não, eu não trabalhava, nem mesmo me ocupava com qualquer coisa que pudesse se chamar de fatigante. todo o meu cansaço, bem como quase toda a minha vida, era um fingimento bobo, um mimetismo animal incompreensível, como que uma vontade de parecer com os meus semelhantes, para não dar a vista dos predadores.
demorei tempo demais para conseguir fechar os olhos. então, comecei minha rotina de exercícios para tentar dormir. o primeiro era simples, olhei para o teto e enumerei os móveis de meu quarto: uma cama, um armário, uma mesa e uma janela. o segundo era folclórico, contei carneirinhos, cabritinhos, poodles e outros animais irritantes. o terceiro, deprimente, masturbei-me pensando em todo o tipo de fantasia sexual(fantasias que nunca tive vontade real de cumprir). o quarto pretendia-se culto, reli livros clássicos. o último, bem, o último... o último era inédito. o último é tudo que tenho que dizer, o último é prolixo, o último é o próximo. o último...
Marcadores: Caio Almendra, Cama de Agulhas

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