segunda-feira, agosto 20, 2007

Origens

Em viagem, tive oportunidade de reencontrar com dois membros peculiares de minha família. Primeiro, o Sr. Oswaldo Lima Almedra, patriarca do meu clã paterno, aos seus oitenta e poucos anos de idade. O outro, a senhorita Giulia Almendra, minha pequena prima de menos de um ano de idade.

O Sr. Oswaldo padece de mal de parkinson, originado por anos de diabetes mal tratada, e depressão aguda. Meu avô mal se mexe por conta de uma atrofia muscular crônica, após um derrame que o manteve por seis meses de cama. Sem andar, sem se servir a própria comida, sem alguns dentes e com uma voz embargada pelo peso de sua mandíbula, poucos conseguem ouvi-lo. Sua mente não caminha mais da forma linear e inteligente que sempre teve, ele devaneia entre a realidade, o passado, o presente e o meramente imaginário. Seus belos olhos muito azuis estão sempre abertos a tentar compreender um pouco do mundo que se passa a sua volta, mas sua cara de dúvida não me esconde mais nada. O Sr. Oswaldo está num abismo de solidão; como os velhos elefantes do Discovery Chanel, ele foi abandonado pelo bando e absorvido pela escuridão da savana noturna. Não, não há resgate possível, ele está submerso numa solidão sólida e impenetrável.

A Srta. Giulia herdou os belos olhos azuis de seu avô. Por sinal, Giulia é a personificação de toda a beleza e juventude que poderia caber em alguém, uma graça de menina. Vive a caçar presas imaginárias, a sorrir para o nada, a tagarelar em sua língua incompreensível. Olha-nos com uma indiferença inimitável e coordena palavras a objetos estranhos. Para ela, todos e tudos são "vaquinha". A mesa, a rede, seu irmão mais novo, ela aponta e grita:"Vaquinha!". Em seu mundo, nenhum de nós existe verdadeiramente. Se a afagamos ou se permanecemos imóveis, não somos mais pessoas que a rede que a acalenta ou a mesa que repousa seus brinquedinhos. Estamos tão distantes dela que é como se não existíssemos.

Não pude não pensar que ela é a origem de todos nós e ele o destino. Nascemos e morremos sós. Podemos permanecer solitários alegres ou melancólicos, mas permaneceremos sós. "Do só viemos e ao só retornaremos".

"Estar sozinho é treinarmo-nos para a morte."

Louis-Ferdinand Céline

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