Coisas Bonitas

Ele chega desesperado em casa. Nunca fora desafiado de forma tão contundente, ninguém nunca pressionou o seu calo com tanta firmeza. Claro que haviam os críticos profissionais, essas siglas desalmadas que se prestam a ganhar dinheiro em cima de frases desconexas e polêmicas bobas. "O livro ousa em demasia na defesa de uma filosofia existencialista que não corresponde mais à realidade contemporânea. Ass: L.R.Pires". Era um maldito livro sobre gastronomia, pitombas! Não use palavras refinadas para evitar expressar que você não entendeu lhufas do livro!
Ela fez tudo diferente. Começara com um elogio tímido, "Gosto do que você escreve". Após alguns instantes, alfineta, "Mas, é tudo tão sombrio". Um jab de esquerda, "Será que você não consegue ver nada de belo no mundo". Ele trava longamente seu olhar nos olhos dela. Sim, ele conseguia ver coisas belas no mundo. Aliás, não conseguia mais era não olhar para essa beleza. Ela aproveita o atordoamento do último golpe e o nocauteia com um cruzado de direita, "Queria que você escrevesse coisas bonitas".
Da lona ele pensa: "Coisas bonitas..." Quanto tempo fazia que não escrevia nada, apenas com a preocupação de ser bonito? Quantas vezes maculara a beleza de suas palavras com divagações sobre a alma humana e sobre a periodicidade da triste? Será que ele ainda conseguiria, escrever o meramente belo? A sua madrugada passa depressa. Manadas de minutos voam pela janela. Ele queria surpreendê-la com um café da manhã pingado de palavras bonitas. Mas, o tempo voa.
Ele começa uma poesia, mas não consegue engrenar na contagem da métrica. Ele começa uma crônica, mas não é capaz de juntar mais de duas palavras. Ele lembra dos olhos dela, fecha os próprios olhos, e em sua mente visualiza uma pequena menina cega. A menina sabe que nunca verá a beleza de uma árvore, mas abraça-as com força, como se pudesse roubar um tanto dessa beleza para si. Talvez, a menina possa, a menina é muito bonita.
Ele ergue a cabeça da lona. Se levanta e, num último sopro de fôlego, escreve a história da pequena menina cega. A platéia vibra com sua recuperação. O breu cambaleia e tomba no chão. O juiz dá a luta por encerrada, ele ganhou de virada! Não tinha como negar, ele ainda conseguia escrever coisas bonitas. Ele provaria isso a ela. Apaixonado por esse sopro de luz na sua literatura ressentida, ele sai pelas ruas a comemorar o resultado de sua luta contra a tristeza, "Vitória, vitória!"
Marcadores: Caio Almendra

13 Comentários:
Andas tão fofo, meu amigo ad-escritor... É bom ver-lhe assim!
Por
Caio Almendra, Às
segunda-feira, agosto 13, 2007
Lindo. Tão leve, tão... bonito.
Por
gigi, Às
segunda-feira, agosto 13, 2007
André, porque diabos comentastes em meu nome???
Por
Caio Almendra, Às
segunda-feira, agosto 13, 2007
Por que esse treco de Google é assim... Vc se loga ao Orkut, e qnd vê todo o computador esta reconfigurado para o novo login, mesmo depois de deslogar de algum, e vc acha que eu, sendo eu, ia lembrar disso ás 4 da manhã?
Por
André Pessoa, Às
segunda-feira, agosto 13, 2007
Ps; Eu entendi o desfecho, mas ngm entendeu. =c )
Por
André Pessoa, Às
segunda-feira, agosto 13, 2007
Ela entendeu. O Danilo pode ter entendido também. Vai ver foi por conta disso que ele não comentou, achou uma piada tosca...
Por
Caio Almendra, Às
segunda-feira, agosto 13, 2007
viu só? coisas bonitas...
Por
visco, Às
segunda-feira, agosto 13, 2007
Droga... Agora ficou óbvio. =c P
Por
André Pessoa, Às
segunda-feira, agosto 13, 2007
Eu acho que a gente devia lidar com mais calma acerca da competitividade que se tornou Dr. Caio Almendra.
Ele já está contando antes do tempo.
Ou cantando.
O que é bom.
Por
Danilo Lemos, Às
segunda-feira, agosto 13, 2007
Sinto-me excluído por não ter uma caricatura, é só isso. Vou ter que fazer análise para retirar esse trauma da minha vida. Será que assim, vocês me incluem mais? Quem sabe me chamar e depois me expulsar para um chopinho nas segundas-feira?
Por
Caio Almendra, Às
terça-feira, agosto 14, 2007
k
Por
Anônimo, Às
terça-feira, agosto 14, 2007
rowling
Por
visco, Às
terça-feira, agosto 14, 2007
Coisas Bonitas(Versão Ternura & Perfeição)
"Queria que você escrevesse coisas bonitas", ela diz. Quero mais é que tudo se exploda.
Por
Ternura & Perfeição, Às
quinta-feira, agosto 16, 2007
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