segunda-feira, agosto 13, 2007

Coisas Bonitas




Ele chega desesperado em casa. Nunca fora desafiado de forma tão contundente, ninguém nunca pressionou o seu calo com tanta firmeza. Claro que haviam os críticos profissionais, essas siglas desalmadas que se prestam a ganhar dinheiro em cima de frases desconexas e polêmicas bobas. "O livro ousa em demasia na defesa de uma filosofia existencialista que não corresponde mais à realidade contemporânea. Ass: L.R.Pires". Era um maldito livro sobre gastronomia, pitombas! Não use palavras refinadas para evitar expressar que você não entendeu lhufas do livro!

Ela fez tudo diferente. Começara com um elogio tímido, "Gosto do que você escreve". Após alguns instantes, alfineta, "Mas, é tudo tão sombrio". Um jab de esquerda, "Será que você não consegue ver nada de belo no mundo". Ele trava longamente seu olhar nos olhos dela. Sim, ele conseguia ver coisas belas no mundo. Aliás, não conseguia mais era não olhar para essa beleza. Ela aproveita o atordoamento do último golpe e o nocauteia com um cruzado de direita, "Queria que você escrevesse coisas bonitas".

Da lona ele pensa: "Coisas bonitas..." Quanto tempo fazia que não escrevia nada, apenas com a preocupação de ser bonito? Quantas vezes maculara a beleza de suas palavras com divagações sobre a alma humana e sobre a periodicidade da triste? Será que ele ainda conseguiria, escrever o meramente belo? A sua madrugada passa depressa. Manadas de minutos voam pela janela. Ele queria surpreendê-la com um café da manhã pingado de palavras bonitas. Mas, o tempo voa.

Ele começa uma poesia, mas não consegue engrenar na contagem da métrica. Ele começa uma crônica, mas não é capaz de juntar mais de duas palavras. Ele lembra dos olhos dela, fecha os próprios olhos, e em sua mente visualiza uma pequena menina cega. A menina sabe que nunca verá a beleza de uma árvore, mas abraça-as com força, como se pudesse roubar um tanto dessa beleza para si. Talvez, a menina possa, a menina é muito bonita.

Ele ergue a cabeça da lona. Se levanta e, num último sopro de fôlego, escreve a história da pequena menina cega. A platéia vibra com sua recuperação. O breu cambaleia e tomba no chão. O juiz dá a luta por encerrada, ele ganhou de virada! Não tinha como negar, ele ainda conseguia escrever coisas bonitas. Ele provaria isso a ela. Apaixonado por esse sopro de luz na sua literatura ressentida, ele sai pelas ruas a comemorar o resultado de sua luta contra a tristeza, "Vitória, vitória!"

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