terça-feira, julho 10, 2007

Talento para ódio


De todas as características que amo em mim mesmo, minha capacidade de arranjar novas e mais profundas formas de ser odiado é a minha qualidade mais notável. Para aqueles que ainda se iludem com alguma lustreza ou dignidade no amor, favor percebam que ser amado, conquistar o amor de alguém ou simplesmente manter uma condição de ilusão amorosa, não passa de uma pequena elevação escamoteada do ato de mentir e do hábito de fraudar. Falo de fraude, porque a primeira qualidade que muda em um homem apaixonado é sua auto-imagem, que, habitualmente, é a maior ruína do contato amoroso anterior, e distingüo da mentira porque não é ato isolado, mas completa alteração fajuta da condição real. Clarificando: mente-se, mas, sobretudo, forja-se uma condição falsa. Não, não é uma alteração real, posto que a auto-imagem, como conceito, não tem como nascedouro a imagem reflexa, isto é, a imagem que os outros mantém de nós. É como um soldado, que para esconder a ruína da fortaleza, fortifica uma alta torre feita de cartas de baralho e, mal se equilibrando, acena para o general com uma bandeira.

Quantos amores não iniciam a partir de imagens? Haveria algum cristão capaz de dizer que se apaixonou já conhecendo verdadeira e profundamente a quem? Observem, o ódio não é feito assim. Se Tício odeia uma imagem de Mévio, sempre haverá a possibilidade de encontrar uma faceta positiva e se encantar com o Mévio-Verdade. O ódio verdadeiro não permite essas blasfêmias. Essencialmente, odeia aquele não é capaz de aceitar que o odiado tenha absolutamente nada de bom. Buscar ser odiado é um ofício árduo, que exige um misto de grosseria, sinceridade exacerbada, mais grosseria e uma capacidade de manipulação da própria imagem, personalidade e brios, que poucos desenvolvem na vida. Dizem, que a razão é a falta de vontade de ser odiado. Ignoram que o ódio é uma iguaria preciosa, cujo sabor não pode ser esquecido, após ser experimentada. Finge não ver que odiar é a melhor forma de aprender a amar, que o Homem rascunhou o ódio, na busca do amor. Aliás, provavelmente, foi o próprio divino que desenhou esses sentimentos assim. Não há escrito monoteísta que não exalte o ódio de Deus. Os escritos só não ensinam-no a amar odiar.

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