quarta-feira, junho 13, 2007

Pô, não sei, sei lá

(ou Os Trogloditas Também Amam)

Pedrão se apaixonou. Não era muito comum entre seus amigos, não deu para evitar. Belisa ia à academia todo dia, puxava papo, pagava suco, sorria. Sim, ela sorria para ele. Fazia bastante tempo que ninguém sorria para ele. Um simples sorriso, as vezes, é bastante gentileza. Depois de alguns meses, a insistência de Belisa ganhou e ele se apaixonou. Passaram a ir e voltar para a academia juntos, todos os dias. Formavam um casal bonito, algo como um Shrek e Fiona do mundo real. Pedrão lutava vale-tudo, tinha um metro e setenta e cento e trinta quilos. Tinha perdido as pontas da orelha no esfrega-esfrega do tatame. A menina não era pequena, mas tinha um andar delicado de ex-bailarina, atual sapateadora.

Mas, não se escreve uma história de amor sem contar como e quando as coisas desandaram. Foi num dia chuvoso de inverno e Belisa estava gripada. Fazia quase um mês que eles se assumiram, passaram a andar de mãos dadas e dar beijinhos nos intervalos da malhação. Foi quando o instrutor de Pedrão, começou a puxar conversa durante um treino.

- Essa sua mina, hein? Sei não...
- Que que foi?
- Bem, eu não queria dizer nada, mas eu acho que ela...
- Ela o que porra?
- Sabe, ela... ela... Pô, mermão, o Joca encontrou ela na Centarius, saca o puteiro?
- Isso é história dos invejosos para me envenenar. Duvido, porra! E ai de quem voltar com essa parada.

Só que ele não duvidava. Para falar a verdade, agora que ele tinha ouvido os bochichos, tudo fazia sentido. Ela fazia balé à noite, dizia que voltava cansada, mas sempre que possível se encontrava com ele depois das quatro da manhã. Ela vivia cheia roupa novas, comprava presentes para ele, pagava jantares caros. Era óbvio. Mas, o Pedrão não queria saber. Ele gostava dela, não tinha porque duvidar. Se fosse verdade, ela contava para ele.

E eles continuaram felizes. Até o dia do aniversário dele. Ela não pode ir. Disse que teria uma apresentação na semana seguinte, que precisava ensaiar e que estaria muito cansada. Ele ficou furioso e ela magoada. Por isso, fez um esforço e chegou no aniversário no meio da madrugada. Ele ainda estava puto e agiu de forma bastante fria. Ela se magoou ainda mais. Então a menina, que já estava cansada de sofrer tanto, resolveu se abrir com Pedrão.

- Drinho, sabe o que é?
- Sei, mas não me fala...
- Para de calundum Drinho, é coisa séria.
- Eu sei, mas não quero nem ouvir.
- Então vai ficar assim? Você vai terminar comigo, sem nem me dar uma chance de me explicar?
- Eu não vou terminar com você... Eu estou apaixonado por você.
- Eu também... Por isso, eu tenho que te contar.
- Não faz isso.
- Eu preciso. Eu trabalho na noite. Eu já fui prostituta, mas desde que a gente começou, eu só trabalho como stripper e...
- EU PEDI PARA NÃO CONTAR, CARALHO!

Então, foi-se embora. Passou duas semanas sem ligar. Não respondia recados, não dava notícia. Nem ia mais à academia. Duas semanas, lendo, debruçado em livros, com uma caneta na mão. Após esse período, chegava o aniversário de Belisa. A menina estava deprimida, mas a festa já estava marcada e paga. Ela ficou num canto, com um sorriso amarelo, cumprimentando quem passava. De repente, o som parou. Pedrão estava em cima de uma mesa, com um microfone na mão. Ele tinha convencido o DJ e os seguranças. Era amor, ele dizia, era amor, eles precisavam ajudar. Deu certo, mas só após uma pequena propina.

- Eu fiz um poema para você, Belisa - Ele começou:
Pô, sei lá, não sei
Você sabe que eu te amo
Mas, pô, sei lá, não sei
Eu pedi para você não contar
Acho que agora não dá
Pô, sei lá, não sei
Eu bem que tentei evitar
Saber só me faz chorar
Pô, sei lá, não sei
Não consigo ouvir essas coisas
Os outros vão encher minhas orelhas
Que são feias mas eu gosto delas
Pô, sei lá, não sei
Acho que não dá mais não
Você partiu meu coração.

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