domingo, junho 03, 2007

Furtos e Surtos

por Caio Almendra
ilustração de André Pessoa

Era um trabalho simples. Zeca Chuleta precisava só roubar um Fiat. Para aqueles que não entendem de carro, permita-me uma pequena explicação. Os carros Fiat não precisam ser arrombados, com alguma força, qualquer gatuno consegue puxar o canto da porta, dobrá-la, enfiar a mão por cima da dobra e abrir o carro. Zeca Chuleta, entretanto, estava entorpecido demais. Já escolhera o carro, arregaçara as mangas para iniciar seus procedimentos, quando percebeu uma diminuta imperfeição em seus planos.

A imperfeição respirava suavemente de dentro do carro. Seus curtos cabelos encaracolados, muito escuros, mantiveram-a ocultas no banco traseiro do Fiat. Vestia um casaco de lã preto e uma calça jeans, mas Zeca Chuleta, como bom gatuno, transpassava as adversidades e a visualizava completamente nua. Uma menina tão nova e miúda, uma imperfeição tão óbvia e oculta, como ela teria um corpo tão perfeito?

Zeca Chuleta ofegava. Era bom em seu ofício, arrombou um carro tão silenciosamente que não acordou a galega dorminhoca. Como operário das mãos leves sempre manteve uma prudente impulsividade. Agora, contudo, sua hesitação ofengante poderia comprometer sua furtividade. No fim, cedeu aos seus impulsos de ladrão.

Zeca Chuleta entrou no Fiat, furtou um beijo intenso e apaixonado e, num rompante, voltou para a escuridão da noite. Antes de sair da vista de vez, virou o rosto e num relance constatou a excelência de sua aptidão... A mais belas das imperfeições ainda dormia, dentro do carro Fiat não-roubado.

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9 Comentários:

  • QUE LINDO!!! O primeiro texto romantico-fofista do SENSO!!! =c D

    OBA!

    Por Blogger André Pessoa, Às domingo, junho 03, 2007  

  • André, tsctsctsctsc... Você parece uma daquelas pessoas que o Danilo criticou no "Nós somos os mortos". Não entendeu nada do texto.

    Zeca Chuleta não estava apaixonado ou era fofista. Ele apenas estava se preocupando com a tipificação e pena do delito que cometeria. Assim, se a imperfeição não estivesse no carro, ele cometeria furto, na modalidade qualificada, visto que ocorreria com "com destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da coisa"(em acordo com o Art. 155, §4º, inciso I, do Código Penal). Esse crime tem previsão de penas entre 2 e 8 anos.

    Entretanto, se Zeca Chuleta subtraísse o Fiat removendo a dorminhoca de dentro do automóvel, estaria comentendo o crime de Roubo, com penas de 4 à 10 anos. A pena ainda seria aumentada em um terço à um meio, por se tratar de veículo automotor(Art. 157, §2º, inciso IV).

    Por fim, roubando um beijo lascivo, Zeca Chuleta cometeu a contravenção penal de importunação ofensiva ao pudor, prática punível apenas com uma leve multa. Como não era homem de posses, Zeca Chuleta teria sua multa reduzida. Provavelmente, nenhum juiz o multaria nessa situação ou, no pior dos casos, estipularia uma multa irrisória.

    Depois, acertaremos os preços e formas de pagamentos das consultas jurídicas e literárias.

    Grato.

    Por Blogger Caio Almendra, Às domingo, junho 03, 2007  

  • Fofo.

    Por Blogger André Pessoa, Às domingo, junho 03, 2007  

  • fofo.

    Por Blogger Danilo Lemos, Às segunda-feira, junho 04, 2007  

  • cadê minha senha daqui?

    Por Blogger gigi, Às terça-feira, junho 05, 2007  

  • Convite enviado.

    Por Blogger André Pessoa, Às terça-feira, junho 05, 2007  

  • Caio, estou adorando os seus textos. Ótima aquisição para o Senso Comum. O "Senso Comum da retomada" está bom demais.

    beijos.

    Por Blogger gigi, Às quarta-feira, junho 06, 2007  

  • Caio, estou adorando os seus textos. Ótima aquisição para o Senso Comum. O "Senso Comum da retomada" está bom demais.

    beijos.

    Por Blogger gigi, Às quarta-feira, junho 06, 2007  

  • obrigado...

    Por Blogger Caio Almendra, Às quarta-feira, junho 06, 2007  

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