sábado, maio 05, 2007

Saideira & Solidão

Devia ser meia-noite. Mas, Abelardo preferia contar em doses. Era só a segunda. Ele arregaça a boca sem dentes para elogiar a música e começa a dançar. Ele não era um bom dançarino, mesmo quando sóbrio. Ninguém se incomoda. Ele puxa papo. Ninguém dá atenção.

Já eram duas horas. Abelardo já não tinha muitas moedas no bolso. A contagem de doses, agora era regressiva. Abelardo já não dançava. Estava cansado. Pede um cigarro, que, antes de acender, deixa cair no chão enlameado. Desiste de fumar, se levanta e volta a dançar. Começa a discursar sobre os problemas do mundo. Culpa a televisão. O pouco de ritmo foi embora há duas doses atrás.

Seis horas. Só tinha dinheiro para meia dose, então bebia os restos de cerveja que sobravam nos copos dos outros. Contou o caso de um tiroteio numa favela mas ninguém ouviu. Alguém lhe ofereceu uma esmola. Ele preferiria um abraço. Voltou a dançar. De fora de sua bebedeira, pareceria que estava tendo um ataque epilético. Ninguém se importou.

Oito horas. Abelardo agora era Jorge. Portava-se com um cavaleiro inglês. Carregava um prato como escudo e um banco como espada. Recusou-se a sair do bar. Queria a última meia dose que tinha guardado. O garçom serviu e voltou a varrer o chão. Jorge tentou beber sem largar suas armas. Não abriu a boca para beber e derramou mais cachaça em seu queixo do que em sua garganta. Deitou-se na calçada molhada.

No meio-dia, o centro da cidade estava deserto. Abelardo acordou com o som de cascos batendo no asfalto. Alguém falava com ele. Uma bela moça num vestido longo, montando um unicórnio. Ela queria informações sobre como voltar ao mundo das fadas.

Ele não sabia. Mas queria companhia para conversar sobre sua mãe.


Por Caio Almendra

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