segunda-feira, fevereiro 12, 2007

O moralismo que reveste a lascívia

- O que você vai pedir? – pergunta Susanna a Eriberto, seu namorado.
-Acho que as costeletas. É isso. Vou pedi-las com molho de maçã huuummm...
- Amor... – reclama a menina – você tá ficando gordo...
- Ahhh Su... você sabe como o mercado de moedas me deixa estressado! Fim de semana o que eu mais quero é relaxar e comer alguma coisa boa e gordurosa!
Sexta feira. A mesa do restaurante temático está cheia de amigos. Mais de 30. Todos ali a comemorar o aniversário de um terceiro, amigo próximo de Susanna e Eriberto. O casal havia se conhecido por intermédio do aniversariante. Eriberto, abastado estudante do último ano de economia, caíra apaixonado ao olhar pela primeira vez, aquela bela morena de olhos verdes, estudante de psicologia e um ano mais nova que ele. Isso há dois anos.
- Pois é... mas você come comida gordurosa todos os dias! – reclama a bela.
- Ah, Susanna! Deixa disso! Pede um hambúrguer pra você! Põe uns shitakes, bem como você gosta...
- Não, obrigada. Pedi uma Ceasar Salad. Tenho consciência para cuidar de mim.
- Hehehe que isso, amorzinho... você está ótima! – brinca o rapaz enquanto aperta os culotes da namorada.

No início Susanna não viu nada de mais em Eriberto. Aquele rico rapaz parecia com tantos outros que estudavam na sua faculdade tradicionalmente católica e composta pela elite socioeconômica da cidade. Nem feio nem bonito. Cuidava da aparência, apesar de que, depois dos 25 (sua mãe dizia) todos eles pareciam se cuidar cada vez menos. Cada vez mais entregues ao trabalho, as bebidas e as frituras. Ela (exatamente como a mãe e como todas as amigas que possuía) só ia “embarangar” com o casamento. Não assumia isso, mas todos percebiam. Fato. Ou com o casamento ou depois do primeiro filho. Provavelmente ainda ia ter aulas de Pilates, Spinning ou fazer alguma dieta. Ia depender do que estivesse na moda e fosse divulgado pela revista semanal que ela achava o máximo (sentia-se realmente informada) folhear. Mas ainda faltava para o casamento. Ainda era bonita de corpo e de rosto. E era uma simpatia.
E Eriberto, que a princípio não despertara nada em Susanna, agora era de fato, o bom namorado e futuro marido. Abastado, tinha um Peugeot 307, morava com os pais e os irmãos num belo apartamento no Leblon e a família ainda possuía uma casa em Itaipava. Ela, já com 24, não ficaria mais encalhada novamente. Ainda que viessem mil pretendentes, mesmo melhores que Eriberto, não ia se arriscar. Terminariam a faculdade e logo depois do matrimônio estariam vivendo em Ipanema, num apartamento que ambas as famílias concordaram em alugar para o casal.

Passados dez minutos de conversa tola e vazia com os demais integrantes da mesa, Susanna percebe que o namorado não larga o celular. Checa sempre o visor, aperta alguns botões e volta à atenção para a conversa na mesa. Desconfiada ela pergunta:
- O que você mexe tanto nesse celular?
- Hã? Eu? Nada, Su.
- Parece até que você não quer atender... ou então tá falando com alguém por SMS.
- Eu? – ri desconcertado o jovem – Que isso, amorzinho! É porque me ligaram por engano e agora não param de ligar. Vou até colocar no modo silencioso para não encher o saco.
A desculpa parece funcionar. Não que Susanna acreditasse realmente que Eriberto podia estar traindo-a. Em primeiro lugar porque parecia babaca em demasia para tanto, em segundo porque não imaginava nenhuma mulher flertando com o namorado. Se bem que o rapaz possuía um relacionamento estável e isso, para algumas mulheres, era um atrativo e tanto, pensava Susanna.

Nos fundos da longa mesa, Susanna avista um rosto conhecido. Trocam olhares. O rapaz levanta as sobrancelhas em sinal de cumprimento. Susanna retribui com um sorriso formal. Ainda não sabe como lidar ao certo com Júlio, mesmo tendo rompido com ele há mais de dois anos. Na certa, era um daqueles relacionamentos que não esqueceria jamais. Mesmo tendo ficado apenas um ano com Júlio, amara-o (de todas as formas possíveis) e pensou que continuaria assim até o fim de seus dias. Mas acabaram por terminar. Incompatibilidade crescente. Ela, com seu semblante de Ipanema, não combinava com seu perfil panamericano aventureiro. Júlio não era muito dado a status e dinheiro. Era classe média do Leme, diferente do abastado Eriberto. Também nunca encontrara ninguém melhor na cama do que o rapaz. Passavam as tardes sempre juntos e durante o tempo em que namoraram, sempre teve a impressão de que divertiam-se e amavam-se verdadeiramente muito mais do que qualquer outro casal na Terra. Acabara porque tinha de acabar. Ela sentia e ele também. Mas que continuassem com suas vidas, pensava ela racionalmente.

- A comida tá demorando muito. Eu vou ao banheiro e já volto. – diz ela para o namorado.
- Claro amorzinho, vai lá! –responde enquanto checa mais uma vez seu celular piscando sem que ela perceba.

O banheiro fica no segundo andar que está completamente vazio. Susanna entra. Dirige-se ao espelho. De súbito, por trás dela, percebe um vulto aproximando-se rapidamente. De repente é agarrada por trás. Quase dá um berro de desespero. Quando percebe quem a enlaçou com so braços em sua cintura apenas pergunta:
- O que você está fazendo aqui?
- Eu não resisti! Eu morro de saudades você sabe...
- Júlio... eu não posso, pára.
- Ah! Deixa disso, Susanna! Você sempre gostou de se agarrar comigo em banheiro público!
Era verdade. A afinidade sexual do antigo casal deixava-os tarados um no outro.
- Não... você não pode ir assim me agarrando e querendo transar comigo...- e continua de forma preocupada – eu tenho namorado...
- Não me interessa Susanna... eu tenho direito adquirido. Afinal já transamos tantas vezes – e começa a apalpar o seu corpo sinuoso, a garota reage aos estímulos.
- Não... não – denotando mas “sim” do que “não” realmente – alguém pode aparecer...
- Ninguém vai subir não... – e puxa o rabo de cavalo da garota e beija-lhe o pescoço.
- Ai....- geme ela ao perceber que a língua do rapaz está em sua orelha.
- Huum... eu sabia que você estava gostando... – diz maliciosamente ao colocar a mão embaixo da saia de Susanna e sentir a umidade em sua calcinha.
- Ai... vem... vem logo então...
Todo o processo não leva menos de cinco e mais de dez minutos. Terminada a rápida sessão nostálgica, estão suados e satisfeitos, ainda que Susanna demonstre preocupação e um pouco de vergonha.
- Eu estava morrendo de saudades... – sorri o rapaz – lembra como a gente comia bastante logo depois de transar? E era sempre alguma porcaria, sempre algo gorduroso e delicioso para matar a fome. Você uma vez, devorou metade de uma pizza calabreza sozinha! E depois ficava preocupada com a forma física! Como se precisasse! Depois dos nossos “exercícios”...
Outra verdade. Susanna sempre ficava com uma fome absurda depois de um orgasmo vindo de uma maravilhosa transa com Júlio.
- Eu preciso descer. – responde ela friamente, tentando disfarçar ao máximo o relaxamento pós-sexo.

A garota chega a mesa e vê os pratos postos. Eriberto está enxugando o suor da testa. Esse idiota está realmente ficando gordo - pensa ela - agora sua por qualquer motivo.

Júlio desce logo em seguida e olha nos olhos dela. Susanna desvia o olhar como se nunca tivesse visto o rapaz na vida.

E Eriberto fica realmente perplexo quando Susanna, sem mais nem menos, espeta uma costeleta do prato do rapaz com o seu garfo, coloca-a no meio de sua salada, enche a peça de carne com molho de maçã e devora-a avidamente. Feliz e satisfeita, regozijada com o prazer da carne.



Daniel Pfaender

7 Comentários:

  • ahahahhahah vc realmente é fascinado por comida, carnes, gorduras...
    relaciona esses "pratos" com felicidade liberdade, sexualidade saudável, transgressão ehehehehehe
    é realmente um amor verdadeiro, ng pode falar nada

    acho que o júlio tem mais a ver a susanna, ele parece mt mais legal que o outro cara...mas vc não pode negar, tem mo jeitão de quem é natureba ehehehehee

    Por Anonymous Anônimo, Às segunda-feira, fevereiro 12, 2007  

  • hahaha adorei!
    prazer carnal = prazer carnívoro
    hahahaha
    o instinto falando mais alto...
    abç!

    Por Anonymous Anônimo, Às segunda-feira, fevereiro 12, 2007  

  • daniel, casa comigo?

    Por Blogger gigi, Às terça-feira, fevereiro 13, 2007  

  • Eu fico pensando, Susanna é a única moralista escrota? Ou a atitude dela poderia ser tomada poq qq outro ali na mesa?

    E qual foi a da carne? Ela na verdade gosta de comidas gordurosas assim como gosta do Julio, mas por moralismo se atém ao Eriberto e as saladas "cool" ?

    Continua esse texto aí, Pfaender

    Abraços!

    Por Anonymous Anônimo, Às terça-feira, fevereiro 13, 2007  

  • Convenhamos tbm que a menina era super incoerente por namorar um cara nada a ver com ela, né? Acaba recorrendo a traição como fuga e satisfação.

    Bem legal o seu blog, Daniel! Beijos!

    Por Anonymous Anônimo, Às terça-feira, fevereiro 13, 2007  

  • maravilhoso o texto. parabéns, daniel.

    Por Blogger Ana Priscila Freire, Às quarta-feira, fevereiro 14, 2007  

  • Costeletas e molho de maçã? Vc nao quis citar o outback por caso, não Daniel? huuuuummmmm adoro ribs on the barbie!

    realmente a Su foi bem eficaz na hora de cobrir a semvergonhice dela com o moralismo, mas atire a primeira pedra quem nunca cobriu, né?

    bjins

    Por Anonymous Anônimo, Às quarta-feira, fevereiro 14, 2007  

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]



<< Página inicial