domingo, dezembro 03, 2006

Intervenção

Assim que adentra seu apartamento carregando suas compras do mercado ele não acredita no que vê. Todos os seus colegas de faculdade, ou pelo menos boa parte deles, esperam por ele na sala. Todos com os quais havia vivido longos cinco anos no meio de livros de Administração, cartas velhas de baralho e as mais chatas e moralistas conversas que ele não ouvia desde a tarde em que passara jogando bingo com a avó e as amigas da velha. A tarde no bingo havia gerado 560 reais e um emprego (que por sinal ele não tinha mais) numa empresa das amigas da avó. Os cinco anos de faculdade só muito stress, prejuízos financeiros e horas perdidas em restaurantes caros ouvindo falar sobre os mais chatos assuntos. Era graduado em administração e pós-graduado em Moralismo, Casamento e Vida Comum. Aprendeu com os melhores. Seus colegas de faculdade.
O mais justo é que a primeira pergunta fosse a mais óbvia:
- Como vocês entraram aqui?
- Bem –apressa-se logo em explicar João – falamos com o seu porteiro, cara. Nós insistimos muito, é certo, mas depois que ele reconheceu a Sandrinha nos deixou entrar.
- Sei... –diz enquanto deixa as sacolas de mercado no balcão da cozinha modulada. – E o que estão fazendo aqui?
- Isso é uma intervenção, Davi. – diz Rogerinho um dos mais falantes e alegres do grupo.
- Intervenção? – retruca Davi sem entender direito.
- É cara, nos Estados Unidos isso é muito comum. Rola uma intervenção quando os amigos de um sujeito adicto em alguma coisa decidem convencê-lo, por meio de argumentos, a largar o vício.
- É mesmo? – responde em tom de sarcasmo – Puxa vida, Rogerinho... que situação complicada...e qual vício meu vocês vieram combater? Tabaco? Café? Allegra D?
- Davi, você precisa ouvir a gente – continuou Rogerinho enquanto sentava-se de pernas cruzadas ao sofá – Ultimamente você tem tido alguns vícios terríveis...
- E o seu vício de dar o rabo? – pensou maldosamente Davi. Quase falou, mas foi melhor pensar. Um comentário homofóbico não ajudaria em nada naquela situação. Nem mesmo Davi tinha qualquer problema com homossexuais então não resolveria transformar sua raiva em algo constrangedor para Rogerinho. Nem adiantaria também dizer para todos que ele havia visto Rogerinho aos amassos com o professor de inglês numa dessas festinhas alternativas. Não era muito do estilo de Davi fofocar. Diferente de Rogerinho.
- Davi, você é nosso amigo. Acho que pior do que o mal dos seus vícios é você estar em falta conosco...- diz Herculana, uma menina de 22 com cabeça de 44 anos, solteira e sem filhos. – Já faz mais de um mês que você não nos vê. Faltou ao aniversário da Sandrinha, não apareceu no campeonato de boliche que promovemos com a galera da Pedagogia, furou conosco no rodízio de crepes, enfim...
- Só programas chatos, Herculana. – rebate Davi.
- Antes você gostava...
- Acho que nunca me diverti com vocês. Grande parte da culpa foi dela. – responde apontando para Sandrinha.
- Eu?! – Sandrinha aponta para si mesma de forma sonsa e retardada – Como assim? – retruca com sua voz estridente.
- Você mesma. – afirma Davi – Acho, ou melhor, tenho certeza de que só ia nesses programas de vocês, que só freqüentava o meio careta e conservador de vocês porque era afim de te pegar.
- Ai que babado! Bafão! – Rogerinho coloca as costas das mãos em frente a boca e inclina o corpo fingindo surpresa. Na verdade é o único que não se surpreende com a afirmativa de Davi.
- Pára de fingir, Rogerinho. Eu falei contigo sobre a Sandrinha aquele dia em que toda a galera foi pra boate. E, diga-se de passagem, o único dia que consegui levar vocês pruma boate!
- Quer dizer que é isso, Davi? – Sandrinha tenta encará-lo – Tudo isso só por minha causa?
- Não se faça de sonsa. Ou acha que te levei aqui em casa inúmeras vezes para estudarmos?
- Mas nunca rolou nada...
- Pois é! Também, você já namora aquele mala há mais de seis anos... quando terminou com ele vi a chance de rolar algo entre nós. Mas você, insegura e medrosa não agüentou um mês longe do cara e voltou logo pra ele.
- Óooo, dexá eu falar...- levanta-se do sofá Abelardo, o caipira deslumbrado. – Eu acho que essa história toda não tem só a ver com a Sandrinha, Davi. Tem a ver com todos nós. Você não pode simplesmente sumir só porque não concretizou nada com ela, tem que lembrar de nós, que somos seus amigos.
- Não, Abelardo. Amigos não. No máximo colegas. E bem chatos. Faça-me o favor! Eu nunca fui falso o suficiente para aparentar que me divertia com vocês. Assim como também nunca fui falso em relação a querer levar a Sandrinha pra cama! Eu dou em cima dela desde a época de calouro. Ela sabe disso muito bem.
- Ok. – fala João – Nós não somos “doidões” como você nem vivemos a vida intensamente como você vive, e qual o problema com isso?
- Em momento algum eu afirmei viver intensamente minha vida. Mas pelo menos vivo de forma coerente! Exagero em alguns momentos é verdade, mas sei que isso tudo vira experiência e aprendizado. E vocês? Quer coisa mais incoerente do que ir para um bar de status beber Guaraná Light por dez reais a lata? E reunião de jogos de tabuleiro nas noites de sexta feira onde vocês se despedem por volta de meia noite? Vocês têm 20 e poucos anos, mas tratam os corpos e espíritos de vocês como se tivessem 40! E parecem se orgulhar disso! A Herculana é um ótimo exemplo! Bonita, jovem e inteligente! Mas chata igual a uma velha! Podia ser amiga da minha avó! Gasta todo o dinheiro em programas de alta cultura, mas nunca a vi saindo com um cara para conhecê-lo melhor, transar, assistir um filme sei lá, qualquer coisa. Agora soube por fofoquinhas do Rogerinho – o jovem rapaz, que continua sentado de pernas cruzadas baixa os olhos envergonhado – que você está saindo com ela. Pois talvez seja bom para vocês dois, João. Porque você também nunca foi muito boa companhia, cara. Só sabe falar de tecnologias de celulares e de comidas bonitinhas de bares temáticos na Barra.
- É disso que estamos falando, Davi! – diz Herculana do balcão da cozinha modulada enquanto revira as sacolas de supermercado com Sandrinha – Cerveja, chá preto, Hershey’s, Benflogim, e quatro caixas de Pall Mall! Você devia se envergonhar!
- Vocês é quem deviam ter vergonha. É ridículo invadirem a minha vida e agirem como mães que fiscalizam os filhos constantemente.
- Nós só estamos preocupados com você, Davi...- diz Sandrinha – Seus hábitos não são nada saudáveis, na sua geladeira tem bacon, Toddy, leite condensado, vodka... as únicas coisas boas que encontrei foram Gatorade e rúcula.
- A rúcula eu coloco na pizza de bacon e o Gatorade eu misturo com a vodka. –Responde cheio de sarcasmo.
- Davi...- comenta Rogerinho - você tem estado depressivo, cara. Não adianta negar. Desde que perdeu seu emprego...
- Emprego? Meu emprego não era tudo na minha vida, Rogerinho. Mas pra você tudo gira em torno disso, correto? Tá certo que meu ócio não tem sido muito legal,talvez não esteja em boa fase, mas chamar isso de depressão? Exagero puro de vocês! Eu agora estou escrevendo para teatro e...
- Teatro?! – Rogerinho quase dá um ataque de fricote – Teatro não dá dinheiro, Davi! Você tem que concentrar seus esforços, toda a sua bagagem em Administração para ingressar numa empresa sólida! Ganhar dinheiro!
- Eu prefiro ganhar dinheiro escrevendo, Rogerinho.
- E desde quando você é escritor? Hahaha! - os outros também não conseguem esconder sorrisos, achando graça.
- Desde que eu escrevo, cara. Só falta eu ser publicado. Mas acredite, estou caminhando pra isso. Posso não estar no caminho mais rápido, correto ou seguro, mas diferente de vocês, tenho a arrogância e o ímpeto da juventude, não tenho medo de falhar, não me deixo tomar pela insegurança. Você, Rogerinho, é um excelente empregado numa sólida firma. Mas gasta todo o seu tempo com o seu trabalho, ou diz que gasta para se eximir de uma vida afetiva. Tem medo do que os outros vão pensar de você. Sente vergonha do que é. Pois eu te digo, cara, não tenha medo e saiba conciliar sua vida profissional e afetiva, vá a luta. O mesmo se aplica ao resto de vocês quanto a insegurança. Vejo um bando de meninos e meninas brincando de adultos. Acham que já realizaram tudo o que tinham para realizar e agora só falta terem filhos aos 23 anos e fingirem que estão na meia idade. Tudo porque ainda têm medo de se arriscarem em busca de novos objetivos e realizações.
Todos os presentes ficam calados.
- Pra terminar: o que rolou aqui foi uma intervenção no melhor sentido da palavra. Nada de novo. A mesma que vocês sempre fizeram. Não só comigo, mas uns com os outros. Invadindo a vida acadêmica para saber qual nota o outro havia tirado, se o CR de vocês estava competitivo, no que o outro trabalhava e quanto ganhava e como a vida social e afetiva poderia afetar o outro de forma a direcionar a vida profissional de vocês. Pois sem querer, acabei fazendo uma intervenção com todos vocês. Expus os maiores defeitos de cada um com todos os argumentos concisos e coerentes. Mas acredito que vocês não vão tirar nada de bom do que falei. E sinceramente nem espero, pois já conclui que não quero vocês no meu caminho na realização dos meus objetivos. Agora saiam. – diz Davi enquanto abre a porta.
Todos saem. Davi fecha a porta.
- Eles vão voltar. Merda...
Situação interessante pela qual havia acabado de passar. Mais tarde, talvez até escrevesse um esquete sobre ela. Só não sabia em qual tom se daria o rumo da história. Tragédia ou comédia? Uma mescla dos dois? Isso Davi resolveria mais pra frente. Naquele momento só tinha certeza de uma coisa: o porteiro não ganharia a sua caixinha de Natal naquele ano.


Daniel Pfaender

12 Comentários:

  • tá escrevendo cada vez melhor hein!
    morte aos malas!


    "Rogerinho coloca as costas das mãos em frente a boca e inclina o corpo fingindo surpresa." -> HAHAHAHHAHAHA!!

    abç

    Por Anonymous Anônimo, Às domingo, dezembro 03, 2006  

  • Hellooo Daniel !!!
    Poxa, você furou com a gente de novo né...que coisa feia tsc tsc tsc
    Muito legal o seu post, quem é essa galerinha que você tá de saco cheio, hein ?? Fiquei super curiosa...
    Na próxima dá mais dicas, a gente pode reunir o pessoal e tentar advinhar, quem acertar ganha um prêmio....
    Bem, preciso ir, tenho um dia super cheio amanhã !!
    Beijão

    Por Anonymous Anônimo, Às domingo, dezembro 03, 2006  

  • Pfaender, como sempre, com um chute de efeito no canto.

    Por Anonymous Anônimo, Às segunda-feira, dezembro 04, 2006  

  • Davi não é o único... todo dia, toda hora eu sofro uma intervenção! Pais,amigos,colegas de trabalho, ficantes,enfim...
    acho que o que nos resta é ter estômago para aceitar que em muitos casos nós é que estamos intervindo e nos satisfazemos com isso. Não por maldade, acho que é mais pelo alívio de não estarmos no lado que sofre a intervenção.
    Adorei a "dissecada", Daniel! Mais psicologia,please! rsrsrs

    Bjos

    Por Anonymous Anônimo, Às segunda-feira, dezembro 04, 2006  

  • Eu ouvi alguém dizendo pra nós pararmos de postar e o blog ser só dele?

    Por Anonymous Anônimo, Às quarta-feira, dezembro 06, 2006  

  • Pronto, maior porrada que é essa impossível....Agora é fazer uma maciça campanha de marketing pra divulgar o blog entre Rogerinho, Sandrinha Herculana e João... - oooou e eu também...Abelaarrrdo....véi, to tão cansado...a Bethan... - chega, Abelardo...cara mala...
    Bom, eu acho isso, devemos divulgar, vai ser um barato, quem se dispõe?

    Por Anonymous Anônimo, Às quarta-feira, dezembro 06, 2006  

  • caraaalh... perdendo a linha.. heheh

    Por Anonymous Anônimo, Às quarta-feira, dezembro 06, 2006  

  • Ahhhhhhh peguei vocês! Bang Bang Bang!

    Por Anonymous Anônimo, Às domingo, dezembro 17, 2006  

  • Aê mané, sabe escrever pra blog não? Aqui vc escreve pouco pruma galera mongol estimular seu narcisimo comentando, grande desse jeito o máximo q c vai conseguir é comentário de quem leu meia linha.


    Continue se esforçando!

    Por Anonymous Anônimo, Às quinta-feira, dezembro 21, 2006  

  • Tu és um babaca mesmo, hein? Depoois de ser carregado nas costas por todo mundo da faculdade vc vem com essa revoltinha!
    Tu és o maior playboy também, seu otário.
    E imagina se vc não é homofóbico, só de ter feito um comentário desse já diz o que vc realmente pensa. Em tempos de tolerãncia, um cara que se diz "fodaço", "mudernu"(kkk), anti-conservadorismo, etc falando uma coisa dessa...
    Playboyzão sim, e desempregado, loser, babaca

    Por Anonymous Anônimo, Às terça-feira, fevereiro 06, 2007  

  • Incrível ver o povo se expressando dessa maneira, e de uma forma que nunca vi em vários anos de faculdade, culpa de um recalque moralista classemédia que sempre pairou nas cabeças de muitos ali.

    Por Anonymous Anônimo, Às sexta-feira, fevereiro 23, 2007  

  • aiiii... hj tem festa na liége... mas meu bumbum tá doendo tantuuuu... ces querem u convite? vem aqui buscar então (antipático)

    Por Anonymous Anônimo, Às sábado, junho 02, 2007  

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