Jogada Perdida
Anselmo e seu pai estão num vagão de metrô. Ainda faltam algumas estações para que cheguem ao ponto de destino.Anselmo decide puxar conversa.
- Pois é, pai! Encontrei com o Gregório ontem.
- E aí? Como ele está?
- Está bem! Muito bem eu diria! Morando em São Paulo. Trabalha a beça, mas ganha um bocado.
- Que bom...
- Ele me deu umas dicas também, sabe? Sobre dinheiro.
- É mesmo?
- Sim. Aconselhou-me a comprar alguns títulos do governo.
- Que títulos?
- Dívidas do governo, pai. Algo a ver com a taxa SELIC, tipo isso...
- Huuummm...
- Ele me disse que rende bem mais do que poupança. Na verdade disse que colocando o dinheiro nesses títulos nem vale a pena ter uma poupança porque além do dinheiro não render nada você acaba tirando de lá.
- Sei.
- E mais, disse que quase não havia risco, que só em uma situação de calamidade mundial o governo não paga.
- Então há algum risco.
- É verdade, mas é bem pequeno e...
- Não importa filho, existe um risco.
- Pois é, e eu sei que não sei mexer muito bem com dinheiro, por isso pensei em pedir ajuda ao tio Sindoval ele trabalha no mercado financeiro e...
- Olha Anselmo, eu não te aconselharia a fazer isso não. O risco é muito grande,você não sabe mexer com dinheiro.
- Mas eu ia comprar pouco, pai. Não ia perder muito caso me desse mal.
- Mas começa assim. Você compra um pouco, depois quer aplicar mais, quando vê já virou um jogador compulsivo. Mercado de finanças, ações, títulos, fundos de investimento, se não souber como lidar com dinheiro é melhor nem começar entendeu?
- Mas vê o tio Sindoval. Quando começou ele também não devia saber muito e agora veja ele hoje. Montado no dinheiro.
- E quantas noites ele dorme bem? Acha que ele não vai pra cama pensando nos milhões que pode perder?
- Sim mas...
- E tem mais, aquele dinheiro todo dele é aplicado, mais ou menos como os americanos, que hipotecam tudo, sabe? Tá certo que ele dá uma vida ótima pra sua tia e pros seus primos, mas qualquer deslize a casa, os carros e a escola dos seus primos vão por água abaixo entendeu?
- Entendi... ele se arrisca pra ter uma vida de rei.
- Se arrisca muito, filho. Tudo bem que temos uma vida de classe média,podia ser bem melhor, mas também nunca coloquei nossa casinha,meu carro, a educação de vocês em xeque. Quando entrou nessa ele me chamou pra ir junto você sabia?
- Sério?
- Pois é, na hora até tive vontade, mas depois pensei melhor... já estava casado, você e seu irmão já haviam nascido...
- Pois é...
- Por isso não valia a pena entendeu? É lógico que se eu fosse solteiro entraria nessa numa boa, mas sempre tem um risco muito grande. Você não leu o Jogador?
-Li sim. Muito bom por sinal.
- Então? Não viu o que acontece no final?
- Sim... o Alexei se fode no final...
- Com certeza. E se fode sorrindo.
- Ele não ganha nada, joga pra caramba, aposta tudo, é sacaneado pela Polina e no final ainda se dá mal.
- Isso mesmo.
- Tudo bem... mas aonde o senhor quer chegar com tudo isso?
- Que tudo o que aconteceu com ele pode acontecer com você.
- Ahhh...
Os dois ficam em silêncio. Anselmo pensa no que o pai acabara de dizer. Principalmente o sobre ser solteiro e livre para apostar. Não havia entendido o argumento de seu pai. Afinal, ele próprio, o Anselmo, não era solteiro? Ia perguntá-lo sobre isso quando de repente uma bela garota entra no vagão e se senta de frente para o rapaz. Anselmo fica admirando seu belo corpo e percebe o quão lindo é o rosto daquela menina. O rapaz acaba por esquecer de argumentar com seu pai sobre ser jovem, sem compromisso e poder se arriscar para tentar algo melhor. Anselmo sorri para a garota e ela retribui.
Alguns anos mais tarde estarão casados, ela esperando pelo segundo filho dos dois, e ele pagando a 18ª prestação da casa. Anselmo provavelmente nem se lembrará da conversa que teve com seu pai no metrô.
Daniel Pfaender
- Pois é, pai! Encontrei com o Gregório ontem.
- E aí? Como ele está?
- Está bem! Muito bem eu diria! Morando em São Paulo. Trabalha a beça, mas ganha um bocado.
- Que bom...
- Ele me deu umas dicas também, sabe? Sobre dinheiro.
- É mesmo?
- Sim. Aconselhou-me a comprar alguns títulos do governo.
- Que títulos?
- Dívidas do governo, pai. Algo a ver com a taxa SELIC, tipo isso...
- Huuummm...
- Ele me disse que rende bem mais do que poupança. Na verdade disse que colocando o dinheiro nesses títulos nem vale a pena ter uma poupança porque além do dinheiro não render nada você acaba tirando de lá.
- Sei.
- E mais, disse que quase não havia risco, que só em uma situação de calamidade mundial o governo não paga.
- Então há algum risco.
- É verdade, mas é bem pequeno e...
- Não importa filho, existe um risco.
- Pois é, e eu sei que não sei mexer muito bem com dinheiro, por isso pensei em pedir ajuda ao tio Sindoval ele trabalha no mercado financeiro e...
- Olha Anselmo, eu não te aconselharia a fazer isso não. O risco é muito grande,você não sabe mexer com dinheiro.
- Mas eu ia comprar pouco, pai. Não ia perder muito caso me desse mal.
- Mas começa assim. Você compra um pouco, depois quer aplicar mais, quando vê já virou um jogador compulsivo. Mercado de finanças, ações, títulos, fundos de investimento, se não souber como lidar com dinheiro é melhor nem começar entendeu?
- Mas vê o tio Sindoval. Quando começou ele também não devia saber muito e agora veja ele hoje. Montado no dinheiro.
- E quantas noites ele dorme bem? Acha que ele não vai pra cama pensando nos milhões que pode perder?
- Sim mas...
- E tem mais, aquele dinheiro todo dele é aplicado, mais ou menos como os americanos, que hipotecam tudo, sabe? Tá certo que ele dá uma vida ótima pra sua tia e pros seus primos, mas qualquer deslize a casa, os carros e a escola dos seus primos vão por água abaixo entendeu?
- Entendi... ele se arrisca pra ter uma vida de rei.
- Se arrisca muito, filho. Tudo bem que temos uma vida de classe média,podia ser bem melhor, mas também nunca coloquei nossa casinha,meu carro, a educação de vocês em xeque. Quando entrou nessa ele me chamou pra ir junto você sabia?
- Sério?
- Pois é, na hora até tive vontade, mas depois pensei melhor... já estava casado, você e seu irmão já haviam nascido...
- Pois é...
- Por isso não valia a pena entendeu? É lógico que se eu fosse solteiro entraria nessa numa boa, mas sempre tem um risco muito grande. Você não leu o Jogador?
-Li sim. Muito bom por sinal.
- Então? Não viu o que acontece no final?
- Sim... o Alexei se fode no final...
- Com certeza. E se fode sorrindo.
- Ele não ganha nada, joga pra caramba, aposta tudo, é sacaneado pela Polina e no final ainda se dá mal.
- Isso mesmo.
- Tudo bem... mas aonde o senhor quer chegar com tudo isso?
- Que tudo o que aconteceu com ele pode acontecer com você.
- Ahhh...
Os dois ficam em silêncio. Anselmo pensa no que o pai acabara de dizer. Principalmente o sobre ser solteiro e livre para apostar. Não havia entendido o argumento de seu pai. Afinal, ele próprio, o Anselmo, não era solteiro? Ia perguntá-lo sobre isso quando de repente uma bela garota entra no vagão e se senta de frente para o rapaz. Anselmo fica admirando seu belo corpo e percebe o quão lindo é o rosto daquela menina. O rapaz acaba por esquecer de argumentar com seu pai sobre ser jovem, sem compromisso e poder se arriscar para tentar algo melhor. Anselmo sorri para a garota e ela retribui.
Alguns anos mais tarde estarão casados, ela esperando pelo segundo filho dos dois, e ele pagando a 18ª prestação da casa. Anselmo provavelmente nem se lembrará da conversa que teve com seu pai no metrô.
Daniel Pfaender

5 Comentários:
porra, o pai do ancelmo é meio buxa!
é melhor se arriscar e viver do q nao se arriscar e nao viver!!
coéééé!!!
abraço
Por
Anônimo, Às
sexta-feira, outubro 20, 2006
marcos, o libertário....tem um conselho radical para todos os problemas...
cuidado rapazinho, você já não está mais conseguindo esconder seu comportamento subversivo....tanta sinceridade e transparência podem prejudicar um brilhante futuro...
Por
Anônimo, Às
sexta-feira, outubro 20, 2006
é verdade, vou me controlar!
Por
Anônimo, Às
sábado, outubro 21, 2006
Na verdade achei que o Anselmo desistiu muito fácil...O pai não se irritou com ele, não ameaçou o cara, nem jogou uma maldição no seu futuro..Ele só reproduziu o pensamento pequeno e conformista da CLASSE MÉDIA eheheheheh
Acho que o Anselmo queria mesmo é a aprovação do pai, faltou desafiar o cara " Pai, eu vou me jogar !! " como dizem os viadinhos...(ahahahahah que porra é essa, virei o Freud do blog)
Por
Anônimo, Às
quarta-feira, outubro 25, 2006
"Encontrei com o Gregório ontem" foi foda! ainda mais vindo de SP!
Por
João Cândido, Às
terça-feira, outubro 31, 2006
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