Inatividade Telepática
Tudo em preto e branco. Então só pode ser um sonho. Na verdade está mais do que óbvio de que se trata de um sonho. A situação por si só já é surreal demais para não ser também onírica em toda a sua essência. Hidalgo está de frente para Lupe. A bela garota, deitada de forma inclinada, numa cadeira que lembra a de um consultório dentário. Hidalgo de pé. Admirando (nunca deixa de admirar) a grande paixão de sua vida (ou uma das dez mais segundo seus amigos, mas Hidalgo crê que Lupe é a única). A sensação do coito interrompido, do ato nunca consumado, do feito jamais realizado é o que sobra depois de tanta paixão, tesão e inspiração que a moça desperta no jovem rapaz. Isso mesmo, Hidalgo nunca foi realmente íntimo de Lupe. Ou melhor, ele foi. Para ele erammais íntimos do que nunca. Ela sequer deu qualquer tipo importância diferente da que dava a qualquer outro cara doido para levá-la para cama. A mínima. Hidalgo não apenas queria levá-la para cama. Que se fodesse, pensaria Lupe. Mas Hidalgo, apesar de inseguro, é contraditoriamente presunçoso em relação a menina e sempre (100% dos casos) em que se encontram é Lupe que sai pelo céu e ele pelo porão. Hidalgo acredita que Lupe ainda vai ser sua. Ou pelo menos que tenha de ser. E se não for, que ele não saia mais por baixo porque isso incomoda Hidalgo demais. Bem, agora ele está na situação ideal. Lupe deitada a sua total mercê. Amarrada a cadeira. E não importa que seja um sonho porque Hidalgo sabe que está num sonho (ele sabe dessas coisas) e até se conforta pois está no seu sonho. Na mão direita do rapaz uma seringa. Sódio-pentotal, um barbitúrico de ação rápida que após injetado na corrente sanguínea leva o paciente a um estado de relaxamento onde o mesmo não censura nenhuma situação nem percebe que possa estar sujeito a um interrogatório. A telepatia do mundo moderno dentro de uma ampola. Sem perguntar Hidalgo aplica o soro da verdade em Lupe. Depois de pouco tempo ao perceber o efeito fala:
- Então... acho que já posso começar...
- Eu te falaria tudo... não precisava me aplicar isso... você sabe que eu detesto injeção... – responde Lupe, magoada.
- Desculpe... mas só assim pra você confessar...
- Confessar? O que?
- Tudo, Lupe. Que nossa relação é recíproca, que você pensa em mim na mesma proporção que eu penso em você. Que nascemos pra ficar e devemos terminar juntos. Que temos mais do que uma atração sexual ou afetiva, uma atração lógica. Seria totalmente incoerente se não ficássemos juntos. Estúpido até. Eu quero que você confesse isso, Lupe.
- Hidalgo...
- O que é?
- Do que você mais gosta em mim?
- Hã?
- É, qual seria a minha melhor característica na sua opinião?
- Bem eu...
- Vamos lá... até eu sei essa...
- Bom... eu acho que...
- Pára de enrolar! Quer saber do que você mais gosta em mim?
- Anda! Fala logo! - insistia já nervoso.
- Você adora o fato de eu ser perfeita para você.
- Como assim?
- É o que você entendeu, mesmo. Minha maior virtude é simplesmente te agradar em todos os aspectos.
Hidalgo ficou perplexo, ainda tentou falar algo para Lupe quando a mesma prosseguiu:
- O que mais te incomoda é me querer para você e não me ter. Porque você, Hidalgo, mimado do jeito que é, acha que eu tenho de ser sua por direito.
- Mas...
- Acha que ninguém é melhor pra mim do que você, não acha?
As coisas não estavam saindo conforme o esperado. O rapaz começou a se irritar, afinal, aquele sonho era dele. Que o curso das coisas se desse conforme a vontade do jovem mimado.
- E sabe do que eu mais gosto em você, Hidalgo? Da sua atenção.
- Da minha atenção?
- Exato. Mas não da atenção que um casal dá um ao outro. Não. Outro tipo de atenção. Adoro o fato de você perder seu tempo comigo. Adoro que você dê mais valor a mim do que a si próprio e mais valor até do que eu mesma me dou! É ótimo te ver aos prantos, gritos e lamúrias só pela minha causa. Gosto de saber que um mínimo ato meu pode desencadear reações terríveis em você. Que seja de uma bebedeira na noite em que nos esbarramos até uma semana que você fica disperso na faculdade só pensando em mim. Acha que eu não te vejo com o canto dos olhos enquanto beijo outro cara e vejo o quão nervoso e incomodado você fica? Acha que não percebo o quanto você fala com as minhas amigas só para parecer desdenhoso comigo quando no fundo está é morto de vontade de saber da minha vida, onde vou estar, com quem vou estar, com quem vou dormir... eu sei. Pois saiba, Hidalgo, que é a sua atenção que me alimenta. A sua atenção, importância e obsessão que tem por mim é que cria todo o murmurinho, que me faz ser falada. Que me faz ser abordada, que me faz ser desejada. É a sua atenção que faz com que eu receba a atenção dos outros. E eu amo isso. A sua atitude comigo é a base para que eu seja tudo o que sou. Curioso, né? No fundo você pensava tanto em mim, quando na verdade estava pensando é demais em si mesmo...
Hidalgo não conseguia mais encarar Lupe a partir daquele momento.
- Confuso? Não fique. Afinal, tudo se resume na simplicidade ou complexidade de você ter me criado. Está mais do que óbvio: eu só sou assim, porque você me fez assim. Difícil de entender? Ora... você está num sonho... quer situação mais significativa do que essa? Só o fato de aliado a isso você ter me dado esse soro da verdade... que por sinal eu adorei,viu? Tava brincando contigo... eu adoro a pontadinha de uma injeção...
Lupe abriu um largo e lindo sorriso para Hidalgo e sua imagem ficou turva até desaparecer por completo.
Hidalgo acorda no meio da madrugada. Uma pós-ereção estava visível por cima de seu short. Alguns lençóis estavam por todos os lados, alguns até enrolados no corpo do rapaz. Suas bochechas estavam inchadas e seus olhos cheios de lágrimas. Procurou respirar fundo.
Após alguns minutos já havia se recomposto. Resolveu avaliar a situação de forma mais racional. No final, a única conclusão que teve foi a de que não havia perguntado o suficiente para Lupe. Havia coisas que ainda precisava saber. Coisas que só ele ainda não sabia ou nunca faria questão de saber. Por mais que lhe fosse explicitado. Em sonho ou não.
Mas ele dormiria a próxima noite na esperança de sonhar novamente. Da próxima Lupe não sairia por cima.
Daniel Pfaender
- Então... acho que já posso começar...
- Eu te falaria tudo... não precisava me aplicar isso... você sabe que eu detesto injeção... – responde Lupe, magoada.
- Desculpe... mas só assim pra você confessar...
- Confessar? O que?
- Tudo, Lupe. Que nossa relação é recíproca, que você pensa em mim na mesma proporção que eu penso em você. Que nascemos pra ficar e devemos terminar juntos. Que temos mais do que uma atração sexual ou afetiva, uma atração lógica. Seria totalmente incoerente se não ficássemos juntos. Estúpido até. Eu quero que você confesse isso, Lupe.
- Hidalgo...
- O que é?
- Do que você mais gosta em mim?
- Hã?
- É, qual seria a minha melhor característica na sua opinião?
- Bem eu...
- Vamos lá... até eu sei essa...
- Bom... eu acho que...
- Pára de enrolar! Quer saber do que você mais gosta em mim?
- Anda! Fala logo! - insistia já nervoso.
- Você adora o fato de eu ser perfeita para você.
- Como assim?
- É o que você entendeu, mesmo. Minha maior virtude é simplesmente te agradar em todos os aspectos.
Hidalgo ficou perplexo, ainda tentou falar algo para Lupe quando a mesma prosseguiu:
- O que mais te incomoda é me querer para você e não me ter. Porque você, Hidalgo, mimado do jeito que é, acha que eu tenho de ser sua por direito.
- Mas...
- Acha que ninguém é melhor pra mim do que você, não acha?
As coisas não estavam saindo conforme o esperado. O rapaz começou a se irritar, afinal, aquele sonho era dele. Que o curso das coisas se desse conforme a vontade do jovem mimado.
- E sabe do que eu mais gosto em você, Hidalgo? Da sua atenção.
- Da minha atenção?
- Exato. Mas não da atenção que um casal dá um ao outro. Não. Outro tipo de atenção. Adoro o fato de você perder seu tempo comigo. Adoro que você dê mais valor a mim do que a si próprio e mais valor até do que eu mesma me dou! É ótimo te ver aos prantos, gritos e lamúrias só pela minha causa. Gosto de saber que um mínimo ato meu pode desencadear reações terríveis em você. Que seja de uma bebedeira na noite em que nos esbarramos até uma semana que você fica disperso na faculdade só pensando em mim. Acha que eu não te vejo com o canto dos olhos enquanto beijo outro cara e vejo o quão nervoso e incomodado você fica? Acha que não percebo o quanto você fala com as minhas amigas só para parecer desdenhoso comigo quando no fundo está é morto de vontade de saber da minha vida, onde vou estar, com quem vou estar, com quem vou dormir... eu sei. Pois saiba, Hidalgo, que é a sua atenção que me alimenta. A sua atenção, importância e obsessão que tem por mim é que cria todo o murmurinho, que me faz ser falada. Que me faz ser abordada, que me faz ser desejada. É a sua atenção que faz com que eu receba a atenção dos outros. E eu amo isso. A sua atitude comigo é a base para que eu seja tudo o que sou. Curioso, né? No fundo você pensava tanto em mim, quando na verdade estava pensando é demais em si mesmo...
Hidalgo não conseguia mais encarar Lupe a partir daquele momento.
- Confuso? Não fique. Afinal, tudo se resume na simplicidade ou complexidade de você ter me criado. Está mais do que óbvio: eu só sou assim, porque você me fez assim. Difícil de entender? Ora... você está num sonho... quer situação mais significativa do que essa? Só o fato de aliado a isso você ter me dado esse soro da verdade... que por sinal eu adorei,viu? Tava brincando contigo... eu adoro a pontadinha de uma injeção...
Lupe abriu um largo e lindo sorriso para Hidalgo e sua imagem ficou turva até desaparecer por completo.
Hidalgo acorda no meio da madrugada. Uma pós-ereção estava visível por cima de seu short. Alguns lençóis estavam por todos os lados, alguns até enrolados no corpo do rapaz. Suas bochechas estavam inchadas e seus olhos cheios de lágrimas. Procurou respirar fundo.
Após alguns minutos já havia se recomposto. Resolveu avaliar a situação de forma mais racional. No final, a única conclusão que teve foi a de que não havia perguntado o suficiente para Lupe. Havia coisas que ainda precisava saber. Coisas que só ele ainda não sabia ou nunca faria questão de saber. Por mais que lhe fosse explicitado. Em sonho ou não.
Mas ele dormiria a próxima noite na esperança de sonhar novamente. Da próxima Lupe não sairia por cima.
Daniel Pfaender

7 Comentários:
Esse texto parece uma Sentença de Juiz Leigo, merecedora de Embargos de Declaração!!!!
Bem...Acho q na verdade houve revelia de ambas as partes. De acordo com a jurisprudência atual, a parte autora provavelmente não deverá arcar com as custas desde que justifique sua ausência.
Ahhhh...Lendo novamente pode-se deduzir que a parte ré fez protocolo de contestação pelo PROGER... Enfim, os autos provavelmente serão arquivados em uns 180 dias.
Por
Anônimo, Às
sexta-feira, novembro 17, 2006
Genial, Daniel !! Sensacional !!
To brincando, sem termos cults...
Muito foda seu texto, não preciso dizer que rolou total identificação...
É isso aí, mais um post com esse tema exorciza meus fantasmas de vez....
Abraço
Por
Anônimo, Às
sexta-feira, novembro 17, 2006
maneiro, gostei!
vc devia postar mais mini-contos tipo esse..
abraço
Por
Anônimo, Às
sábado, novembro 18, 2006
Oi Dani! Nossa! Adorei! Se bem que as emoções do Hidalgo são um pouqinho densas demais, não achou não? rsrsrsrs pensei numa música muito boa lendo esse texto:
You're always ahead of the game
I drag behind
You never get caught in the rain
When I'm drenched to the bone every time
You're the first one to swim across the Seine
I lag behind
You're always ahead of the game
While I drag behind
I drag behind
I drag behind
You're always ahead of the pack
I drag behind
You possess every trait that I lack
By coincidence or by design
You're the monkey I've got on my back
That tells me to shine
You're always ahead of the pack
While I drag behind
I drag behind
I drag behind
You're always ahead of the rest
When I'm always on time
You've got A:s on your algebra tests
I failed and they kept me behind
I just gotta get off my chest
That I think you're divine
You're always ahead of the rest
While I drag behind
I drag behind
I drag behind
Beijão! Continue com os textos! Tão ótimos!
Por
Anônimo, Às
sábado, novembro 18, 2006
Com toda certeza,Dri! Essa música é bem isso, a coisa de uma pessoa se ferrar pela existência da outra. Bjos
Por
Anônimo, Às
sábado, novembro 18, 2006
Acho que no fundo Hidalgo é quem estava naquela cadeira, sob efeito do soro. No final a "menina" tira todas as verdades dele e por isso que ele tem essa explosão de emoções. E ainda fecha com Hidalgo da mesma forma: pretensioso e mimado e que acredita que ainda vai levar a melhor sobre a menina! Muito bom...
Por
Anônimo, Às
sábado, novembro 18, 2006
Pfaender... esse texto me lembrou que se gente lançar um livro desse blog, já temos o nome...
INATIVIDADE TELEPÀTICA.
Genial...
abs
Por
Anônimo, Às
terça-feira, novembro 21, 2006
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