domingo, dezembro 17, 2006

O Dobermann

Deitado no jardim em frente a grande casa, Johnny nem percebe as horas passando. Terminada toda a sua tigela de ração foi ao gramado para deitar-se ao sol. A luz solar agora já não estava mais sobre o corpo de Johnny. Num misto de sonolência e tranqüilidade, Johnny ora dorme, ora acorda. Levanta a cabeça para ver alguns transeuntes passarem pela rua do tranqüilo condomínio e volta a deitá-la na grama fresca para ficar em paz com seu silêncio.
Johnny nem parece mais o mesmo de semanas atrás. Sebastian. Aquele desgraçado. Ele fora o responsável por tudo isso. Cheio de pose, com seu sedoso e encaracolado pêlo branco sempre a latir em tom de ameaça para os outros. E nem andava com uma guia presa ao pescoço. Se bem que uma guia não salvaria Sebastian. Nada salvaria Sebastian de Johnny. Aquela tarde de domingo deixara todos os moradores do condomínio chocados. Sebastian aparecera no seu ritual de latir em tom de ameaça para tudo e todos que se moviam. Johnny havia acabado de sair da casa para dar uma volta com seu dono. Sebastian fitou-o e começou a latir sem parar, rosnar e a mostrar os dentes. Johnny sem hesitar partiu na direção de Sebastian e só parou quando sua mandíbula abocanhou o pescoço do pobre poodle. Johnny ergueu a criatura trinta quilos mais leve que ele no ar e começou a balançá-lo de um lado a outro, só parando quando o branco tornou-se vermelho e Sebastian já não era mais um só e sim vários pedaços de carne e pêlos embebidos em sangue. Cena aterradora e espetacular ao mesmo tempo. A dona de Sebastian desmaiara ao presenciar a carnificina. Sua amiga mais velha, que também estava presente, tivera um ataque de nervos naquela mesma tarde. Uma ciclista vegetariana que passava pelo local vomitara todo o seu tofu e granola do almoço. O marido da dona havia enfartado ao saber da notícia posteriormente. Parece que tinha muita estima pelo cachorrinho. E porque Sebastian era um campeão de exposições, assim como Johnny, não demorou para que chovessem acusações sobre o Dobermann. O condomínio votara por sacrificá-lo. Seu dono, clamando por piedade, e por ser, além de uma importante figura no cenário político, um dos maiores “benfeitores” do condomínio, teve sua vontade feita. Johnny viveria.
O sacrifício teria sido melhor. Johnny não tinha noção disso porque era só um cão, mas após a castração, percebia-se claramente uma mudança em sua expressão, em seu espírito. Havia sido mutilado. Perdera sua fonte de masculinidade. Um ancestral de Johnny havia lutado na Primeira Guerra ao lado dos alemães. Outro havia lutado juntos aos Aliados no Pacífico. Um mais recente, servido na polícia como cão de guarda por anos. Johnny valia uma fortuna. Vinha de uma família de guerreiros. Guerreava com todos os cães que lhe desafiassem. Grandes, pequenos, compactos, fortes, parrudos ou esguios. Não discernia oponente. Como seus ancestrais, adorava guerras. Era uma maravilha da engenharia genética teutônica. A perfeita máquina assassina germânica agora estava reduzida a um dócil e tranqüilo espécime de pêlo preto e marrom que ficava a balançar seu rabo cortado e a babar idiotamente com a língua pra fora. Sua natureza lhe fora negada. E tudo que foge da sua natureza, moral ou imoral, certo ou errado, lícito ou ilícito, tende a ser infeliz. Johnny foi julgado culpado por seu ato e pagara pelo moralismo daqueles que recusavam a natureza do Dobermann.
É certo que Johnny viveria mais a partir daquele momento, mas que tipo de vida ia viver? Uma vida totalmente distante da sua natureza. Domesticado pelo moralismo humano. Um cão sem suas bolas é como uma cobra sem peçonhas, um revólver sem projéteis, um lápis sem ponta, uma mártir sem a forca, um político sem a voz, uma catapulta sem pedra, uma droga sem o seu efeito, um engarrafamento sem fumaça, um duelo sem vitória e derrota, um mar sem sal, um fuzil sem o boldrié, e ainda que tenha uma baioneta, uma baioneta sem fio. Todos esses elementos e seus pares, só têm um propósito com seus pares. Juntos, são alguma coisa. Separados, coisa alguma. Independentes de propósitos bons ou ruins, propósitos.
Susie, a bela Weimaraner passa em frente à casa de Johnny. O Dobermann levanta a cabeça e pára por um instante. Fita a cachorra como se tentasse lembrar de algo. Susie abana sua cauda em sinal de oferecimento. Como se quisesse que Johnny levantasse do gramado e fosse lhe cheirar as partes íntimas como outrora fazia. A Weimaraner estava no cio daquela vez. Mas não seria com Johnny que compartilharia seus descendentes. Talvez compartilhasse com Harald, o Rottweiler da rua de cima com quem Johnny já havia inúmeras vezes se deparado e até guardava algumas cicatrizes no focinho longo e nas orelhas cortadas. Susie vai embora depois de esperar por alguns minutos. Dirige-se para a rua de cima. Johnny não consegue entender o motivo da cachorra ter aparecido ali nem consegue se lembrar do ocorrido de semanas atrás. Deita novamente a cabeça no gramado com o olhar triste e melancólico. Estava sozinho de novo.
A partir de agora, Johnny não vai mais à guerra alguma.



Daniel Pfaender

15 Comentários:

  • Foda! Quando meu primo casou foi assim mesmo! Tinha uma vida de solteirice regada de farra! Mas casou jovem porque engravidou a esposa... aí já viu, né? E ainda tinha tanto pra aproveitar... ele agora é que nem esse dobermann... já teve ímpeto, faro, instinto de caçador e reprodutor, mas agora... totalmente eunuco por conta do casamento!

    Por Anonymous Anônimo, Às domingo, dezembro 17, 2006  

  • Limitação é sem dúvida um dos maiores problemas de todo ser. Quando se é impedido de fazer o que a natureza impele tendemos a sentir tamanha frustração que até questionamos uma razão para continuar vivendo. Johnny vai à guerra não é aquele filme onde o soldado perde os braços, as pernas, a visão e a audição? Não vejo mais limitação do que isso. Limitação física,é óbvio. Claro que também tem as limitações psicológicas, mas isso deixo pra você expressar nas suas viagens textuais,que por sinal estão ótimas! :) beijo

    Por Anonymous Anônimo, Às domingo, dezembro 17, 2006  

  • Bélissima citação! Eis um blog intelectual!!!
    Mas ainda assim acho perigoso falar em "natural", em "natureza". Serão os vírus formas de vida? Qual a moral das bactérias? Somos só nós com as nossas projeções e a sensação de que tudo era bem melhor, sem nunca ter sido? Um passado idealizado só nos livra da responsabilidade do presente de merda, ou de um futuro insalobre...

    Por Anonymous Anônimo, Às segunda-feira, dezembro 18, 2006  

  • Não acho. É de uma visão pessimista totalmente tosca. Quer dizer então que devemos acatar a natureza violenta e machista do homem assim dessa forma ridícula? Tá parecendo até que o autor tá querendo se justificar e livrar a própria cara e a dos amigos,todos os homens,pelas cagadas que cometem.

    Por Anonymous Anônimo, Às segunda-feira, dezembro 18, 2006  

  • Lindo. Pra vc ficar igual ao Hemingway agora só falta ser escritor, pq machista vc já é. Parabéns.

    Por Anonymous Anônimo, Às segunda-feira, dezembro 18, 2006  

  • Machista eu? Ah! Vão lavar uma louça! Eu vou jogar sinuca...

    Por Anonymous Anônimo, Às segunda-feira, dezembro 18, 2006  

  • heheheh...daniel sempre criando comments!! acho q os bagos são fundamentais...mas o cachorro msm castrado consegue "dar umazinha"
    só não vai ter a mesma assiduidade!
    talvez Johnny descubra uma nova vida com Harald, o Rottweiler da rua de cima...hahahah
    mto bom
    abçsss

    Por Anonymous Anônimo, Às terça-feira, dezembro 19, 2006  

  • Quase rodrigueano.
    Belo texto.

    Por Blogger gigi, Às terça-feira, dezembro 19, 2006  

  • isso ae, mano !!! é nóis !!!

    Dogão chegou entrou em cena
    sem ter problema
    As “cachorra” conhecem meu esquema
    Elas gostam quando eu falo assim, quando eu trato assim
    Por isso elas querem dá pra mim
    Meu estilo é de cachorro louco
    Minha coleira é um cordão de ouro
    Eu curto a vida e o que tem de bom
    Passando devagar com a Harley Davidson
    Tem uns mano que só paga pau
    Mas não tem nada igual porque Dogão é mau
    Na quebrada pá de vira-lata
    Pra sair comigo sai até no tapa
    Bem me quer, mal me quer, o Dogão te quer
    Vem sobe, vamos fazer o que o Dogão quiser
    Vou pra cima direto no pescoço
    Sente o clima, prego até o osso...

    Dogão é mau, dogão é mau....

    Por Anonymous Anônimo, Às quarta-feira, dezembro 20, 2006  

  • Isso, agora sim, mostra quem é você, seu cachorrão sexista...cadê sua sensibilidade, sua inteligência, seu lado singelo hein, hein...?? despreza tudo isso e só pensa nesse seu lado caçador, no seu instinto animal repulsivo...
    ai, você me decepciona tanto...

    Por Anonymous Anônimo, Às quarta-feira, dezembro 20, 2006  

  • ando cansado dos comentários do tipo : "MACHISTA!".

    Ok, somos machistas, mas mais feministas que Sex and the City.


    grato,
    a gerência.

    Por Anonymous Anônimo, Às quarta-feira, dezembro 20, 2006  

  • Queridíssimos amiguinhos:
    não vamos brigar, que essa coisa luluzinha x bolinha é no mínimo ultrapassada.Não acho que vocês sejam machistas. Acho que como toda a humanidade, andam meio desnorteados pelas sandices que as pessoas (homens, mulheres e crianças) andam fazendo por aí). A pouco tempo atrás, ouvi uma confissão de um certo alguém, um rapaz, que me disse assim: - Ana, em 99% dos casos os homens não têm a menor idéia do que se passa. Especialmente na cabeça de vocês, moças de fino trato. E eu ri, porque nós mulheres, achamos que entendemos tudo e também somos suuuper falcatrua. Só que eu não falei isso pra ele... rs... enfim. Eu estava aqui ouvindo Caetano e não pude me conter. Acho essa música uma boa brincadeira sobre as diferenças entre machos e fêmeas:

    Caetano Veloso - Homem
    Caetano Veloso
    não tenho inveja da maternidade
    nem da lactação
    não tenho inveja da adiposidade
    nem da menstruação

    só tenho inveja da longevidade
    e dos orgasmos múltiplos
    e dos orgasmos múltiplos
    eu sou homem
    pele solta sobre o músculo
    eu sou homem
    pêlo grosso no nariz

    não tenho inveja da sagacidade
    nem da intuição
    não tenho inveja da fidelidade
    nem da dissimulação

    só tenho inveja da longevidade
    e dos orgasmos múltiplos
    e dos orgasmos múltiplos
    eu sou homem
    pele solta sobre o músculo
    eu sou homem
    pêlo grosso no nariz

    Por Blogger Ana Priscila Freire, Às quarta-feira, dezembro 20, 2006  

  • Isso aí !! Caetano rocks !! E viva Daniel e seu discurso, falsamente machista, neo-transgressor, tentando lutar com agressividade contra opressão crescente da sociedade, opressão feita por homens e mulheres. Esse discurso é só uma forma de ser impor, de se expressar...Em nenhum momento há machismo, só descrições sinceras de percepções..Mulheres também não vêem os homens de forma zelosa, cheia de dedos (e nem devem ver)... nem por isso deixam de admirar e gostar deles
    Viva o politicamente incorreto, as vezes é inevitável !!

    Por Anonymous Anônimo, Às quinta-feira, dezembro 21, 2006  

  • Atualmente, com a guerra dos sexos declarada, todo homem é machista e toda mulher metida a "moderninha" paga uma de feminista!
    A mulherada anuncia que tem como estrelas aquelas 04 desesperadas de SEX AND THE CITY, que passaram os 05 anos da série tentando arrumar alguém que as valorize realmente.
    E os homens metidos a comedores que jamais conseguem conquistar a mesma mulher mais de 01 vez me fazem rir...
    ai essas crianças...
    whatever, mto bom o texto!

    Por Anonymous Anônimo, Às sábado, dezembro 23, 2006  

  • você é maluca, garota
    vai pro diabo que te carregue

    Por Anonymous Anônimo, Às quarta-feira, janeiro 17, 2007  

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