O Natal Classe Média na Idade Moderna
Histórias de Natal que vivencio podiam ser escritas por Ibsen. Quase podiam ser escritas por Ibsen. Primeiro porque o norueguês doidão está morto. Segundo porque de longe as histórias que testemunho possuem a mesma carga dramática e intensa das do grande dramaturgo. A identificação? Histórias de Natal em família, contadas por Ibsen ou qualquer outro que se disponha a fazê-lo, nunca deixam de ser um grande drama burguês classe média. Aquele onde toda uma gama de problemas é discutida (barraco!) e exposta, mas nada se resolve. É a época onde o inverso também ocorre. Você esquece que aquele seu parente é um filho de uma égua só para estar ao lado dele e da avó comum a vocês dois só por estarem num banquete. Pra que tudo isso? Precisa de toda essa coisa espalhafatosa em verde e vermelho? Desse calor senegalesco e dessa chuva cambojana que não refresca porra nenhuma? Porque Natal é época de esquecer ou de lembrar? Porque precisa ser no Natal? Porque não uma vez por mês? Não ia facilitar se todo mês você encarasse o seu cunhado e acabasse por dizer que o odeia? Ou praquela sua tia moralista hipócrita você não poderia confessar de uma vez por todas que aquela cerveja que ela bebia no Natal passado estava azeda porque não era cerveja, mas mijo? O seu mijo. Vejam bem, fellas, eu não sou iconoclasta, nem pagão, nem materialista dialético (Graças a DEUS!). Mas também não entendo a necessidade desse natal cristão levado ao extremo em sociais em família e apego de problemas. Pense bem, minha classe média, é realmente necessário torrar rios de dinheiro com comidas, bebidas, presentinhos, presentões, luzes, roupas de Papai Noel, etc? Para uma só noite se gastar aos montes e depois ficar no conflito interno entre esôfago, que não quer mais saber daquela gororoba de volta e estômago, que não vai deixar aquela gororoba ali de maneira nenhuma?
Natal é no mínimo uma época estranha. Comidas exóticas, algumas da Terra Santa. Outras da Terra Santa das Américas, os Estados Unidos. Do Brasil? Sei lá, talvez Skol. Enquanto como um prato de lentilhas meu irmão mais velho fita o prato. Aviso-lhe que já estão servindo lá na sala. Ele me responde que as lentilhas já acabaram e continua fitando as mesmas com interesse. Pergunto-lhe o que me dá em troca. Ele fala sobre os direitos do primogênito. Mando-a merda, argumentando que na época de Esaú e Jacó isso valeria alguma coisa. Ele tira a chave do carro do bolso e vai me entregar quando na porta do quarto aparece a tia bebedora de mijo avisando que mais lentilhas já estão na mesa. Na sala ouço parentes que há dois dias atrás não hesitariam em trocar farpas bebendo e brindando animadamente. Discutem herança e inventário. Sempre no melhor clima de bom humor é claro. Esqueceram-se de tudo. O Natal de hoje é assim. Você pára por um momento todas as coisas que está fazendo para celebrar algo que muitos desconhecem ou nem valorizam somente com o intuito de encher a cara, a pança e a sacola de presentes e esvaziar o bolso. Esquece dos seus problemas e do que está fazendo. Ainda tira alguns dias para se acomodar e tentar curar a ressaca e a indigestão. Tem até aquela história clássica onde nas trincheiras da primeira guerra mundial alemães e franceses cessaram fogo por algumas horas só para comemorarem juntos a Noite Feliz. Relatos afirmam que os pelotões cantaram juntos canções natalinas em francês e alemão. Lindo. Fizeram um musical também? Teria o Barão Vermelho sobrevoado Paris e atirado presentes ao invés de bombas? Afinal era vermelho né? É a atual febre da idade moderna. Esqueça seus inimigos. Até porque essa palavra é muito feia, não soa bem, ainda mais no Natal, época de felicidade e paz. Esqueça o que a Rosinha fez nesses quatro anos e esqueça também o que o marido dela fez nos outros quatro. Convide-os para um musical de Natal. Convide também todos os seus desafetos! Eu chamarei a tia bebedora de mijo, alguns colegas de faculdade, o jornaleiro da esquina e a Clarissa Matheus. Todos, lógico, com boa voz e expressão corporal. Aproveito também e esqueço dos problemas que me causam, pois afinal, estarei tomado pelos efeitos mágicos do musical.
Natal é isso aí agora, se tiver problemas não os resolva, se puder escondê-los melhor ainda. Faça o mesmo com os seus desafetos. Jante na mesma mesa deles. Dividam uma garrafa de vinho barato que seu cunhado diz chileno mas na verdade as uvas foram pisadas em Japeri mas você é claro, não vai falar que sabe disso porque é Natal. Se um musical for inevitável faça-o. Só não se esqueça de que vence quem voltar para o front primeiro e preparar os canhões quando a canção terminar. Agora se você tiver sabedoria suficiente para compreender que quando um desconhecido, do nada sai da trincheira, tira o capacete e coloca um gorro vermelho e branco, o melhor que você tem a fazer é meter-lhe uma bala no quengo, então a Noite Feliz é sua.
Daniel Pfaender
Natal é no mínimo uma época estranha. Comidas exóticas, algumas da Terra Santa. Outras da Terra Santa das Américas, os Estados Unidos. Do Brasil? Sei lá, talvez Skol. Enquanto como um prato de lentilhas meu irmão mais velho fita o prato. Aviso-lhe que já estão servindo lá na sala. Ele me responde que as lentilhas já acabaram e continua fitando as mesmas com interesse. Pergunto-lhe o que me dá em troca. Ele fala sobre os direitos do primogênito. Mando-a merda, argumentando que na época de Esaú e Jacó isso valeria alguma coisa. Ele tira a chave do carro do bolso e vai me entregar quando na porta do quarto aparece a tia bebedora de mijo avisando que mais lentilhas já estão na mesa. Na sala ouço parentes que há dois dias atrás não hesitariam em trocar farpas bebendo e brindando animadamente. Discutem herança e inventário. Sempre no melhor clima de bom humor é claro. Esqueceram-se de tudo. O Natal de hoje é assim. Você pára por um momento todas as coisas que está fazendo para celebrar algo que muitos desconhecem ou nem valorizam somente com o intuito de encher a cara, a pança e a sacola de presentes e esvaziar o bolso. Esquece dos seus problemas e do que está fazendo. Ainda tira alguns dias para se acomodar e tentar curar a ressaca e a indigestão. Tem até aquela história clássica onde nas trincheiras da primeira guerra mundial alemães e franceses cessaram fogo por algumas horas só para comemorarem juntos a Noite Feliz. Relatos afirmam que os pelotões cantaram juntos canções natalinas em francês e alemão. Lindo. Fizeram um musical também? Teria o Barão Vermelho sobrevoado Paris e atirado presentes ao invés de bombas? Afinal era vermelho né? É a atual febre da idade moderna. Esqueça seus inimigos. Até porque essa palavra é muito feia, não soa bem, ainda mais no Natal, época de felicidade e paz. Esqueça o que a Rosinha fez nesses quatro anos e esqueça também o que o marido dela fez nos outros quatro. Convide-os para um musical de Natal. Convide também todos os seus desafetos! Eu chamarei a tia bebedora de mijo, alguns colegas de faculdade, o jornaleiro da esquina e a Clarissa Matheus. Todos, lógico, com boa voz e expressão corporal. Aproveito também e esqueço dos problemas que me causam, pois afinal, estarei tomado pelos efeitos mágicos do musical.
Natal é isso aí agora, se tiver problemas não os resolva, se puder escondê-los melhor ainda. Faça o mesmo com os seus desafetos. Jante na mesma mesa deles. Dividam uma garrafa de vinho barato que seu cunhado diz chileno mas na verdade as uvas foram pisadas em Japeri mas você é claro, não vai falar que sabe disso porque é Natal. Se um musical for inevitável faça-o. Só não se esqueça de que vence quem voltar para o front primeiro e preparar os canhões quando a canção terminar. Agora se você tiver sabedoria suficiente para compreender que quando um desconhecido, do nada sai da trincheira, tira o capacete e coloca um gorro vermelho e branco, o melhor que você tem a fazer é meter-lhe uma bala no quengo, então a Noite Feliz é sua.
Daniel Pfaender

13 Comentários:
Nada mais típico essas "manifestações de bondade" no Natal. Sempre com duas questões, só são realizadas no Natal e sempre com interesse. A vizinha daqui do prédio todo ano recolhia roupas usadas prum desses projetos e depois fomos descobrir que ela ia se candidatar a vereadora! Ela doava as roupas como se fossem todas dela! Interesse puro...
Por
Anônimo, Às
terça-feira, dezembro 26, 2006
Muito perspicaz! Adorei a idéia do musical! Convidarei a avó do meu namorado! rsrsrsrs
Agora seu ódio expresso pelo Natal Católico tá vazando pelas orelhas, heim?! Vai tornar-se o Grinch agora? Hihihi
Por
Anônimo, Às
quarta-feira, dezembro 27, 2006
ihh hii hii! já reparou como as pessoas dão "bom dia" ou agradeçem as outras com mais afinco nessa época do ano? como se a educação só deveria ser praticada no Natal!
Por
Anônimo, Às
quarta-feira, dezembro 27, 2006
Feliz natal, Pfaender. Ainda que vc não mereça.
Por
Anônimo, Às
quarta-feira, dezembro 27, 2006
finalmente conheci os demais membros desta confraria... espero que vocês
sejam nossos convivas na festa de reveillon mais animada da cidade. beijos sss
www.festadavirada.blogspot.com
Por
Ana Priscila Freire, Às
quinta-feira, dezembro 28, 2006
O pior de tudo é quando a diplomacia acaba na volta pra casa e vc fica ouvindo as fofocas..."vc viu fulano?" "nossa, como sicrano tá gordo e feio.."
" o zezinho é um chato, a mariazinha é uma louca, não toma rumo na vida.."
Por
Anônimo, Às
quinta-feira, dezembro 28, 2006
hahahah sinistro!
pois é, tb acho q o natal é um surto coletivo, hahaha
abç
Por
Anônimo, Às
quinta-feira, dezembro 28, 2006
O Daniel é praticamente a Maitena em versão masculina! Pega a realidade e joga na sua cara! show
Por
Anônimo, Às
sábado, dezembro 30, 2006
vou chamá-lo de maizena! =)
Por
Ana Priscila Freire, Às
sábado, dezembro 30, 2006
MAITENA = REALIDADE?!
Tadinho do Pfaender...
Por
Anônimo, Às
terça-feira, janeiro 02, 2007
Vamos atualizar isso, bonitoens?
Por
Anônimo, Às
quarta-feira, janeiro 03, 2007
Não somos bonitoens, somos boniteens.
Por
Anônimo, Às
quarta-feira, janeiro 03, 2007
De teens vcs só têm a personalidade pq do jeito que bebem e fumam parecem velhos acabados...
Por
Anônimo, Às
quarta-feira, janeiro 03, 2007
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