sexta-feira, abril 13, 2007

Trepanando o cabeção


por Gisele Andrade

O mais antigo procedimento cirúrgico de que se tem notícia chama-se trepanação. Trata-se de abrir um furinho no crânio para aumentar o fluxo sangüíneo cerebral. Isso alivia a pressão intracraniana, descomprimindo a mente.


Os trepanados – aqueles que já trepanaram, vejam só, que bonito! – crêem que o chacra do meio da testa, o terceiro olho, sei lá, se abre, abrindo caminho para a iluminação e o desenvolvimento espiritual. Nos rituais tribais do Egito Antigo, por exemplo, a trepanação era feita sem anestésico, ali mesmo, na frente de geral. Servia para tirar os maus espíritos de dentro da pessoa, pra tratar eplepsia, dor de cabeça, tumores e distúrbios mentais, mas a onda mesmo era dar uma trepanadinha pra ficar zen. Além de denotar reconhecimento do cérebro como bam-bam-bam na regulação de funções mentais superiores, a gente percebe, nessa brincadeira, a vontade de deixar a alma se desprender do corpo um pouquinho. Abrindo um furinho, o espírito podia fugir correndo um pouquinho, sem dar satisfação a ninguém.


Muitos crânios trepanados eram usados como amuletos e distintivos de líderes e guerreiros em campos de batalha. A gente, ainda hoje, também faz a dor de bandeira. Quantas vezes vamos lamuriar um problema e nosso interlocutor, alvaresdeazevedomente, se arvora de ter vencido um ainda maior? Todos nós queremos ostentar nosso craniozinho trepanado, seja para advertir e prevenir os incautos, seja para recebermos os louros de termos, com aquela pedrada na moleira, conseguido aliviar um pouco a pressão da panela. De repente é isso mesmo... levar uma pedrada, deixar o espírito se espreguiçar um pouco, morrer um pouquinho e voltar com uma nova ótica, vendo diferente e tendo no côco rachado seu distintivo de sobrevivente.

P.s.: na imagem, desenho encontrado em um templo do Egito Antigo, datado carbonocatorzemente de 1500 a.C. nessa representação de trepanação, o cirurgião tem assitente e tudo...

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O mundo é uma montanha de merda: se vamos movê-la, é preciso que lhe metamos a mão (Allen Ginsberg).

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