sábado, maio 12, 2007

No Mirante

Já não se lembravam bem como havia começado, um tinha sugerido o melhor mirante e o outro a melhor bebida para o fim de tarde; água-de-coco. E assim faziam por anos todas as terças como se fossem a missa, lá sentavam, bebiam e observavam na certeza de uma amizade plena e segura na qual sempre confiariam para tudo e tão sólida que nada alteraria. E ali naquele dia repararam que fazia anos que não se falavam, que o silêncio era tão próximo deles como a sua própria amizade. Delinearam as diferenças de suas vidas, as desventuras e irresponsabilidades de um e a vida perfeita, prescrita e de rotina enraizada do outro. O passado tão desimportante mas que os unira foi revivido com precisão que nem a televisão conseguia dar, só a tristeza nos reprisa a vida com tal perfeição.Aquela decisão inalterável os forçaram a nostalgia num momento de proximidade e igual alegria pela vigor de uma amizade. E antes de pular das pedras um disse:

- Eu nunca gostei de água-de-coco.

E sentado triste com seu coco se despediu o outro:

- Eu também nunca gostei deste lugar.

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