Pássaros

por Caio Almendra
Para Thiago, não havia nada mais perfeito que um bom Hitchcock. E, não havia nada menos Hitchcock que "Pássaros". Tudo estava errado no filme, a mulher ia para o interior procurar um namorado, ao invés de ficar na cidade grande e cheia de pretendentes; o povo da pequena Bodega Bay não tinha jeito de vítima de Hitchcock, nem eram os vilões da história; aliás, os vilões nem eram humanos, fugindo do clássico homem lobo do homem, enfim; a cidade se chamava BODEGA. Thiago tentava pensar que no original, em inglês, o vilarejo não tinha esse nome mas, quando o filme indicava que a Bodega Bay estava em perigo, por conta de ataques de pássaros, ele não conseguia se conter e caía na gargalhada. Era inevitável. Ôh, meu deus!, a BODEGA está em perigo, quem nos venderá pinicos? O problema com a bodega só era comparável às cenas de ataques dos pássaros. Com tantos leões famintos em savanas distantes, as pessoas ficavam com medo de um bando de gaivotas? Não eram nem avestruzes ou emas! Socorro, um pintassilgo está me atacando, não, na verdade é um curió, o que farei da minha vida?
O problema se agravava quando a Ritinha entrava no meio da história. Eles já namoravam há anos, se conheceram num festival de cinema clássico, numa sessão de "Strangers on a Train". Ele assistiu "Pássaros" pela primeira vez com ela. Foi um dos dias mais engraçados da vida dele e uma das brigas mais intensas do namoro. Ao final da fita, Thiago, às gargalhadas, começou a espinafrar o filme. A defenestração moral da obra durou pelo menos 15 minutos. Por alguma razão oculta, ela ouviu inabalável. Não riu, não comentou, não fez um ui. Quando o rapaz, sem fôlego, parou de tecer galhofas, ela teve uma postura insólita. Parecia que ela estava possuída, que tinha contado os segundos das reclamações dele, que não o suportava ele, que não precisava respirar para conseguir gritar. Parecia que a angústia de todos os Hitchcocks acumulados tivessem escapado num instante, como um balão de festas furado. A palavra "imaturo" bateu fundo em seu peito. E machucou. Por ela, Thiago aprendeu a mais dura das lições, por mais que sua opinião fosse muito preciosa para si, as vezes, ela não valia um tostão furado para os demais.
Anos depois, os dois já casados, esperando o segundo filho, faziam compras para a seia de natal.
Nessa época, Ritinha já havia esquecido da briga, a bem da verdade, ela esqueceu no dia seguinte. As coisas demorariam mais para Thiago. Assim que chegou no supermecado, Thiago correu para o setor de frios. Ritinha, mais pragmática, abriu a lista de compras. Para a moça, Thiago chegava a ser pouco educado com seus excessos de gula. Após vinte minutos, Ritinha se encontra com o marido, que ainda não decidira entre copa e parma.
- Vamos, precisamos escolher o peru da seia.
Foi quando Thiago entendeu. Uma marca de produtos congelados havia empalhado um peru e estacionado no início do setor de frios. A idéia era "fazer propaganda"... Ritinha passou inadvertidamente, mas quando foi pegar o peru congelado escolhido, tomou um susto. Num salto para trás, ela segurou na mão do marido e chorando pediu para sair dali. Thiago não entendeu nada, pediu para ela se acalmar. Mas, cada palavra que falava a irritava mais. Ritinha procurou uma saída alternativa, mas o setor de frios era um beco sem saída. Ela achou uma porta de serviço que, entretanto, só levava ao frigorífico do supermercado. O pânico lhe subia a garganta. Foi quando ele tomou uma atitude cinematográfica(apesar de não tão Hitchcock), pegou a esposa no colo e a levou para o outro lado. A menina chorava. "Orni-orni-tototo-orni-fobia". Bem, ele já imaginava. Mas, ela podia ter avisado antes de resolver assistir "Pássaros".

4 Comentários:
Muito bom! Muito bom! Eu também queria ter idéias engraçadas ao invéz de desenhar eu mesmo. =c |
Por
André Pessoa, Às
sábado, junho 30, 2007
cara, faz tempo que eu não tenho "idéias"... A maioria é tradução da vida real em coisas literalescas. Essa história daí, por exemplo, é livre imitada na Ana Benenvides. Quando contei isso para ela, ela quase ficou lisonjeada, depois percebeu que eu estava falando sobre uma menina histérica e orinitofóbica. Pode conferir, desde muitas crônicas atrás, eu não escrevo "invenções".
Abraços.
Por
Caio Almendra, Às
sábado, junho 30, 2007
Ah! Então vc também escreve sobre si mesmo? Como o Danilo, óbviamente também, somos o auto-senso em comum.
=c D
Amo vcs.
Por
André Pessoa, Às
sábado, junho 30, 2007
eu conto histórias... não minhas histórias, apenas histórias. A minha vida não é para os ouvidos do público.
Por
Caio Almendra, Às
domingo, julho 01, 2007
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