quinta-feira, agosto 23, 2007

Cajuína

"Existirmos - a que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos, intacta retina:
A cajuína cristalina em Teresina"

Embriagada de calor e sede, a vagar sem rumo, eu olhava para os céus. Por lá, naquele sertão infinito, as nuvens andam como pequenos regimentos em formação, quase eqüidistantes entre si. Não é que haja poucas nuvens, não chove por que são nuvens sóbrias demais para permitirem se aproximar, se amar e se desfazer em amores, umas sobre as outras. São nuvens sóbrias demais para chorarem. Embriagada de calor, sede e desgosto, filosofei: "Existirmos: a que será que se destina?". Quantos não me respondiam, balbuciantes, "Para amar!" e se choviam e sangravam até a inexistência?

Embriagada de calor, sede, desgosto e dúvidas, lembrei da vida longe das nuvens ordeiras, recordei meu último amor. Era na época, como já não acho mais que seja, uma criança iludida, que divagava com muito maior leveza. Acabara de te conhecer e te achara muito engraçado, com suas gigantescas desproporções, o seu andar desengonçado. Fazias-me lembrar uma marionete muito mal manipulada: frouxa e trôpega. Mas houve aquele dia... Naquele dia, você me encontrou fraca, chorosa, ferida. Olhou-me com seus pequenos olhos negros, tomou-me no colo, como a um bebê, e me disse, com essa voz rouca, mas não tão grave, "Por que choras, pequena?" Senti-me como uma princesa encantada, protegida por um monstro em uma torre.

Só que tu foste adiante. Cobriu-me com sua própria colcha, saiu com pressa e voltou pouco depois. Abriu sua mão e me entregou um presente. Foi quando me apaixonei por ti, pois quando tu me deste a rosa pequenina, intrigada com essa delicadeza, me joguei nas profundezas de seus olhos, a buscar uma explicação de quem eras. E no breu profundo achei tanta ternura, quanto nunca imaginei encontrar em alguém grande e desengonçado como ti . Vi que és um homem lindo, mas vi que nunca seria capaz de retribuir a ti tais afagos. Eu que sempre fui tão seca quanto a caatinga, tão dura com todos e tudo, tão confusa... Quantos, apesar do meu jeito de criança, eu não magoei sem intenção? Percebi que essa sempre fora minha história, que sempre me aconteceria. Eu encantava a pessoa com minha pele de cordeiro, mas a machucava com minha essência de cobra. Percebi-me incapaz de trazer o bem a alguém. E temi por seu destino, porque sabia que essa sua ternura logo seria um grande amor e logo faria grandes exigências. E terminaria por te trazer muito sofrimento, pois se acaso a sina que se apoderara de minha vida se perpetuasse, cedo ou tarde, meu choro te queimaria.

Naquele dia, fiz minha última reza. Desejei, pelo amor de nossa senhora, que a sorte te fizesse feliz. Pensei em todo amor que ela entregou a seu filho e nos milagres que esse amor construíra. Pensei nas coisas maravilhosas que ele fez. De como era forte e de como se sacrificou por amor, como ninguém jamais fez. E, de súbito, assustei-me com a possibilidade de que sua ternura se tornasse um fardo, que tu tivesses que carregar cruzes para mim, como fizera um dia o tal menino. Não te quis esse destino. E fugi dos seus braços. Carreguei, sozinha, o fardo da minha infelicidade. Vi que, se a pobre sina do menino infeliz não nos ilumina, foi graças a esse sacrifício.

Embriagada de calor, sede, desgosto, dúvidas e saudades, a penumbra de minha vista se foi e cai em prantos. Ao olhar novamente para os céus, notei a desordem de duas nuvens, que pairavam justo sobre minha cabeça. Numa orgia desenfreada, as nuvens se amavam feito loucas. Começaram a chover e me molhar o rosto. Tristonha como quem assiste a um funeral, fitei o rosto das pobres amantes e revelei meu próprio engano e ignorância. As belas nuvens não sangravam ou mesmo choravam de tristeza, elas choravam de gozo e júbilo, e numa felicidade ensandecida. Era uma chuva de água cristalina, límpida, que não se empoça nos buracos da cidade e todos os meninos saem às ruas para comemorar a chuva e beber da alegria.Um amor não se macula pela dor que causa, porque sempre criará mais felicidade, tampouco turva-se a lágrima nordestina que por infortúnio destrói um pequeno barraco de barro, porque na secura daquela terra ela sempre construirá muito mais. E foi assim que me descobri feliz. Não me tornei incauta e leviana, a destruir esperanças nos peitos dos outros. É que apenas a matéria vida era tão fina, para permear a todos e inundar nos com dor e felicidade. E que esse toque vital glorifica nosso existir, pois a maior escuridão não gera cegueira, mas a capacidade de ver o breu.

Após essa revelação, corri de volta para ti, pois sabia que o que me restava era te buscar. E aqui cheguei, diante de ti, a retornar para a vida, pois sei que éramos olharmo-nos intacta retina, já limpa da antiga penumbra, que alcançaria a felicidade das nuvens amantes. Embriagada de amor, aplaquei meu calor, matei minha sede e desgosto, desfiz minhas dúvidas e saudades, num só gole de uma doce cajuína cristalina, em Teresina e em seus braços.

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1 Comentários:

  • Muito bom, caro amigo, muito bom mesmo! Não sei se o sexo dos anjos, digo, nuvens, seja o ponto delicado que fará nossos timidos leitores comentarem, mas sei que faço deles as minhas palavras.
    Abraços

    Por Blogger André Pessoa, Às quinta-feira, agosto 23, 2007  

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