quarta-feira, setembro 05, 2007

Respiração

O rapaz convivia há tanto tempo com aquela sensação, que já não sabia como era não senti-la. Era como tentar esquecer que tinha braços ou pernas ou um coração. Era como inventar não ser capaz de ver as cores, como se fosse de outra espécie, como cachorros e gatos, que só vêem em preto e branco. Pensar nela era tão comum e cotidiano, tão perenemente contínuo, que o rapaz começou a comparar esse imenso sentimento ao ato de se lembrar de respirar - era uma constante que você só repara na existência quando um pequeno enlace em sua vida te revela sua obviedade. Após tal revelação, não conseguimos mais parar de pensar no ato. "É como respirar", ele explicava aos amigos, "Se você pensa se está respirando ou não, você não consegue mais parar de se concentrar na própria respiração". Os amigos o olhavam assustados, como se tivessem medo dele estar perdido de amores e ódios. Mas, ele continuava seu discurso, "Vocês não entendem? Estar concentrado em sua própria respiração não atrapalha a pensar em outras coisas". Foi quando um amigo apontou a questão, "Há um pequeno probleminha nessa sua história de respiração. Temos apenas um nariz. Já é pelo menos o quarto sentimento que você me descreve como respiratório".

"É que o meu coração é muito maior que meu nariz".

Marcadores:

1 Comentários:

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]



<< Página inicial