quinta-feira, setembro 13, 2007

Cama de Agulhas - O primeiro exercício – parte 1, a Janela

O primeiro exercício – parte 1, a Janela


deitei-me em minha cama, mas não consegui dormir. deitar me na cama me fez o que sou. olhei em volta de meu quarto, e enumerei os móveis de meu quarto, uma cama, um armário, uma mesa e uma janela. a Janela de meu quarto não dá para o mundo, como o nome “janela” poderia sugerir, mas para a parede do prédio vizinho, numa proximidade tal que faz parecer que a Janela foi diretamente esculpida da parede desse prédio, com o único e inescusável intuito de fingir dar(para depois negar) as liberdades que só uma janela nos pode dar. enquanto janelas costumam ser não-paredes, a Janela de meu quarto era uma parede não-janela. minhas noites em claro podem se confundir com a Janela. quantas noites sem sono se devem à minha contemplação estática daquela Janela? e afinal, permanecer imóvel diante de uma janela, não pensando em nada mais importante do que em como meus dias tinham sido supostamente vazios, não é dormir? apenas dormimos quando estamos de olhos fechados, ou será que estar imóvel, inútil e sonhando, não pode ser chamado de dormir? estão de todo errado aqueles que consideram dormir um momento ébrio em que nos permitimos parar de pensar? mas se assim for porque nossa sanidade depende tanto de nossas noites de sono? ser são é ser capaz de não pensar?

lembro que, quando criança, aprendi a falar, a andar, a usar talheres, observando aqueles que já o soubesse. e a viver sentado por intermináveis hora em frente a uma janela, como teria aprendido, da mesma forma? só o que me ensinaram é que o importante não estava na janela, objeto esse que servia apenas para circundar o mundo que deveríamos ver, como um óculos, ou uma regra que de tão impregnada em nossas cabeças, estaria além da observação, seria um prisma colado em nossas pálpebras com artesanal perfeição que sua existência se confundiria com a dos nossos próprios olhos ou como uma janela, um buraco cujas formas ou silhuetas deveriam ser esquecidos em detrimento da observação do interior de suas bordas ou seja do exterior do mundo. para a visão importa apenas o observador e o observado, sendo toda a trajetória que a luz percorre para alcançar nossos olhos (trajetória essa que se bem entendida pode salvar nos de toda espécie de ilusão ou miragem, prevenindo-nos de qualquer tropeço ocasional ou de quaisquer estafantes voltas em círculo) ignorada como devem ser ignorada a busca frente a chegada da meta. a meta é capital, o objetivo é capital, a principal cena da maratona é o corte da fita na chegada e não a largada ou os quarenta e dois quilômetros de percurso. nossa chegada é a morte, nosso momento final. em nossa vida e sociedade, essa será nossa grande paixão, a quem dedicaremos mais tempo de pensamento e dedicação. somos idólatras da morte, quer na busca de cruzes e mártires, quer na busca por saúde e juventude, pois a morte é o que encontramos limitado pelas bordas de nossa janela.

e quando o interior de uma janela não é o exterior do mundo? o que fazer de minha janela, cuja parede contida, perfeitamente lisa e branca, impecavelmente uniforme, por impropriedade absoluta de substância não deveria ser observada? e o que fazer dessa máxima, pela qual apenas o conteúdo, e jamais o continente, deve ser observado? como observar o inobservável ou como reprisar toda uma maratona sem mostrar os momentos finais do vitorioso? ou, talvez, como convencer um maratonista a correr numa pista sem linha de chegada? adoramos a morte por medo de vivermos eternamente, como o maratonista que teme nunca parar de correr uma corrida sem chegada?

mas, tais perguntas não adentravam a cabeça do meu eu-criança. o instinto de aprendizado mímico, tão enraizado em nossa natureza, não me permitia deixar de copiar papagaiamente as atitudes dos adultos. meu avô olhava o mar, com saudades da época que tinha pernas para nadar, minha avó olhava as mulheres que desfilavam pelas ruas, com saudades da época que tinha beleza. eu olhava as formigas que caminhavam ordeira e ordenadamente pela parede do vizinho. a repensar sobre a minha infância na Janela não-janela, diria que eu buscava naquelas formigas, um propósito. eu ainda devia estar procurando. será que ainda existem formigas naquela parede? sim, elas ainda estão lá. cadê meu propósito? que pergunta estúpida! meu avô não achou pernas, nem minha avó beleza, já deveria ter aprendido, que no interior das janelas, ficam metas, não realizações.

olhar para uma janela sem ver seu interior. era essa minha sina. seria demais para uma criança exigir que mantivesse qualquer vínculo com a lógica ao dizer-lhe que observe apenas o que a Janela contenha, sendo que o elemento contido, uma parede, é igualmente inobservável. no choque de duas realidades incontestáveis, de duas obviedades ruidosamente claras, a ponto de a confundirmos com nossos próprios olhos, o que ainda conseguimos ver?

e se comer desse fome? e se respirar matasse? apesar de toda ilógica aparente, por apressar os trabalhos de nosso corpo em digerir, de fato comer dá fome... e nossa inalação supre de oxigênio todos nossos cânceres e tubérculos e portanto mata-nos, o que ainda podemos fazer para matar a fome ou para permanecermos vivos? da mesma forma que continuamos a comer ou respirar, apesar da, aqui, comprovada ausência de lógica em tais fatos, eu quando criança passei a observar a parede- por- trás- da- Janela. contraditoriamente, os mesmo que me impuseram tal dilema, os adultos que moravam em minha casa, muito estranharam que eu permanecesse horas a observar as formigas que passavam pela tal parede do outro prédio, na paródia sombria do que essa gente costumava fazer ao olhar para janelas-que-dão-para-as-ruas. se de fato meditava ou contemplava o nada não me lembro, mas a necessidade de uma lógica estável que nos dê firmeza nos pés me encarcerava por horas de fronte a tal Janela toda vez que não entendia muito bem as lógicas do mundo em minha volta.

quando finalmente crescido, justamente nos momentos que mais precisaria de estabilidade sobre os pés, a Janela já não me supria de tal urgência. junto com o carro que recebi de aniversário aos 18, ganhei um Motor que não para de rodar dentro de mim e que em seu incessante mover apressa-me por dentro evitando que, por mais forte que eu tente, passe mais que alguns segundos em frente à parede. apressa-me para velocidades, velocidades nas quais não consigo enxergar por onde estou, num desejo eterno por montanhas- russas que impeçam que veja com nitidez o contorno do cenário por onde ando, talvez porque sem ver os contornos seja incapaz de reparar por onde passo e assim, sorvendo o mínimo de imagens a minha volta eu tenha igualmente o mínimo do que afligir-me naqueles intermináveis instantes entre deitar e dormir. esse redemoinho de quedas e vertigens, histórias de sucessos e fracassos, é minha nova-janela, mas não estática em demasiado como a Janela, essa nova- janela, esse Motor, é como um filme de ação no qual de tanto se mexer o ator, entre aviões, carros e bandidos que nos faz esquecer por que tanto se corre em tal filme. mas nem o fracasso com a primeira janela, a Janela, me alertou sobre meus riscos nessa nova forma de estática, essa estática em movimento, e me tornei escravo desse Motor-Perpétuo como antes fora das minhas inspeções à parede.

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