Formas em Cinza (trecho avulso)
"You don’t know meBet you’ll never get to know me
You don’t know me at all
Feel so lonely
The world is spinning round slowly
There’s nothing you can show me
From behind the wall
Show me from behind the wall
Show me from behind the wall
Show me from behind the wall
(Eu você nos dois, já temos um passado meu amor
Um violão guardado, aquela flor)
Show me from behind the wall
Show me from behind the wall
Show me from behind the wall"
"You don't know me" de Caetano Veloso e músicas incidentais.
[Sentou-se na cadeira do terraço, como em qualquer outro dia. Sentia-se velho. Sentia-se fraco. Era novo demais para toda a dor que carregava. Começou seu ritual diário. Colocou na vitrola um disco antigo e fez tocar uma música brega. Pigarreou por alguns segundos e acendeu o cachimbo. Costumava dizer para os amigos que fumava no terraço para não enfumaçar a casa. Nada poderia ser mais mentiroso.
A soltar pequenas baforadas, ele continou a sua rotina e passou a rememorar passados longíquos. Passado quando fumar era proibido e ouvir sua música brega era má notícia. Passado recheado de gritos, torturas e sofrimento. Passado no qual as semânticas mais comuns eram difusas, onde os significados pareciam distintos. Palavras que ele fazia questão de não mais ouvir ou falar. Palavras que a música brega falava por ele. Breguice, amor rimar com dor, ou para ser mais preciso, o amor ser a dor.
Chega-se ao ponto central de sua rotina, ele lembra dela. De como ela odiava que ele fumasse, de como ela não suportava que ele bebesse, de como o gosto musical deles não se aproximavam em um mísero átimo melódico. Lembrou de cada grito, de cada choro, de cada tormenta. A fumaça, as nuvens e a tempestade, do desespero, do cansaço e das lágrimas, dos olhos, gestos e verbos. Lembrou da dor que era amar. Se aproximou do parapeito do terraço e procurou a janela dela. Tentou soprar seu cachimbo para que fedesse do outro lado do terraço.
Quando se divorciaram, não conseguiram chegar a um acordo quanto o apartamento. Não queriam vender, não conseguiriam ceder. Ele teve a idéia de dividir o imóvel em dois e eles passaram de casados a vizinhos. O terraço fora dividido ao meio, mas apenas ele passava por lá. Ele passava toda tarde lá, fumando e ouvindo música se imaginava estar a mostrar a ela as belezas da liberdade. Ela nunca mais resmungara sobre isso. Quando se encontravam nos elevadores, ela mantinha o sorriso pálido e frio, com terna educação. Nunca reclamou do volume do som, nunca soltou um ai, ou qualquer outra demonstração de raiva. Ele havia criado uma trincheira sem guerra. Empoleirado no terraço, imaginava causar tormentos ao seu inimigo, apesar da fumaça não deixar ele ver muito bem o que acontecia do outro lado. Mas, naquele dia, ela deu um pulo no terraço. Olhou-o de um jeito amistoso e disse:
- Você nunca desistirá, não é? Não notas que a única coisa que consegues é causar-me a dor de perceber que acabei com sua vida? Quantos anos isso já se prolongou? Você acha que não me acostumei com esse fedor? Essa música já me é silêncio. Será que você nunca vai procurar saber quem eu sou, será que nunca vai tentar desvendar essa sua paixão por mim? Vai mesmo permanecer batendo cabeça nessa parede que você mesmo construiu para nos dividir? Eu cansei. Meu amor cansou-se. Eu coloquei o apartamento a venda e meu coração no mercado. Estou velha, eu sei, mas sempre haverá alguém para me dar um amor sem paredes ou brutalidades. Adeus.
Ele jurava que queria festejar a saída dela. Mas, não conseguia.]
Marcadores: Caio Almendra

3 Comentários:
manda um doc com tudo seu? quero imprimir e ler.
Por
gigi, Às
segunda-feira, setembro 10, 2007
Claro. Depois, eu vou confessar tudo de ruim que já fiz na vida, incluindo como consegui matar o PC Farias sem levantar suspeitas e transmitir Aids para a Sasha Meneguel. Por fim, confesso para você todas as vezes que já trai uma namorada ou um amigo e dou uma lista dos telefones de todos eles. Aí, eu dou um tiro na minha cabeça.
Moça, num rola. Eu escrevo muito e a maioria disso é muito merda. Tem mais, me sinto muito exposto quando mostro alguma coisa para alguém. A boa do formato blog é que eu estou mostrando a todos sem ter que olhar para ninguém. Ou seja, é mais fácil publicar que enviar ops textos. Aceita as doses homeopáticas e agradece o Danilo por me convencer a postar coisas mais sérias e pretenciosas, como o "Cama de Agulhas".
Mal aê...
Por
Caio Almendra, Às
segunda-feira, setembro 10, 2007
ai, caio, cheio de marrinha.
Por
gigi, Às
segunda-feira, setembro 17, 2007
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