Falsas Promessas(trecho avulso do "Luzido Indecente")
Quando eu tinha uns 15 anos, minha irmã mais velha se converteu a uma religião neo-pentecostal, dessas que transformam cinemas em igrejas e as quais chamamos de evangélicos ou crentes. Na visão alcóolica do meu pai bon vivant, Natália apenas procurava mais uma desculpa para não ter que se preocupado com beijos, flertes e namorados. Balbuciava ele, com seu cheiro nauseabundo de pinga com torresmo, "Essa menina procura na bíblia uma toca de avestruz para meter a cabeça. Vê se carregar o mesmo livro embaixo do braço todo dia e vestir essas saias de beatas deixa alguém feliz?" Ele sempre voltava a esse ponto, ser feliz. Às vezes, tento me lembrar qual foi a última vez que ele fez alguma coisa para ser feliz. Além de beber, é claro.
(...)
Para meu lado, a nova religião de Natália apenas me incomodava numa hora. Cinco da manhã. Sempre que chegava em casa, fedendo a cigarro e todo lanhado, minha irmã começava um pequeno sermão. No início eram apenas divagações sobre religião. Nascidos em família de ateus extremamente céticos, essa discussão sempre pendia para meu lado. Na minha humilde opinião, é mais fácil provar a descrença que a fé. Pena que essa última, uma vez instalada, seja invulnerável. Quando esse tipo de discussão inútil se instalva, meu pai fazia questão de interceder. A meu favor, por mais incrível que possa parecer. "Beber umas cervejas e dar uns beijos na boca é a melhor coisa que seu irmão pode fazer aos quinze anos". Eu sempre concordava, mesmo que contrariado por concordar.
(...)
Após aquela conversa telefônica, Natália tentou outro caminho para minha involuntária evangelização. "Não vê como sofre e faz sofrer?" Tive que retrucar. "O que sabe você sobre tal assunto?" Ela calou-se. confirmou minhas suspeitas, de fato, ela nada sabia. Entretanto, Natália respondeu, falando sem saber, palavras que não entendia, mas cuja semântica mudou no caminho entre sua boca e meu ouvido. "Você não nota que a cada beijo você entrega algo muito precioso de si?" Quem foi o babaca desse pastor que ensinou essas coisas para ela?(...)Sim, eu entregava algo precioso. Muito precioso. A cada beijo que dou arrisco-me um pouco a me apaixonar e a cada paixão, arrisco meus ouvidos a promessas vazias. Pior do que ouvir tais promessas, contudo, é entrar em xeque. Após saber do vazio das promessas alheias, devo esvaziar minhas promessas e me fazer hipócrita ou manter minhas juras de amor eterno e me fazer masoquista?
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Para meu lado, a nova religião de Natália apenas me incomodava numa hora. Cinco da manhã. Sempre que chegava em casa, fedendo a cigarro e todo lanhado, minha irmã começava um pequeno sermão. No início eram apenas divagações sobre religião. Nascidos em família de ateus extremamente céticos, essa discussão sempre pendia para meu lado. Na minha humilde opinião, é mais fácil provar a descrença que a fé. Pena que essa última, uma vez instalada, seja invulnerável. Quando esse tipo de discussão inútil se instalva, meu pai fazia questão de interceder. A meu favor, por mais incrível que possa parecer. "Beber umas cervejas e dar uns beijos na boca é a melhor coisa que seu irmão pode fazer aos quinze anos". Eu sempre concordava, mesmo que contrariado por concordar.
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Após aquela conversa telefônica, Natália tentou outro caminho para minha involuntária evangelização. "Não vê como sofre e faz sofrer?" Tive que retrucar. "O que sabe você sobre tal assunto?" Ela calou-se. confirmou minhas suspeitas, de fato, ela nada sabia. Entretanto, Natália respondeu, falando sem saber, palavras que não entendia, mas cuja semântica mudou no caminho entre sua boca e meu ouvido. "Você não nota que a cada beijo você entrega algo muito precioso de si?" Quem foi o babaca desse pastor que ensinou essas coisas para ela?(...)Sim, eu entregava algo precioso. Muito precioso. A cada beijo que dou arrisco-me um pouco a me apaixonar e a cada paixão, arrisco meus ouvidos a promessas vazias. Pior do que ouvir tais promessas, contudo, é entrar em xeque. Após saber do vazio das promessas alheias, devo esvaziar minhas promessas e me fazer hipócrita ou manter minhas juras de amor eterno e me fazer masoquista?

4 Comentários:
tem gente que acredita em deus.
Eu acredito no amor.
e no Senso Comum.
Por
Danilo Lemos, Às
sábado, setembro 29, 2007
O Senso-Comum é o meu pastor, nada me faltará. Deitar-me faz em camas de agulhas, guia-me mansamente ao total esquecimento. Cajuína a minha alma; guia-me pelas veredas de Copacabana e seus idiotas, por amor do último cigarro. Ainda que eu andasse pelo vale da sombra do somos os mortos, não temeria mal algum, porque o Senso está comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam*. Preparas uma cama perante mim na presença da dama de vermelho, unges as minhas partes com óleo diesel e atea fogo, a minha tulipa transborda. Certamente que a tortura e a credulidade do Senso me seguirão todos os dias de rosa de ouro; e trepanarei no blog por mais longos anos.
*A Bíblia é foda, né? Tem coisas que você nem precisa sacanear, já vem "empiadado" de fábrica. Que porra é essa de vara e cajado CONSOLANDO? Essa galera da antiguidade era afoita... UM CAJADO?!
Por
Caio Almendra, Às
sábado, setembro 29, 2007
olha o que acontece quando as pessoas perdem o senso comum:
http://100sensocomum.blogspot.com/
Por
Danilo Lemos, Às
domingo, setembro 30, 2007
Quanto a deus, não sei, mas quero acreditar em amor eterno como quero acreditar que a coca-light tem menos de uma caloria. Todos os dias me induzo a acreditar na ilusão dos dois.
A coca-cola, que está em mais lugares que Deus, não ia estampar propaganda enganosa e correr risco de perdor bilhões, ia? Então, talvez amor exista.
Por
Jana, Às
domingo, setembro 30, 2007
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