Foucault, 1984 e a frase que abrirá todas as bucetas
(...)Marcelo colocou "Be my Yoko Ono", na jukebox. Naquele momento, muitas garrafas vazias já estavam sobre a mesa e a superfície da história de Letícia e Mateus havia sido esquecida. Marcelo tentava aprofundar e generalizar o tema.
-É curioso como, mesmo muito antes de ser possível constituir uma família, mesmo antes de qualquer das partes querer constituir uma família, nossos relacionamentos já devem se parecer com uma. É a ausência absoluta de toda e qualquer criatividade. É o ser humano, no seu momento mais íntimo e pessoal, sendo típico e impessoal. É Foucault, em sua forma verdadeira, um autor trágico, a tragédia da desumanização coletiva. É triste como mesmo uma mulher inteligente como a Letícia não foi capaz de discutir isso com você.
Mateus-Nesse ponto, não se trata de pouca discussão. A discussão é impossível, hoje. Vivemos num mimetismo tão grande, que discutir é impensado porque impensável. Já nem sabemos como comunicar sensações como essas, não temos como estruturar essas sensações em pensamentos. Usamos metáforas fajutas que difamam nossa própria sensação. Falamos em liberdade, em individualidade, mas nem chega perto disso. Como se descreve o oposto de família? Há palavra para isso hoje em dia? Na Roma Antiga, o conceito de família causava temor aos outros. Matar alguém com família era dar oportunidade de alguém vingar o morto, matando você. Ter família era uma proteção. Hoje, família é um fato tão definido, certo e inafastável, como a morte, de forma que o medo não é mais externo. É íntimo. Temos medo de ter família e não mais de não tê-la. Aliás, como se chama a ausência de família?
Marcelo-Você acha que existe alguma coisa que somos capazes de sentir mas não de achar alguma forma de descrever?
Mateus-Acho. É como Syme, o personagem de Orwell dizia: no futuro, todas as línguas serão compostas de apenas uma palavra. Isso evitaria que a pessoa sequer pensasse em desobedecer o governo. O totalitarismo estatal saiu de cena, mas temos exemplos disso na capilarização do capitalismo. Sem querer entediar vocês com juridiquês, a nossa literatura juscontratual começou nessa Roma Antiga, são mais de dois mil anos. Hoje, o contrato se resume a duas siglas de três letras. Dois mil anos de história viraram ASG, POA.
Nesse momento, Fábio que até então parecia um pouco entediado, descreve com um ar sério:
-Já fazem alguns anos que mantenho uma experiência sociológica(Mateus e Marcelo pareciam perplexos. Fábio jamais falara nada nesse tom antes). Primeiro, escrevo 50 frases numa folha de caderno, com o tempo, vou aperfeiçoando e mudando as frases. Depois, acesso um site de relacionamentos, um chat qualquer. Tenho um objetivo claro, conseguir nome, idade, telefone e foto de uma moça usando o mínimo de frases possíveis dentre as 50 frases do caderno. A cada ano, uso menos frases e encurto elas um pouco. Guardo a teoria que, no futuro, descobrirei a frase definitiva, a única e maior, e nunca mais falarei nada na minha vida inteira.
Marcelo-Que frase?
Fábio-Se ainda sou capaz de conversar com vocês, não sei qual a frase. Apenas sei a função dela. Assim que eu a falar, qualquer, absolutamente qualquer, mulher que ouvir, decidirá transar comigo. Será a frase que abrirá todas as bucetas.
Marcelo-No futuro, acabaremos com o moralismo, mercantilizaremos tudo. Será a era da honestidade. A palavra será "Dinheiro!".
Mateus- Em breve, a humanidade se libertará do consumismo, começará o reino do amor e do prazer na Terra. A frase será "Amor!"
Fábio-Rá! Amanhã, o Homem se livrará do moralismo e do consumismo. Será a época da honestidade e dos prazeres. A frase será "te chupo toda".

2 Comentários:
hehehe. Não imagino uma forma melhor de desfibrilar o blog.
Por
André Pessoa, Às
sábado, novembro 07, 2009
Acho que o importante é fazer volume.
Por
Caio Almendra, Às
sábado, novembro 07, 2009
Postar um comentário
Assinar Postar comentários [Atom]
<< Página inicial