quarta-feira, abril 29, 2009

O mal uso e a inépcia do discurso de discriminalização da maconha

Faz tanto tempo que não escrevo nada para o senso-comum que me permiti postar algumas reflexões, ao invés de crônica.

Ontem, estive num debate/palestra sobre a criminalização do movimento "Marcha da Maconha" ( www.marchadamaconha.org ). Palestraram os professores Daniel Sarmento, Luiz Eduardo Soares, e os convidados Renato Cinco e Orlando Zaccone. As palestras foram ótimas e não resta dúvida do facismo das tentativas de se criminalizar o movimento social. Nada em nossa ordem jurídica justifica tal atitude, o que foi bem exposto, não obstante ser óbvio. O evento, contudo, mais uma vez mostrou a incapacidade de se discursar aberta, franca e honestamente sobre o tema.

Primeiro, o nome do coletivo, "Marcha da Maconha", é muito infeliz. Uma tradução literal do nome inglês, evidenciou que o movimento não engloba todos que são contrários a criminalização das drogas, mas apenas os que dentro desses são usuários. Ademais, não consigo deixar de pensar na ridícula imagem de um pequenos pés de maconhas marchando ao som de uma batida militar, ao estilo martelinhos do Pink Floyd.

O pior, porém, não é a clara opção pelo estereótipo tão desgastado e mal falado da esquerda festiva, mas a utilização mesquinha e inepta do discurso, quer pelos contrários, quer pelos favoráveis à proibição da maconha. Como breve introdução a essa questão, vale uma pequena explicação jurídica: a proibição de toda e qualquer droga é competência da esfera federal e foi feita, simplificadamente, "em duas etapas", uma lei que dá poder ao Ministério da Saúde para editar uma portaria que define quais drogas são ou não ilícitas. Como já disse aqui, nem César Maia, nem Gabeira(se esse tivesse sido eleito), poderiam, nem que arrancassem as tripas dentro do palácio municipal, criminalizar, ou descriminalizar, maconha, tabaco ou injeção de cianureto. Contudo, eu ouvi, e muitos entres vocês também, que o Gabeira era um bom voto(se o falante fosse jovem de classe média) ou mal voto(se o discurso fosse evangélico) porque ele era favorável a discriminalização da maconha. A opinião do Gabeira sobre tal assunto, enquanto prefeito, não é de maior serventia que a opinião de qualquer outro formador de opinião. Ou seja, mesmo prefeito, o Gabeira ainda teria menos poder nessa questão que o William Bonner. Em especial, tenho uma amigo, leitor desse blog, que votou no Gabeira, usou esse discurso da maconha para justificar seu voto e declara seu futuro apoio ao ex-ministro José Serra. Esquece, entretanto, que se o José Serra quisesse, em absolutamente qualquer momento de seu cargo ministerial, escrever num guardanapo os dizeres "a maconha não mais está proibida, favor redijam a portaria", e entregar esse guardanapo para um de seus secretários, a discussão já teria acabado faz muito tempo. Poderia citar infinitos exemplos de mal utilização do tema, mas preciso avançar para a inépcia do discurso, ou não concluo o título dessa postagem...

Existe uma grande razão formal e uma grande razão sociológica para se defender a discriminalização da maconha. A razão formal é a defesa da liberdade de auto-determinação do indivíduo. Todo mundo deve poder decidir o que quiser para si, desde que não afete negativamente o ambiente coletivo. Fumar só é um problema em locais fechados, pois força os não-fumantes inalar fumaça, em atentado igual, mesmo que simétrico, à liberdade que a proibição causa. Essa razão formal é, em parte, resolvida. Em nosso ordenamento jurídico, o consumo pretérito de maconha não é crime, pois não existe crime auto-lesivo. Não é solução, pois beira o cinismo proibir o acesso mas, quando se consegue o acesso, permite-se o consumo, mas é um passo para frente. A razão sociológica, bem explicada pelo professor Luiz Eduardo Soares, é que a falsa, pois ineficiente, guerra contra as drogas esconde uma verdadeira e eficiente criminalização da pobreza. O argumento me parece de uma obviedade tão grande que faltam-me palavras para explicá-lo, quem precisar de maior explicação procure literatura do referido professor.

Infelizmente, contudo, o surgimento de pequenos, sucessivos e falsos argumentos, desvia o debate dessas razões, que são as que realmente importam, para futilidades inúteis, desviantes e paralisantes... "Existem aplicações medicinais para a maconha", sim existem, mas tais aplicações já são legalizadas, pela aplicação do estado de necessidade(sim, no Brasil, comprar maconha para dar a sua avó com câncer não é crime), "Existem aplicações industriais para a maconha", FODA-SE!, esse discurso só prestaria para alguma coisa se a lucratividade dessas aplicações justificassem o lobby de grandes indústrias, "Existem religiões que utilizam a maconha em seus rituais", mesmo que fosse verdade, elas não tem representatividade no Brasil e muito menos dentro dos movimentos sociais pró-liberação, afinal, o jovem de classe média usuário de maconha acha engraçado se dizer Jah, mesmo que não siga nenhum outro preceito da religião, sem se lembrar que essa religião, derivada do judaísmo ortodoxo, é uma das mais conservadoras, ou seja, a maconha leva à religião maconheira e não a religião maconheira leva à maconha, "Maconha tem Ômega 3", PQP!, fumar não faz ômega 3 ingressar seu corpo e não imagino ninguém comendo maconha em sua dieta regular para absorver tal nutriente, porque a quantidade de maconha suficiente para se equivaler a uma mísera tainha, seria suficiente para incapacitar alguém por um dia inteiro e Vamos e venhamos, ÔMEGA 3???

Por que alguém interessado em liberalizar a maconha espalharia essa tinta de polvo? Por que encher o discurso de perfumaria se ele é simples, inteligente e extremamente capaz? Não, não se trata de sabotagem. Essas pessoas de fato querem a legalização da maconha. Contudo, o discurso pela proibição é tão irrigado na moral coletiva que existe uma certa vergonha, pura e simples, de se admitir o desejo de legalizar e admitir que quem se dispõe a organizar o movimento pró-legalização é usuário da maconha. Ser usuário não desqualifica o discurso, se sentir desqualificado por ser usuário, contudo, é difamar o discurso. Esse fenômeno afeta a todos. Eu mesmo não consigo evitar as palavras "não sou usuário, nunca fui, nem sequer experimentei, mas sou a favor da legalização". Nem mesmo nesse texto, no qual critico essa vergonha.

Fica a sabedoria do Capitão Presença:"Essa bancada pró-liberação, sei não hein..."

13 Comentários:

  • Cara, se voltassemos a usar a maconha como matéria prima teriamos cordas muito melhores do que as de algodão para a navegação à vela. Mas isso vc não fala.

    Por Blogger André Pessoa, Às quinta-feira, abril 30, 2009  

  • Acho muito foda o senso-comum apoiar a liberação da maconha e a restrição ao cigarro. Acho genial! E falo isso como ex-fumante agora.

    Por Blogger Danilo Lemos, Às sábado, maio 02, 2009  

  • Danilo, a questão sempre foi lugares fechados. Fumar em lugar fechado é tão desrepeitoso à liberdade "fumântica" de alguém quanto proibir uma pessoa de fumar sozinha e em casa. Duvido que alguém que pense mais de 10 segundos sobre o assunto realmente iria ser a favor de se fumar maconha em lugares fechados... Tem idéia da quantidade de gente que fica com dor de cabeça com fumaça de maconha? Mesmo legalizada, a maconha deveria ter todas as restrições que o cigarro: maioridade(ou ao menos alguma restrição de idade, 18 anos é bem ridículo...), repartições públicas, instituições de ensino médio e fundamental, lugares fechados e etc. Depois de um ano, não me parece que você entendeu que a única diferença do decreto do César Maia para a norma anterior é que a multa do cigarro deixou de ser do usuário, para ser do estabelecimento que deixa usuários fumarem em locais fechados. Ou seja, não é mais o fumante que paga a multa, ou seja, o decreto é mais benéfico ao fumante e torna a fiscalização mais simples...

    Por Blogger Caio Almendra, Às sábado, maio 02, 2009  

  • Graças a deus, que não fui só eu que não entendi que era só isso e o decreto do César Maia caiu. Mas mesmo assim, quando falo do senso-comum, não falo do blog, mas ainda insisto que acho engraçado o fato de que a restrição do cigarro até em vias públicas e liberação da maconha andarem nas mesmas bocas. Com argumentos mais engraçados ainda como o fato do cheiro ser melhor de um ou de outro, e coisas do tipo.
    Entendo a agressividade, pois você escreveu um texto que não tem nada a ver com o meu comentário, mas o tema da marcha da maconha só me remete ao humor. Talvez seja o nome que me dê onda!

    Por Blogger Danilo Lemos, Às segunda-feira, maio 04, 2009  

  • bem, se deus agiu em algo para remover o decreto, adiciono mais uma queixa a ele. fazer com que o estabelecimento pague a multa está longe de ser uma norma ruim.

    Por Blogger Caio Almendra, Às segunda-feira, maio 04, 2009  

  • apenas se acreditarem nessa falácia de monoteísmo, seu tolo.

    Por Anonymous Krishna, Às terça-feira, maio 05, 2009  

  • Valeu Jesus hindu, teu pai pode ser Vishnu, Brahma ou Shiva, mas quem é tua mãe, heim? Uma vaca?

    Por Anonymous Agostinho, Às terça-feira, maio 05, 2009  

  • minha mãe se chamava Devaki e era membro da família real. é mais verdadeiro que essa balela de santa mônica, rapariga de merda. santa e mãe, típica mentira de puta, que roda bolsinha na zona e diz que foi o espírito santo.

    Por Anonymous Krishna, Às terça-feira, maio 05, 2009  

  • Ai, ai... Adoro debates teológicos...

    Por Blogger André Pessoa, Às terça-feira, maio 05, 2009  

  • Eu queria dizer que o espírito santo não existe. A única pessoa que se teve notícia que veio de lá foi o Sávio. E que porra fez o Sávio? Bi campeão da taça guanabara de merda! Tomanocú.
    Bom mesmo era o Mancuso!

    Por Blogger Danilo Lemos, Às terça-feira, maio 05, 2009  

  • Danilo, o espírito santo existe. só que ele é uma puta sacanagem...

    Por Blogger Caio Almendra, Às terça-feira, maio 05, 2009  

  • só pq eu me transformo num pombo? E eventualmente posso cagar na cabeça de alguém? Tem sacanagem pior do que essa...

    Por Anonymous Espírito Santo, Às quarta-feira, maio 06, 2009  

  • o fato do elefante cagar, não faz a merda do pombo deixar de ser merda...

    Por Blogger Caio Almendra, Às quarta-feira, maio 06, 2009  

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