quarta-feira, novembro 18, 2009

"O homem que matou o facínora", "Batman, Cavaleiro das Trevas", "Cidadão Kane" e o mito do cinema entretenimento

Ok, é o terceiro texto seguido sobre cinema, estou um pouco cinéfilo e vou escrever apenas sobre a cinefilia, um dia. Esse texto vem reclamar de uma injustiça histórica que, por força de uma arrogância impar de certa "casta", vem se procriando.

Numa releitura histórica, o termo "cinema entretenimento" foi cunhado em oposição ao termo "sétima arte". Visava, como muitos sempre buscam, criar um selecionismo no conceito de arte, chegar-se a conclusão pernóstica de que apenas é arte o que é bom, sem se questionar o que bom e o que não é, sempre será arbitrado. Ou seja, quem usa dessas estratégias outorga a si mesmo um poder de arbitrar o que presta e o que presta, apenas para dizer que o que não foi feito por esse crítico nem está no mesmo plano de comparação, nem se quer é arte. Dizer cinema entretenimento é, por si só, uma redundância. Dizer que o cinema não entretem, é dizer que o filme é ruim. Novamente, cinema-arte também é redundante. Todo cinema é arte. As vezes, ruim, as vezes boa, mas arte. Não posso dizer que Fulano não é ser humano porque não gosto dele, ou que tal prato não é comida porque eu não o como. Esse tipo de discurso é tão egocêntrico que beira a alucinação, a loucura.

Especificamente, "cinema entretenimento" foi inventado como crítica a três filmes que mudaram a história do cinema: Guerra nas Estrelas, Apocalipse Now e Tubarão. Os críticos eram os últimos sobreviventes de uma grande leva de cineastas e fãs de filmes de época, majoritariamente westerns(ou em "português" mais claro, bang-bang), como John Ford, Clint Eastwood, Sam Peckinpah, Anthony Mann, entre outros. Digo, sobreviventes porque no meio da década de 70 a maioria estava morrendo mesmo, a idade tinha chegado a muitos desses pioneiros(das câmeras, não das caravanas).

Vou focar um pouco em John Ford, não porque tenha sido o maior crítico, mas porque é meu diretor predileto no gênero, tendo feito dois dos melhores, na minha humilde opinião, filmes desse tipo, "O Homem que Matou o Facínora", "Rastros de Ódio" e "No Tempo das Diligências". John Ford fez belíssimos filmes e ninguém ousaria dizer que seus filmes "não eram arte". Destinou grande parte de sua vida a fazer bang-bang, empenhava ar e tom épico a todos os seus filmes, escalava John Wayne como o mocinho na maioria e ajudou a passar a imagem de cowboy-paladino, imagem que acompanhou a vida de Wayne(o ator era um dos inspiradores das tropas americanas no Vietnam, onde ajudava a passar a idéia de que havia grande heroísmo em lutar tal guerra). John Ford era um grande artista, sem dúvida, mas ninguém faz mais de 130 filmes sendo um tolo. Havia uma razão para Ford optar por westerns épicos: era um tipo de filme popular, que vendia o suficiente para financiar seu filme seguinte. Por ser inteligente e de ideologia aristocrática, ele não tinha os delírios de parte da esquerda, nos quais a pobreza enobrece a arte. Ele sabia que para o cinema crescer, precisava do público.

Ford inclusive foi antagonista de um dos maiores pecados contra a arte cinematográfica. Em 1941, Orson Welles conseguiu carta branca, tanto financeira, quanto criativa, para fazer seu primeiro longa metragem. O resultado é "Cidadão Kane", que 8 entre 10 críticos consideram o maior filme de todos os tempos. Entretanto, Kane perdeu o Oscar de melhor filme, melhor direção, melhor fotografia e melhor arte, para "Como era Verde Meu Vale", feito por Ford em apenas 2 semanas. O filme de Ford é belíssimo, baseado no romance homônimo de Richard Llewellyn, sobre as mudanças de uma pequena cidade mineradora e da família de um ancião, mas não chega perto de Kane. Não é, contudo, inovador, nem tão cuidadoso ou brilhante. O próprio Ford queria que o filme fosse filmado no País de Gales, feito impossível por conta da Segunda Guerra Mundail. Diga-se de passagem, William Wyler, diretor de "Ben Hur", havia idealizado o projeto e escolhido o elenco e foi substituído de última hora por Ford, pois Wyler resolveu levar o heroísmo à prática lutando na Guerra. Diferentemente, Orson Welles ousou, mudou, pensou tudo em pequenos detalhes, como quem pintasse o teto de uma catedral. Welles nunca mais teve tanta liberdade artística ou verba novamente e, talvez, um resultado distinto na premiação poderia ter mantido esses privilégios. Quem sabe o que ele poderia ter feito depois?

Em 1975, Steven Spielberg faz "Tubarão"; em 1977, George Lucas faz "Guerra nas Estrelas" e;em 1979, Francis Ford Coppola faz "Apocalipse Now". Os três filmes atingem o público de forma diferente que os bang-bangs faziam. E, ao contrário do que os críticos diziam, a diferença não é que eles atingem com armas lasers, ou "mostram que basta efeito especial para vender", como muito se disse. Os três filmes, para quem os viu com atenção e sem desdém, são grandes filmes. Tubarão foi baseado em um livro de mesmo nome, best seller do ano anterior. Guerra nas Estrelas tem roteiro original, é um épico de premissas maniqueístas, que é, contudo, repleto de sutilezas. Apocalipse Now é simplesmente brilhante... Coppola trouxe o enredo de "Coração das Trevas", de Joseph Conrad, um dos melhores livros que já li, considerado uma das obras-primas da literatura moderna, do congo belga dominado pelo imperialismo inglês para o Vietnam, invadido pelo imperialismo americano. Os filmes não são meros sucessos de produção... Um sucesso de produção não gera público por si. Aliás, apenas é uma grande produção o filme que consegue juntar grandes artistas(entre atores, diretores, roteiristas, fotógrafos e etc). Contudo, eles abriam horizontes, recriavam o cinema americano, reconstruíam, por mero exemplo de como era possível, tudo. Surgia a idéia de high concept, filmes que podiam ser descritos por uma frase simples, sem, contudo, serem curtos ou deficientes.

Esse fenômeno é normal, morre uma geração surge outra geração. Os sucessores fazem cinema ao seu modo, os sucedidos reclamam das mudanças. Já estamos em outra geração, Spielberg, Lucas, Coppola, e companhia, já trabalham mais como consultores e produtores executivos do que com a câmera na mão. A evolução, contudo, prega peças nos olhos e mentes atentas, o mundo não anda em linha reta. Hoje, a quarta maior bilheteria de todos os tempos é de"Batman, o Cavaleiro das Trevas", filme de Chris Nolan. Nesse filme, um mocinho aceita a fama de vilão, para que se crie um ídolo, uma imagem heróica, que inspire as pessoas ao bem. O homem das armas aceita o descrédito, para que se forme uma imagem política que guie o povo para a liberdade contra a tirania. Esse é precisamente o tema, mas não o roteiro exato, de um filme de John Ford, considerado um dos melhores da sua carreira.

No final de sua carreira, em 1962, dez anos antes de morrer, John Ford fez "O Homem que Matou o Facínora"("The man who shot Liberty Valence"). O filme é diferente dos demais... Ford busca paz com sua própria cinegrafia, busca mostrar que os bang-bangs erram e que o apego do público ao gênero teve um custo. John Wayne já estava velho para ser mocinho e James Stewart tinha rugas de mais para convencer no papel de advogado recém formado e idealista, apesar da brilhante interpretação. O filme sintetiza em uma frase uma grande autocrítica, que atinge muito de seus filmes. Ao final da história, quando um jornalista conhece a verdade sobre um grande feito heróico, ele diz: "Quando a lenda vira um fato, publique-se a lenda". Ford refletia que seus filmes anteriores esconderam grandes barbaridades, grandes atrocidades, mas como eram épicos, refletiam uma visão imparcial da história. Mais que essa autocrítica, o filme trazia uma idéia diferente dos demais. Para que se garanta liberdade, lei e ordem, como muito de seus mocinhos buscavam em outros filmes, precisa surgir uma entidade política. Para que essa surja, é necessária uma violência originária e pacificadora. Nesses dois conceitos, a publicação da lenda e a violência revolucionária, Ford e Nolan são extremamente similares. Ou seja, "o filho do cinema entretenimento", da geração hiperbolicamente "entretenimento" fez um filme como o mais artísticos dos filmes do homem da geração do "cinema-arte".

Meu critério continua simples: é arte se é filme, é bom se eu gostar.

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