sábado, novembro 07, 2009

O Ex-Canudo e o Ser Moderno

-Olhe bem para isso e diga-me, o que é isso?

-Isso é um pedaço de plástico contorcido.

-Não, essa é a composição disso. Um canudo não é um pedaço de plástico enrolado, ele é composto por um pedaço de plástico enrolado. O que de fato é isso?

-Um objeto.

-Essa é uma classificação, num ser. Se eu lhe dizer que algo é um veículo, nada mais será que não uma classificação. Não saberás de que algo estou a falar.

-Isso é um não-canudo.

-Sem dúvida, mas o não-ser não pode ser medida do ser. Isso, da mesma forma que não é uma canudo, não é uma girafa, um apontador ou um deus nórdico. Ainda assim, não me dizeis o que é isso.

-Isso foi um canudo.

-Deveras verdadeira. Entretanto, dizer o que algo foi não implica saber o que algo é. Não podemos chamar o boi de grama, o homem de boi ou a merda de homem, podemos?

-Isso é uma pequena porção de lixo.

-Não, não é. Lixo é por definição aquilo que perdeu a utilidade e, portanto, o seu dono desfez-se da propriedade. Enquanto eu, que comprei o guaraná e o recebi gratuitamente, mantiver esse canudo comigo, ele servir para meditarmos, ele estiver em minha mão e minha posse, não podemos propriamente chamá-lo de lixo, podemos? Com a propriedade privada, o uso de todas as coisas depende da razão e vontade de seu dono.

-Então, ele é um objeto meditativo.

-Não há como definirmos qualquer coisa como objeto meditativo, o objeto de todas as meditações é o pensamento, não o canudo, Buda ou crise da pequna burguesia.

-Instrumento meditativo.

-O instrumento de toda meditação é a mente. O não-canudo não faz parte de nossa corrente meditação.

-Então, o que é isso?

-Isso não é o nada, contudo nada é. A medida da definição de toda e qualquer coisa, na época que vivemos, a Modernidade... A medida da definição de toda e qualquer coisa, o próprio Ser Moderno, é função do valor máximo da própria Modernidade, a Funcionalidade. Fora do universo da Funcionalidade, dentro da grande cadeia de coisas que não encontram utilidade alguma, fora do Conjunto Lógico da Funcionalidade, há o Conjunto Indefinido da Inutilidade. Nessa região, somos incapazes de conceber, de pensar. Esse é o limite de toda a racionalidade moderna, o inútil. Não de utilidade desconhecida mas o de utilidade reconhecidamente nula. Nessa região, toda o pensamento do homem moderno esvaie-se, como a luz não chega ao interior de um poço profundo. Após essa fronteira, nada realmente é, como entendemos a palavra Ser. O Ser depende do sujeito e todos os sujeitos são modernos. Nada se concebe além do Ser Moderno. Nada é, fora do Ser Moderno.

-Então nada há, fora do Ser Moderno.

-Não. Esse ex-canudo existe. Ele apenas não é. Se não os vissemos, não o imaginaríamos. Não evita, contudo, que em um pragmatismo terrivelmente objetivo, ele exista. Nós tocamos ele. Observe, ele, para si, se abstrativamente adicionarmos uma subjetividade a esse ex-canudo, existe. Personifiquemos-o, talvez um pequeno rosto, com olhos, boca e um bigodinho.

-Mas todo esse pensamento, esse pensamento existe?

-De fato sim.

-Mas não há como personificarmos um pensamento, como personificamos o ex-canudo.

-Mas há como dar utilidade, funcionalidade a todo esse pensamento.

-Sobre o lixo não-lixo?

-Esse pensamento tem a função de revelar uma perversidade. Observe, personificamos esse ex-canudo, não para dar a ele objetividade a partir da subjetividade. Objetividade ele sempre teve, você mesmo o chamou de objeto. Personificamos-o para criar um paralelismo. Mesmo com persona, esse ex-canudo não tem função, logo não é. Mesmo sendo uma pessoa, você não se objetaria a destruí-lo. E é essa a perversidade. O Ser Moderno não consegue pensar em, portanto não concebe, portanto, mesmo sabendo da possibilidade de ser uma pessoa, não detem a destrução. Serve para absolutamente qualquer coisa. Serve para qualquer pessoa.

-Mas que pessoa será plenamente inútil?

-Economicamente, os mendigos; sentimentalmente, os indiferentes; emocionalmente, os esquecidos; culturalmente, os inatingíveis. Ao fim e ao cabo, todos são inúteis. Todos somos descartáveis, porque todos somos inconcebíveis, inimagináveis e imprestáveis.

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