segunda-feira, novembro 27, 2006

Conveniência, insistência e paciência logo no café da manhã

- Acordou cedo, Diego?
- É mãe... – responde o rapaz com a expressão mais mal humorada do mundo, aos poucos o despertar ia melhorar seu humor.
- Você quase nunca acorda a essa hora aos sábados... quer tomar café?
O almoço era em geral, a primeira refeição do dia de Diego aos sábados, mas ainda estava muito cedo para qualquer pessoa almoçar.
- Claro mãe. Só café já está ótimo...
- Eu fiz uma omelete... mas ficou muito gordurosa e não quis comer...
- Eu como, adoro omelete!
- Taí. – responde a jovem mãe de Diego, colocando a sua frente um prato com uma omelete branca e uma xícara de café preto sem açúcar.
Diego ergue a massa branca no ar com um garfo.
- Gordura? Que gordura? Trans? Não tá pingando nada daqui. Cadê a gema?
- Não tem, filho. É uma omelete de clara.
- E a mussarela? Bacon? Orégano?
- Nada disso. Só clara de ovo e salsinha.
- E você chama isso de gordura?
- Pelo menos é pra mim... você ainda é novo, pode comer essa coisas... eu não...
- Sei... do jeito que você malha...
A mãe de Diego, apesar dos quarenta e sete ainda encontrava-se em ótima forma. Freqüentava a academia diariamente, o salão semanalmente e a reposição hormonal (indicada por sua ginecologista mercenária) havia deixado a mulher com uma aparência dez anos mais jovem.
- Mesmo assim...fico horas na academia... não posso por tudo a perder por causa do estômago...
- Tá...- responde Diego sorvendo o que resta do seu café amargo.
- Mudando de assunto... uma amiga sua te ligou ontem... como você já havia saído...
Diego bufa sem paciência.
- Já sei... aposto que foi a Ana Pietra...
- Essa mesma! Ela já tá ligando pra cá há três dias direto, filho! Fico até sem graça porque parece que não te dou recado...
- Você falou muito com ela?
- Não. Quem devia falar era você.
- Ah mãe...não estou com saco para essa menina...
- Porque? Ela é feia?
- Claro que não. Se fosse feia seria minha amiga...
- Ela é bonita então...
- E gostosinha também...
- Então qual o problema?
- Bem... ela é um porre,mãe. Travada até a alma!
- Ahhh que isso, filho!
- É sério, mãe. Paciência tem limite. E eu sou um cara paciente. Esperei quatro meses com a Letícia. Aí ela liberou. Tudo bem.Tanto que estamos juntos até hoje...
- E essa?
- Tem tudo de errado! É chata, uma mala! Não tem outro assunto que não seja o American Idol, o preço da batata do Outback ou as mudanças no direito tributário! E pior de tudo: é uma delícia! Cheia de curvas, cabelão longo assim aqui – Diego aponta para as costas querendo explicar melhor para a mãe – como eu gosto, uma tentação. Um desperdício! Porque é bonita e gostosa, mas não libera nada... antes fosse feia... assim eu desencanava logo...
- E porque ela continua te ligando?
- Aí é que está! Nem eu sei... não a trato bem desde que ela se mostrou uma grande pentelha, nunca fomos chegados... e até onde sei, eu não devo dinheiro pra ela...acho que ela está perdendo tempo me ligando...
- Bom... pelo menos vê se fala com ela... retorna as ligações...
-Não sei, não sei... talvez mais tarde...
Diego pega uma lata no armário da cozinha e abre. Retira um pequeno embrulho em papel laminado e desembrulha.
- Mãe...
- O que é?
- Me dá um dos teus cigarros?
- Ah! Nem vem, Diego! Você sempre pega meus cigarros pra isso! Pega um dos seus!
- Ah mãe! Por favor! Não estou com nenhum aqui! E não quero descer agora só pra comprar...
- Merda... toma vai! Destrói meus cigarros! – reclama a bela moça.
- Relaxa, mãe... depois te dou um cigarro dos meus...
- Não fumo aquela porcaria, você sabe!
- Ok, mãe! Depois compro um maço cheinho dessa frescura de slims caríssimos que só você gosta!
Um instante de silêncio. Diego começa a misturar o tabaco com o haxixe e após o processo, coloca a mistura num fino papel de seda e o enrola.
- Tem isqueiro, aí? – pergunta para a mãe.
- Toma.
- Valeu! – e acende o cigarro preparado. Dá duas tragadas e passa para a mãe.
- Amanhã é aniversário do seu pai... – diz a mãe enquanto fuma o haxixe.
- Amanhã? Nossa... nem lembrava mais...
- Pois é...
- Curioso é você lembrar disso... sente saudades dele?
Diego não falava com o pai. O velho só contribuíra financeiramente na criação do rapaz. A mãe foi quem esteve sempre do seu lado. Só lembrava dos dois brigando quando era bem pequeno, mas não sabia o motivo, achava que o pai era um canalha e batia na mãe, ele que se fodesse, pensava Diego.
- Às vezes... e me sinto também mal por ter afastado vocês dois...
-Também... ele nunca aparecia pra me visitar...
- Eu que proibia...
- Ah... mas vocês brigavam tanto... de repente nem seria bom pra mim ter ele por perto...
- Eu também pisei na bola com ele...
- Mesmo assim... não justificava as brigas...eu era bem novo mas sei que era barra pesada pra você...
- Foi... mas eu também não era nenhuma santa...
- Por que?
- Bem...eu... trai seu pai com o meu cunhado...
Diego ia dar mais uma tragada no cigarro quando para estático.
- Quem?! O tio Alfredo?
- Não... com o seu tio Rogério...
- O tio Rogério? Marido da tia Fernanda? Sua irmã?
- Pois é...
O rapaz fica calado. Quatro minutos de silêncio para (tentar) processar toda a informação chocante que a mãe acabara de lhe passar. A jovem mãe também fica quieta, olhando meio despreocupada, meio aflita, como se esperasse um veredicto do filho.
- Bem... e isso tudo ocorreu quando eu era bem novo, né?
- Ihhh... bota tempo nisso... seu pai e eu mal nos conhecíamos, casamos logo... aquela neura toda...aí conheci o Rogério que estava saindo com a minha irmã e...
- Pois é... – divaga enquanto apaga o cigarro – foi tudo bem rápido né?
- Foi sim...
- Bem...- Diego levanta da mesa sem graça e meio alterado pelo efeito do haxixe. – Eu vou nessa... o tempo está ótimo... acho que vou pegar uma praia...
- Eu também tenho que ir...- apressasse logo a mãe – tenho hora com o personal lá na academia.
-Ok, mãe... nos vemos mais tarde então...
- Claro, querido...
- E acho que amanhã vou ligar por papai...
- Hã? Ah! Claro! Liga sim! Vai ser ótimo pra vocês dois conversarem!
- Então tá... é isso... – e vira-se para ir ao seu quarto. A mãe dirige-se para o hall de entrada do apartamento.
- Mãe! Só mais uma coisa...
A mãe vira-se para Diego.
- O que, filho?
- Se a Ana Pietra voltar a ligar, converse mais um pouco com ela, certo?


Daniel Pfaender

quinta-feira, novembro 16, 2006

Inatividade Telepática

Tudo em preto e branco. Então só pode ser um sonho. Na verdade está mais do que óbvio de que se trata de um sonho. A situação por si só já é surreal demais para não ser também onírica em toda a sua essência. Hidalgo está de frente para Lupe. A bela garota, deitada de forma inclinada, numa cadeira que lembra a de um consultório dentário. Hidalgo de pé. Admirando (nunca deixa de admirar) a grande paixão de sua vida (ou uma das dez mais segundo seus amigos, mas Hidalgo crê que Lupe é a única). A sensação do coito interrompido, do ato nunca consumado, do feito jamais realizado é o que sobra depois de tanta paixão, tesão e inspiração que a moça desperta no jovem rapaz. Isso mesmo, Hidalgo nunca foi realmente íntimo de Lupe. Ou melhor, ele foi. Para ele erammais íntimos do que nunca. Ela sequer deu qualquer tipo importância diferente da que dava a qualquer outro cara doido para levá-la para cama. A mínima. Hidalgo não apenas queria levá-la para cama. Que se fodesse, pensaria Lupe. Mas Hidalgo, apesar de inseguro, é contraditoriamente presunçoso em relação a menina e sempre (100% dos casos) em que se encontram é Lupe que sai pelo céu e ele pelo porão. Hidalgo acredita que Lupe ainda vai ser sua. Ou pelo menos que tenha de ser. E se não for, que ele não saia mais por baixo porque isso incomoda Hidalgo demais. Bem, agora ele está na situação ideal. Lupe deitada a sua total mercê. Amarrada a cadeira. E não importa que seja um sonho porque Hidalgo sabe que está num sonho (ele sabe dessas coisas) e até se conforta pois está no seu sonho. Na mão direita do rapaz uma seringa. Sódio-pentotal, um barbitúrico de ação rápida que após injetado na corrente sanguínea leva o paciente a um estado de relaxamento onde o mesmo não censura nenhuma situação nem percebe que possa estar sujeito a um interrogatório. A telepatia do mundo moderno dentro de uma ampola. Sem perguntar Hidalgo aplica o soro da verdade em Lupe. Depois de pouco tempo ao perceber o efeito fala:
- Então... acho que já posso começar...
- Eu te falaria tudo... não precisava me aplicar isso... você sabe que eu detesto injeção... – responde Lupe, magoada.
- Desculpe... mas só assim pra você confessar...
- Confessar? O que?
- Tudo, Lupe. Que nossa relação é recíproca, que você pensa em mim na mesma proporção que eu penso em você. Que nascemos pra ficar e devemos terminar juntos. Que temos mais do que uma atração sexual ou afetiva, uma atração lógica. Seria totalmente incoerente se não ficássemos juntos. Estúpido até. Eu quero que você confesse isso, Lupe.
- Hidalgo...
- O que é?
- Do que você mais gosta em mim?
- Hã?
- É, qual seria a minha melhor característica na sua opinião?
- Bem eu...
- Vamos lá... até eu sei essa...
- Bom... eu acho que...
- Pára de enrolar! Quer saber do que você mais gosta em mim?
- Anda! Fala logo! - insistia já nervoso.
- Você adora o fato de eu ser perfeita para você.
- Como assim?
- É o que você entendeu, mesmo. Minha maior virtude é simplesmente te agradar em todos os aspectos.
Hidalgo ficou perplexo, ainda tentou falar algo para Lupe quando a mesma prosseguiu:
- O que mais te incomoda é me querer para você e não me ter. Porque você, Hidalgo, mimado do jeito que é, acha que eu tenho de ser sua por direito.
- Mas...
- Acha que ninguém é melhor pra mim do que você, não acha?
As coisas não estavam saindo conforme o esperado. O rapaz começou a se irritar, afinal, aquele sonho era dele. Que o curso das coisas se desse conforme a vontade do jovem mimado.
- E sabe do que eu mais gosto em você, Hidalgo? Da sua atenção.
- Da minha atenção?
- Exato. Mas não da atenção que um casal dá um ao outro. Não. Outro tipo de atenção. Adoro o fato de você perder seu tempo comigo. Adoro que você dê mais valor a mim do que a si próprio e mais valor até do que eu mesma me dou! É ótimo te ver aos prantos, gritos e lamúrias só pela minha causa. Gosto de saber que um mínimo ato meu pode desencadear reações terríveis em você. Que seja de uma bebedeira na noite em que nos esbarramos até uma semana que você fica disperso na faculdade só pensando em mim. Acha que eu não te vejo com o canto dos olhos enquanto beijo outro cara e vejo o quão nervoso e incomodado você fica? Acha que não percebo o quanto você fala com as minhas amigas só para parecer desdenhoso comigo quando no fundo está é morto de vontade de saber da minha vida, onde vou estar, com quem vou estar, com quem vou dormir... eu sei. Pois saiba, Hidalgo, que é a sua atenção que me alimenta. A sua atenção, importância e obsessão que tem por mim é que cria todo o murmurinho, que me faz ser falada. Que me faz ser abordada, que me faz ser desejada. É a sua atenção que faz com que eu receba a atenção dos outros. E eu amo isso. A sua atitude comigo é a base para que eu seja tudo o que sou. Curioso, né? No fundo você pensava tanto em mim, quando na verdade estava pensando é demais em si mesmo...
Hidalgo não conseguia mais encarar Lupe a partir daquele momento.
- Confuso? Não fique. Afinal, tudo se resume na simplicidade ou complexidade de você ter me criado. Está mais do que óbvio: eu só sou assim, porque você me fez assim. Difícil de entender? Ora... você está num sonho... quer situação mais significativa do que essa? Só o fato de aliado a isso você ter me dado esse soro da verdade... que por sinal eu adorei,viu? Tava brincando contigo... eu adoro a pontadinha de uma injeção...
Lupe abriu um largo e lindo sorriso para Hidalgo e sua imagem ficou turva até desaparecer por completo.
Hidalgo acorda no meio da madrugada. Uma pós-ereção estava visível por cima de seu short. Alguns lençóis estavam por todos os lados, alguns até enrolados no corpo do rapaz. Suas bochechas estavam inchadas e seus olhos cheios de lágrimas. Procurou respirar fundo.
Após alguns minutos já havia se recomposto. Resolveu avaliar a situação de forma mais racional. No final, a única conclusão que teve foi a de que não havia perguntado o suficiente para Lupe. Havia coisas que ainda precisava saber. Coisas que só ele ainda não sabia ou nunca faria questão de saber. Por mais que lhe fosse explicitado. Em sonho ou não.
Mas ele dormiria a próxima noite na esperança de sonhar novamente. Da próxima Lupe não sairia por cima.



Daniel Pfaender

sexta-feira, novembro 03, 2006

Constatação

Brigite Bardot virou uma monstra



João Cândido