Conveniência, insistência e paciência logo no café da manhã
- Acordou cedo, Diego?
- É mãe... – responde o rapaz com a expressão mais mal humorada do mundo, aos poucos o despertar ia melhorar seu humor.
- Você quase nunca acorda a essa hora aos sábados... quer tomar café?
O almoço era em geral, a primeira refeição do dia de Diego aos sábados, mas ainda estava muito cedo para qualquer pessoa almoçar.
- Claro mãe. Só café já está ótimo...
- Eu fiz uma omelete... mas ficou muito gordurosa e não quis comer...
- Eu como, adoro omelete!
- Taí. – responde a jovem mãe de Diego, colocando a sua frente um prato com uma omelete branca e uma xícara de café preto sem açúcar.
Diego ergue a massa branca no ar com um garfo.
- Gordura? Que gordura? Trans? Não tá pingando nada daqui. Cadê a gema?
- Não tem, filho. É uma omelete de clara.
- E a mussarela? Bacon? Orégano?
- Nada disso. Só clara de ovo e salsinha.
- E você chama isso de gordura?
- Pelo menos é pra mim... você ainda é novo, pode comer essa coisas... eu não...
- Sei... do jeito que você malha...
A mãe de Diego, apesar dos quarenta e sete ainda encontrava-se em ótima forma. Freqüentava a academia diariamente, o salão semanalmente e a reposição hormonal (indicada por sua ginecologista mercenária) havia deixado a mulher com uma aparência dez anos mais jovem.
- Mesmo assim...fico horas na academia... não posso por tudo a perder por causa do estômago...
- Tá...- responde Diego sorvendo o que resta do seu café amargo.
- Mudando de assunto... uma amiga sua te ligou ontem... como você já havia saído...
Diego bufa sem paciência.
- Já sei... aposto que foi a Ana Pietra...
- Essa mesma! Ela já tá ligando pra cá há três dias direto, filho! Fico até sem graça porque parece que não te dou recado...
- Você falou muito com ela?
- Não. Quem devia falar era você.
- Ah mãe...não estou com saco para essa menina...
- Porque? Ela é feia?
- Claro que não. Se fosse feia seria minha amiga...
- Ela é bonita então...
- E gostosinha também...
- Então qual o problema?
- Bem... ela é um porre,mãe. Travada até a alma!
- Ahhh que isso, filho!
- É sério, mãe. Paciência tem limite. E eu sou um cara paciente. Esperei quatro meses com a Letícia. Aí ela liberou. Tudo bem.Tanto que estamos juntos até hoje...
- E essa?
- Tem tudo de errado! É chata, uma mala! Não tem outro assunto que não seja o American Idol, o preço da batata do Outback ou as mudanças no direito tributário! E pior de tudo: é uma delícia! Cheia de curvas, cabelão longo assim aqui – Diego aponta para as costas querendo explicar melhor para a mãe – como eu gosto, uma tentação. Um desperdício! Porque é bonita e gostosa, mas não libera nada... antes fosse feia... assim eu desencanava logo...
- E porque ela continua te ligando?
- Aí é que está! Nem eu sei... não a trato bem desde que ela se mostrou uma grande pentelha, nunca fomos chegados... e até onde sei, eu não devo dinheiro pra ela...acho que ela está perdendo tempo me ligando...
- Bom... pelo menos vê se fala com ela... retorna as ligações...
-Não sei, não sei... talvez mais tarde...
Diego pega uma lata no armário da cozinha e abre. Retira um pequeno embrulho em papel laminado e desembrulha.
- Mãe...
- O que é?
- Me dá um dos teus cigarros?
- Ah! Nem vem, Diego! Você sempre pega meus cigarros pra isso! Pega um dos seus!
- Ah mãe! Por favor! Não estou com nenhum aqui! E não quero descer agora só pra comprar...
- Merda... toma vai! Destrói meus cigarros! – reclama a bela moça.
- Relaxa, mãe... depois te dou um cigarro dos meus...
- Não fumo aquela porcaria, você sabe!
- Ok, mãe! Depois compro um maço cheinho dessa frescura de slims caríssimos que só você gosta!
Um instante de silêncio. Diego começa a misturar o tabaco com o haxixe e após o processo, coloca a mistura num fino papel de seda e o enrola.
- Tem isqueiro, aí? – pergunta para a mãe.
- Toma.
- Valeu! – e acende o cigarro preparado. Dá duas tragadas e passa para a mãe.
- Amanhã é aniversário do seu pai... – diz a mãe enquanto fuma o haxixe.
- Amanhã? Nossa... nem lembrava mais...
- Pois é...
- Curioso é você lembrar disso... sente saudades dele?
Diego não falava com o pai. O velho só contribuíra financeiramente na criação do rapaz. A mãe foi quem esteve sempre do seu lado. Só lembrava dos dois brigando quando era bem pequeno, mas não sabia o motivo, achava que o pai era um canalha e batia na mãe, ele que se fodesse, pensava Diego.
- Às vezes... e me sinto também mal por ter afastado vocês dois...
-Também... ele nunca aparecia pra me visitar...
- Eu que proibia...
- Ah... mas vocês brigavam tanto... de repente nem seria bom pra mim ter ele por perto...
- Eu também pisei na bola com ele...
- Mesmo assim... não justificava as brigas...eu era bem novo mas sei que era barra pesada pra você...
- Foi... mas eu também não era nenhuma santa...
- Por que?
- Bem...eu... trai seu pai com o meu cunhado...
Diego ia dar mais uma tragada no cigarro quando para estático.
- Quem?! O tio Alfredo?
- Não... com o seu tio Rogério...
- O tio Rogério? Marido da tia Fernanda? Sua irmã?
- Pois é...
O rapaz fica calado. Quatro minutos de silêncio para (tentar) processar toda a informação chocante que a mãe acabara de lhe passar. A jovem mãe também fica quieta, olhando meio despreocupada, meio aflita, como se esperasse um veredicto do filho.
- Bem... e isso tudo ocorreu quando eu era bem novo, né?
- Ihhh... bota tempo nisso... seu pai e eu mal nos conhecíamos, casamos logo... aquela neura toda...aí conheci o Rogério que estava saindo com a minha irmã e...
- Pois é... – divaga enquanto apaga o cigarro – foi tudo bem rápido né?
- Foi sim...
- Bem...- Diego levanta da mesa sem graça e meio alterado pelo efeito do haxixe. – Eu vou nessa... o tempo está ótimo... acho que vou pegar uma praia...
- Eu também tenho que ir...- apressasse logo a mãe – tenho hora com o personal lá na academia.
-Ok, mãe... nos vemos mais tarde então...
- Claro, querido...
- E acho que amanhã vou ligar por papai...
- Hã? Ah! Claro! Liga sim! Vai ser ótimo pra vocês dois conversarem!
- Então tá... é isso... – e vira-se para ir ao seu quarto. A mãe dirige-se para o hall de entrada do apartamento.
- Mãe! Só mais uma coisa...
A mãe vira-se para Diego.
- O que, filho?
- Se a Ana Pietra voltar a ligar, converse mais um pouco com ela, certo?
Daniel Pfaender
- É mãe... – responde o rapaz com a expressão mais mal humorada do mundo, aos poucos o despertar ia melhorar seu humor.
- Você quase nunca acorda a essa hora aos sábados... quer tomar café?
O almoço era em geral, a primeira refeição do dia de Diego aos sábados, mas ainda estava muito cedo para qualquer pessoa almoçar.
- Claro mãe. Só café já está ótimo...
- Eu fiz uma omelete... mas ficou muito gordurosa e não quis comer...
- Eu como, adoro omelete!
- Taí. – responde a jovem mãe de Diego, colocando a sua frente um prato com uma omelete branca e uma xícara de café preto sem açúcar.
Diego ergue a massa branca no ar com um garfo.
- Gordura? Que gordura? Trans? Não tá pingando nada daqui. Cadê a gema?
- Não tem, filho. É uma omelete de clara.
- E a mussarela? Bacon? Orégano?
- Nada disso. Só clara de ovo e salsinha.
- E você chama isso de gordura?
- Pelo menos é pra mim... você ainda é novo, pode comer essa coisas... eu não...
- Sei... do jeito que você malha...
A mãe de Diego, apesar dos quarenta e sete ainda encontrava-se em ótima forma. Freqüentava a academia diariamente, o salão semanalmente e a reposição hormonal (indicada por sua ginecologista mercenária) havia deixado a mulher com uma aparência dez anos mais jovem.
- Mesmo assim...fico horas na academia... não posso por tudo a perder por causa do estômago...
- Tá...- responde Diego sorvendo o que resta do seu café amargo.
- Mudando de assunto... uma amiga sua te ligou ontem... como você já havia saído...
Diego bufa sem paciência.
- Já sei... aposto que foi a Ana Pietra...
- Essa mesma! Ela já tá ligando pra cá há três dias direto, filho! Fico até sem graça porque parece que não te dou recado...
- Você falou muito com ela?
- Não. Quem devia falar era você.
- Ah mãe...não estou com saco para essa menina...
- Porque? Ela é feia?
- Claro que não. Se fosse feia seria minha amiga...
- Ela é bonita então...
- E gostosinha também...
- Então qual o problema?
- Bem... ela é um porre,mãe. Travada até a alma!
- Ahhh que isso, filho!
- É sério, mãe. Paciência tem limite. E eu sou um cara paciente. Esperei quatro meses com a Letícia. Aí ela liberou. Tudo bem.Tanto que estamos juntos até hoje...
- E essa?
- Tem tudo de errado! É chata, uma mala! Não tem outro assunto que não seja o American Idol, o preço da batata do Outback ou as mudanças no direito tributário! E pior de tudo: é uma delícia! Cheia de curvas, cabelão longo assim aqui – Diego aponta para as costas querendo explicar melhor para a mãe – como eu gosto, uma tentação. Um desperdício! Porque é bonita e gostosa, mas não libera nada... antes fosse feia... assim eu desencanava logo...
- E porque ela continua te ligando?
- Aí é que está! Nem eu sei... não a trato bem desde que ela se mostrou uma grande pentelha, nunca fomos chegados... e até onde sei, eu não devo dinheiro pra ela...acho que ela está perdendo tempo me ligando...
- Bom... pelo menos vê se fala com ela... retorna as ligações...
-Não sei, não sei... talvez mais tarde...
Diego pega uma lata no armário da cozinha e abre. Retira um pequeno embrulho em papel laminado e desembrulha.
- Mãe...
- O que é?
- Me dá um dos teus cigarros?
- Ah! Nem vem, Diego! Você sempre pega meus cigarros pra isso! Pega um dos seus!
- Ah mãe! Por favor! Não estou com nenhum aqui! E não quero descer agora só pra comprar...
- Merda... toma vai! Destrói meus cigarros! – reclama a bela moça.
- Relaxa, mãe... depois te dou um cigarro dos meus...
- Não fumo aquela porcaria, você sabe!
- Ok, mãe! Depois compro um maço cheinho dessa frescura de slims caríssimos que só você gosta!
Um instante de silêncio. Diego começa a misturar o tabaco com o haxixe e após o processo, coloca a mistura num fino papel de seda e o enrola.
- Tem isqueiro, aí? – pergunta para a mãe.
- Toma.
- Valeu! – e acende o cigarro preparado. Dá duas tragadas e passa para a mãe.
- Amanhã é aniversário do seu pai... – diz a mãe enquanto fuma o haxixe.
- Amanhã? Nossa... nem lembrava mais...
- Pois é...
- Curioso é você lembrar disso... sente saudades dele?
Diego não falava com o pai. O velho só contribuíra financeiramente na criação do rapaz. A mãe foi quem esteve sempre do seu lado. Só lembrava dos dois brigando quando era bem pequeno, mas não sabia o motivo, achava que o pai era um canalha e batia na mãe, ele que se fodesse, pensava Diego.
- Às vezes... e me sinto também mal por ter afastado vocês dois...
-Também... ele nunca aparecia pra me visitar...
- Eu que proibia...
- Ah... mas vocês brigavam tanto... de repente nem seria bom pra mim ter ele por perto...
- Eu também pisei na bola com ele...
- Mesmo assim... não justificava as brigas...eu era bem novo mas sei que era barra pesada pra você...
- Foi... mas eu também não era nenhuma santa...
- Por que?
- Bem...eu... trai seu pai com o meu cunhado...
Diego ia dar mais uma tragada no cigarro quando para estático.
- Quem?! O tio Alfredo?
- Não... com o seu tio Rogério...
- O tio Rogério? Marido da tia Fernanda? Sua irmã?
- Pois é...
O rapaz fica calado. Quatro minutos de silêncio para (tentar) processar toda a informação chocante que a mãe acabara de lhe passar. A jovem mãe também fica quieta, olhando meio despreocupada, meio aflita, como se esperasse um veredicto do filho.
- Bem... e isso tudo ocorreu quando eu era bem novo, né?
- Ihhh... bota tempo nisso... seu pai e eu mal nos conhecíamos, casamos logo... aquela neura toda...aí conheci o Rogério que estava saindo com a minha irmã e...
- Pois é... – divaga enquanto apaga o cigarro – foi tudo bem rápido né?
- Foi sim...
- Bem...- Diego levanta da mesa sem graça e meio alterado pelo efeito do haxixe. – Eu vou nessa... o tempo está ótimo... acho que vou pegar uma praia...
- Eu também tenho que ir...- apressasse logo a mãe – tenho hora com o personal lá na academia.
-Ok, mãe... nos vemos mais tarde então...
- Claro, querido...
- E acho que amanhã vou ligar por papai...
- Hã? Ah! Claro! Liga sim! Vai ser ótimo pra vocês dois conversarem!
- Então tá... é isso... – e vira-se para ir ao seu quarto. A mãe dirige-se para o hall de entrada do apartamento.
- Mãe! Só mais uma coisa...
A mãe vira-se para Diego.
- O que, filho?
- Se a Ana Pietra voltar a ligar, converse mais um pouco com ela, certo?
Daniel Pfaender

