sábado, junho 30, 2007

Pássaros



por Caio Almendra


Para Thiago, não havia nada mais perfeito que um bom Hitchcock. E, não havia nada menos Hitchcock que "Pássaros". Tudo estava errado no filme, a mulher ia para o interior procurar um namorado, ao invés de ficar na cidade grande e cheia de pretendentes; o povo da pequena Bodega Bay não tinha jeito de vítima de Hitchcock, nem eram os vilões da história; aliás, os vilões nem eram humanos, fugindo do clássico homem lobo do homem, enfim; a cidade se chamava BODEGA. Thiago tentava pensar que no original, em inglês, o vilarejo não tinha esse nome mas, quando o filme indicava que a Bodega Bay estava em perigo, por conta de ataques de pássaros, ele não conseguia se conter e caía na gargalhada. Era inevitável. Ôh, meu deus!, a BODEGA está em perigo, quem nos venderá pinicos? O problema com a bodega só era comparável às cenas de ataques dos pássaros. Com tantos leões famintos em savanas distantes, as pessoas ficavam com medo de um bando de gaivotas? Não eram nem avestruzes ou emas! Socorro, um pintassilgo está me atacando, não, na verdade é um curió, o que farei da minha vida?

O problema se agravava quando a Ritinha entrava no meio da história. Eles já namoravam há anos, se conheceram num festival de cinema clássico, numa sessão de "Strangers on a Train". Ele assistiu "Pássaros" pela primeira vez com ela. Foi um dos dias mais engraçados da vida dele e uma das brigas mais intensas do namoro. Ao final da fita, Thiago, às gargalhadas, começou a espinafrar o filme. A defenestração moral da obra durou pelo menos 15 minutos. Por alguma razão oculta, ela ouviu inabalável. Não riu, não comentou, não fez um ui. Quando o rapaz, sem fôlego, parou de tecer galhofas, ela teve uma postura insólita. Parecia que ela estava possuída, que tinha contado os segundos das reclamações dele, que não o suportava ele, que não precisava respirar para conseguir gritar. Parecia que a angústia de todos os Hitchcocks acumulados tivessem escapado num instante, como um balão de festas furado. A palavra "imaturo" bateu fundo em seu peito. E machucou. Por ela, Thiago aprendeu a mais dura das lições, por mais que sua opinião fosse muito preciosa para si, as vezes, ela não valia um tostão furado para os demais.

Anos depois, os dois já casados, esperando o segundo filho, faziam compras para a seia de natal.
Nessa época, Ritinha já havia esquecido da briga, a bem da verdade, ela esqueceu no dia seguinte. As coisas demorariam mais para Thiago. Assim que chegou no supermecado, Thiago correu para o setor de frios. Ritinha, mais pragmática, abriu a lista de compras. Para a moça, Thiago chegava a ser pouco educado com seus excessos de gula. Após vinte minutos, Ritinha se encontra com o marido, que ainda não decidira entre copa e parma.

- Vamos, precisamos escolher o peru da seia.

Foi quando Thiago entendeu. Uma marca de produtos congelados havia empalhado um peru e estacionado no início do setor de frios. A idéia era "fazer propaganda"... Ritinha passou inadvertidamente, mas quando foi pegar o peru congelado escolhido, tomou um susto. Num salto para trás, ela segurou na mão do marido e chorando pediu para sair dali. Thiago não entendeu nada, pediu para ela se acalmar. Mas, cada palavra que falava a irritava mais. Ritinha procurou uma saída alternativa, mas o setor de frios era um beco sem saída. Ela achou uma porta de serviço que, entretanto, só levava ao frigorífico do supermercado. O pânico lhe subia a garganta. Foi quando ele tomou uma atitude cinematográfica(apesar de não tão Hitchcock), pegou a esposa no colo e a levou para o outro lado. A menina chorava. "Orni-orni-tototo-orni-fobia". Bem, ele já imaginava. Mas, ela podia ter avisado antes de resolver assistir "Pássaros".

terça-feira, junho 26, 2007

Imagem e Máscaras

Victor já estava pronto, aprumando o visual na frente do espelho, quando sentiu a falta de alguma coisa. A carteira estava no bolso, assim como as chaves do carro. Não tinha o endereço da Flavinha, mas sabia que era em algum lugar no Flamengo e levava o celular com o número da menina. Não estava com tanto dinheiro, mas tinha um cartão de crédito. "Não existe restaurante japonês que não aceite". Não era isso.

Cueca, ok. Camisinhas(afinal, nunca se sabe), ok. Apesar de pensar e repensar todos os pequenos objetos que poderiam faltar não conseguia se lembrar. Talvez não faltasse alguma coisa, talvez tivesse algo sobrando. Bem, as fotos da ex não estavam mais na carteira, ele já tinha trocado os óculos pela lente de contato. O que seria?

Que angústia! De onde vinha aquilo? Por que estava tão nervoso? Victor voltou ao espelho. E , olhando para seus olhos aflitos percebeu. Ele ainda estava com o Victor. Não, o Victor que a Flavinha conhecia, mas o Victor que passou o dia estudando. O Victor estudioso, tímido e ansioso. O Victor que conferia se estava de cueca, porque é meio desleixado. Esse Victor estava sobrando, enquanto o Victor auto-confiante faltava. Por isso não se lembrava. Era uma troca, uma coisa tão simples afinal... Victor trocou de persona, conferiu se deixou o fogão aceso e abriu a porta para a rua de cabeça erguida.

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Mordaz, a dádiva

Olá raros leitores,

é com muito orgulho que trago ao nosso bom Senso mais dois participantes, que na verdade vão contribuir juntos atravéz da: tirinha Mordaz, com o texto de Adenor e desenhos de Grazi.
Isso é uma dádiva, que vem não só pra me salvar da eterna cobranças por alguma imagem que dê ao blog a carinha de "Uau, tem até desenhos próprios (e agora tirinhas)! É quase um jornal!", mas também vai permitir que não tenhamos que ficar enchendo com textos do Danilo e do Caio. (risos)
Bem, é isso. Começa aqui a guerra da imagem e do texto, por tanto vamos parar com tantas letrinhas, até por que sabemos que "uma imagem vale mais que mil palavras".

ps: Ei! Eu sou desenhista! Acharam mesmo que eu não ia usar uma frasezinha pronta?!

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sexta-feira, junho 22, 2007

Auto-controle vs Pinóia




Depois do quinto chope, existe um átimo, que... Pinóia!, um micronésio de átimo, a partir do qual todos os eventos supervenientes extravasam qualquer previsibilidade, possibilidade, desejabilidade. Acima do que podemos, mas abaixo do que queremos, as mais diversas sorte de acontecimentos nos envolvem de maneira tal, e com inacreditável força, que cedemos, tal qual a mais convicta das marionetes. Como quem se esforça para acreditar em destino... Não há maldades, não há generosidades. Pinóia!, não temos mais vontades. Admitimos nunca termos vontades. Troca-se de roupa, tino, risada. Expulse-se a própria personalidade, mera camisa de vênus numa noite pudica. Por falar nela, por que vesti-la se não possuirei nenhuma Vênus? Todos os deuses já estam mortos nesse momento. Uma epidemia de pietas et charitas foi a causa mortis. A caridade está morta em todos nós.

Dura só um instante. Dura um instante menos um micronésio de átimo. Dura somente um estalo. Tal qual um estalo, contudo, deixa marcas profundas, gera dores perenes. Bêbados, num casino, os casamentos improváveis. A nudez e a castidade. Uma cegueira e uma paixão. Uma surdez e uma amizade. Uma mudez e muita arrogância. A flagelação, o amor e o seppuku, um ménage à trois. Pinóia, quem disse que eu me lembro dessas coisas?



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segunda-feira, junho 18, 2007

Limites

Ilustração de André Pessoa

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quinta-feira, junho 14, 2007

Ternura & Perfeição - Curtas I

Para quebrar o clima fofo que o senso ganhou com o dia dos namorados, Ternura sugeriu que eu publicasse um textinho dele:

"Estou um pouco isolado do mundo. Quando alguém olha a Cléo Pires, fica pensando em todo tipo de devassidão possível. Eu tenho viagens aristotélicas... Em seus discursos sobre a estética, Aristóteles dizia que os orifícios femininos são proporcionais. Argumentava, ainda, que a xavaca era mais ou menos a metade do quadrado da boca. No caso da Cléo Pires, isso dá aproximadamente o Grand Canion... O sujeito chega no motel, feliz da vida, só pensando no momento de ligar para os amigos e contar as façanhas com a atriz global, quando... PIMBA, morre afogado!

Sobre o beleza feminina, recentemente, virou moda desodorante que retira as "marcas escuras nas axilas". Deve vender como água, porque, de repente, todas as marcas diferentes de desodorante lançaram versões "tira marcas escuras". As mulheres se esquecem que os homens adoram todas as partes do corpo feminino que têm as tais marcas escuras... Ou vocês realmente acham que eu deveria inventar um papel higiênico que retira manchas escuras???"

Por Ternura & Perfeição

quarta-feira, junho 13, 2007

Pô, não sei, sei lá

(ou Os Trogloditas Também Amam)

Pedrão se apaixonou. Não era muito comum entre seus amigos, não deu para evitar. Belisa ia à academia todo dia, puxava papo, pagava suco, sorria. Sim, ela sorria para ele. Fazia bastante tempo que ninguém sorria para ele. Um simples sorriso, as vezes, é bastante gentileza. Depois de alguns meses, a insistência de Belisa ganhou e ele se apaixonou. Passaram a ir e voltar para a academia juntos, todos os dias. Formavam um casal bonito, algo como um Shrek e Fiona do mundo real. Pedrão lutava vale-tudo, tinha um metro e setenta e cento e trinta quilos. Tinha perdido as pontas da orelha no esfrega-esfrega do tatame. A menina não era pequena, mas tinha um andar delicado de ex-bailarina, atual sapateadora.

Mas, não se escreve uma história de amor sem contar como e quando as coisas desandaram. Foi num dia chuvoso de inverno e Belisa estava gripada. Fazia quase um mês que eles se assumiram, passaram a andar de mãos dadas e dar beijinhos nos intervalos da malhação. Foi quando o instrutor de Pedrão, começou a puxar conversa durante um treino.

- Essa sua mina, hein? Sei não...
- Que que foi?
- Bem, eu não queria dizer nada, mas eu acho que ela...
- Ela o que porra?
- Sabe, ela... ela... Pô, mermão, o Joca encontrou ela na Centarius, saca o puteiro?
- Isso é história dos invejosos para me envenenar. Duvido, porra! E ai de quem voltar com essa parada.

Só que ele não duvidava. Para falar a verdade, agora que ele tinha ouvido os bochichos, tudo fazia sentido. Ela fazia balé à noite, dizia que voltava cansada, mas sempre que possível se encontrava com ele depois das quatro da manhã. Ela vivia cheia roupa novas, comprava presentes para ele, pagava jantares caros. Era óbvio. Mas, o Pedrão não queria saber. Ele gostava dela, não tinha porque duvidar. Se fosse verdade, ela contava para ele.

E eles continuaram felizes. Até o dia do aniversário dele. Ela não pode ir. Disse que teria uma apresentação na semana seguinte, que precisava ensaiar e que estaria muito cansada. Ele ficou furioso e ela magoada. Por isso, fez um esforço e chegou no aniversário no meio da madrugada. Ele ainda estava puto e agiu de forma bastante fria. Ela se magoou ainda mais. Então a menina, que já estava cansada de sofrer tanto, resolveu se abrir com Pedrão.

- Drinho, sabe o que é?
- Sei, mas não me fala...
- Para de calundum Drinho, é coisa séria.
- Eu sei, mas não quero nem ouvir.
- Então vai ficar assim? Você vai terminar comigo, sem nem me dar uma chance de me explicar?
- Eu não vou terminar com você... Eu estou apaixonado por você.
- Eu também... Por isso, eu tenho que te contar.
- Não faz isso.
- Eu preciso. Eu trabalho na noite. Eu já fui prostituta, mas desde que a gente começou, eu só trabalho como stripper e...
- EU PEDI PARA NÃO CONTAR, CARALHO!

Então, foi-se embora. Passou duas semanas sem ligar. Não respondia recados, não dava notícia. Nem ia mais à academia. Duas semanas, lendo, debruçado em livros, com uma caneta na mão. Após esse período, chegava o aniversário de Belisa. A menina estava deprimida, mas a festa já estava marcada e paga. Ela ficou num canto, com um sorriso amarelo, cumprimentando quem passava. De repente, o som parou. Pedrão estava em cima de uma mesa, com um microfone na mão. Ele tinha convencido o DJ e os seguranças. Era amor, ele dizia, era amor, eles precisavam ajudar. Deu certo, mas só após uma pequena propina.

- Eu fiz um poema para você, Belisa - Ele começou:
Pô, sei lá, não sei
Você sabe que eu te amo
Mas, pô, sei lá, não sei
Eu pedi para você não contar
Acho que agora não dá
Pô, sei lá, não sei
Eu bem que tentei evitar
Saber só me faz chorar
Pô, sei lá, não sei
Não consigo ouvir essas coisas
Os outros vão encher minhas orelhas
Que são feias mas eu gosto delas
Pô, sei lá, não sei
Acho que não dá mais não
Você partiu meu coração.

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terça-feira, junho 12, 2007

A Diferença entre o Papai Noel e o Judas

(ou, Presentes e a Insensibilidade Masculina)



- Puta que pariu, cara, fiz uma merda ontem...
- Que foi?
- Errei no presente da Matilda.
- Mas, porra, você não está com ela há apenas 2 semanas?
- Sei lá, cara, gosto dela, quis fazer ela se sentir especial. Mas, pois é... foi isso! Como eu ia saber que ela era alérgica a margaridas?
- Putz. Que merda! Mas, relaxa, essas coisas acontecem. Logo, logo, ela esquece. Lembra da Ci? Ficamos junto uns três anos. Mas, uma vez, ela uma vez me deu um sapato número 40.
- Ah... mas você era novinho, não? Tipo uns quinze, devia caber, não?
- Cara, com quinze eu já tinha um metro e noventa e calçava uns 43... Mas, a Ci, era de Cibele, minha ex do ano passado, não de Simone...
- Ah...
- Se bem que a Simone, uma vez, me aprontou uma. Se acredita que ela me deu uma camisa dela?
- Como assim?
- Bem, hoje, ela é estilista, se lembra, né? Então, na época ela se amarrava em tentar fazer camisas. Uma vez, ela se esqueceu do meu aniversário e virou a noite pintando uma camisa. Aí, ela me entregou no dia seguinte. Eu logo percebi, a camisa tinha um furinho debaixo do suvaco.
- Putz. Mas o desenho ficou bonito?
- Ela disse que era nós dois abraçados, mas parecia uma mancha de ketchup.
- Cara, me lembrou uma história... Se lembra da Moa? Moline, do Princesa? Então, depois de namorar comigo ela namorou o Cadu, sabe?
- Sei, um que é amigão seu, né?
- É... então, todo aniversário meu, aniversário de namoro, dia dos namorados, ela me dava um poema de amor. 'Cê sabe, né? Eu sou meio brega com essas coisas. Ficava emocionadaço.
- Tá e daí?
- Um tempo depois de a gente terminar, ela lançou um livro de poesias. Eu continuei amigo dela, então fui lá. Li o livro e fiquei meio puto... Ela publicou todos os nossos poemas.
- Porra, e daí?
- Me senti vendido, sei lá. Para mim, os poemas eram meus, sabe? Não foi presente? Fiquei me sentindo como um otário, acreditando num amor que não existia. Um amor que ela resolveu vender em livros.
- Sei...
- Mas, o pior não é isso. O pior é que eu conversei com o Cadu e ele me disse que metade dos poemas ela escreveu para ele. Só que eu já conhecia quase todos os poemas do livro. Pior, os que eu não conhecia não eram poemas românticos...
- Tá, e daí?
- Mermão, ela RECICLAVA os poemas! Acredita? Os poemas não deveriam nem ser escritos para mim, mas para aquele bucha do primeiro namorado dela.
- Sei, o jiu-jiteiro... Que merda, hein?
- Foda.
- Mas, o pior foi Luiza...
- A mãe do seu gurí, o Carlinhos? Vocês não foram casados por cinco anos? Ela mandava mau mesmo assim?
- Ôh!
- Quê que ela aprontou?
- Na época que a gente namorava, eu estava treinando para um campeonato de kung-fu, lembra? Eu treinava o dia inteiro. Ela sentia um pouco de ciúmes. Só que no nosso aniversário de um ano, ela me deu um nunchaku...
- Porra, nada romântico. Mas maneiro, não?
- Era um nunchaku de borracha.
- Tipo um para treinar?
- Não... ela comprou numa sex shop.
- Tá, qual o problema?
- Você não se lembra porque ela engravidou do Carlinhos? Ela era alérgica a borracha, a gente não podia usar camisinha...
- Hum...
- O nunchaku não era para meter nela. Ela comprou o consolo foi para mim, cara! Para mim!

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quarta-feira, junho 06, 2007

Super Normal




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NEE - Atualização

Bem, quem leu "O Valor de um Boquete" sabe quem é o NEE e a Tania Derveaux. Eles estão produzindo um filme chamado "IP - Intelectual Porn". Favor entrar na seleção de atores e, principalmente, atrizes(eles parecem estar com dificuldades de contratar mulheres), clicando no link abaixo: http://www.nee-antwerpen.be/casting/

Obrigado por ajudar o senso-comum a ter assuntos idiotas para comentar.

terça-feira, junho 05, 2007

A bicha, o cadeião de Aparecidinha e o bolinho de chuva.

para Fábio e Rafael, para Pedro e João, que me fariam ainda mais feliz caso se chamassem Vadinho e Teodoro Madureira

Escrevi há pouco tempo um texto explicando por que as mulheres preferem a amizade dos gays. Acabei pesquisando em minhas memórias todos os motivos que me levam a preferir esse gênero, e são muito. Perdi o texto, tentei reescrever, mas um e-mail que recebi hoje me fez atacar a questão por outro flanco. Como não tenho o link para fazer a referência correta, aí vai o control C do texto.


VIDA BANDIDA
Cabeleireiro rouba para voltar à prisão e revernamorado

DO "AGORA"DA AGÊNCIA FOLHA

Policiais de Sorocaba (100 km de São Paulo) registraram anteontem uma prisão, no mínimo, peculiar: em um ato desesperado, um cabeleireiro roubou um pedestre na rua para voltar à cadeia e ficar com o seu namorado, um detento do CDP (Centro deDetenção Provisória) de Aparecidinha, distrito de Sorocaba.

O roubo aconteceu bem em frente à Delegacia Seccional da cidade. De acordo com a Polícia Civil, Cléberson do Rosário havia saído do CDP de Aparecidinha - onde cumpria pena por roubo - em liberdade provisória havia quatro dias.

Anteontem, o cabeleireiro entrou na delegacia vestindo roupas de mulher, por volta das 10h, e pediu insistentemente ao investigador plantonista para ser preso por estar com saudade do namorado. Um investigador explicou ao cabeleireiro que, como não havia praticado nenhum crime, nada poderia ser feito.

Poucos minutos após ele deixar o DP, policiais ouviram gritos de uma mulher vindos da rua e saíram para verificar o que acontecia. Rosário havia agredido e roubado o dinheiro de uma mulher. Ele foi preso em flagrante por roubo consumado na Delegacia Seccional de Sorocaba e encaminhado para o CDP de Aparecidinha, onde está o seu namorado.

A reportagem não conseguiu localizar ontem o advogado do cabeleireiro.

A SAP (Secretaria da Administração Penitenciária) informou que, por motivos de segurança, não fornece detalhes da ficha criminal de presos sob sua custódia.



Descontando toda a miríade de pontos a favor que os gays que conheço têm no quesito amizade, são eles também protagonistas dos maiores amores que conheço. Nada se compara ao amor entre Pátroclo e Aquiles. Nada. E nada mais forte, louco e desvairado que a atitude que nosso camarada Cléberson do Rosário tomou pra ficar pertinho de seu amor.

Há pouco tempo, debati com as meninas uma história que aconteceu com um amigo. Como vi Pretty Woman de novo no sábado e chorei, na avenida eu choreeeei, vou repeti-la pra vocês. Uma bicha amiga estava assistindo aula na UERJ em um dia assim, normal. De repente, chega o namorado dele. A bicha se assusta, sai de sala e vai ver qual é. E volta todo serelepe com um potinho... o bicha namorada foi até a UERJ SÓ E SOMENTE para levar bolinho de chuva pro namorado. A bicha fez o bolinho, fritou e levou. Entendem? Isso é amor. Mil mancebos já babaram meu ovo com palavras, já me comeram bem, já me comeram mal mas tentando acertar, já me apresentaram mãe, pai e avó e me juraram amor eterno, mas foram juras eternas de amor efêmero.

Nunca homem nenhum fez bolinho de chuva pra mim. Só os gays têm essa sensibilidade. Só os gays dão valor a coisinhas mínimas e tão importantes como levar em casa, comprar um bouquet pequeno de rosas ou de alguma flor bonita em vez de comprar dez quilos de flor do campo, aquela coisa horrorosa, só porque vale mais no custo/benefício. O gay é perfeito porque ficou ali no meio do caminho. É homem, mas com os insights femininos, com uma fineza de sentimentos ímpar.

Por exemplo... é no mínimo insensibilidade me presentear com um livro do Veríssimo sendo eu a leitora que sou. Estando comigo e me conhecendo bem, acho uma puta sacanagem. E já aconteceu. E mais de uma vez. Rolou também de me darem um par de halteres de cinco quilos. Logo eu, que sou sedentária há vinte e seis anos e não tenho força nem pra levantar um copo cheio d'água. Homem é isso aí. Desatenção nas coisas pequenas, e, parfois, falta de senso estético: já ganhei um cachorrinho de pelúcia rosa pink com a orelha e o rabo verdes. Horrível, gente. Ah, já ganhei também um broche de coração escrito "até aqui nos ajudou o Senhor" de presente de um mês de namoro. Já ganhei rosa de plástico. Já ganhei, de um cara que estava comigo há dois anos, uma edição dos Lusíadas. Eu tinha umas seis em casa na época. Ele sabia. Show de sensibilidade. Até meu pai, que é o melhor homem que conheço, faz isso. Ele é tão desligado que dá a mesmíssima coisa de presente de aniversário pra minha mãe há uns 15 anos. Pelo menos.

Espero que vocês não interpretem minha ode aos gays como um repúdio aos rapazes. Não é isso. Ah, foda-se. Não vem nenhum idiota aqui, não preciso ficar me explicando. E o blog é meu, eu falo o que quiser.

Escrito em 11.04.2007.

domingo, junho 03, 2007

Furtos e Surtos

por Caio Almendra
ilustração de André Pessoa

Era um trabalho simples. Zeca Chuleta precisava só roubar um Fiat. Para aqueles que não entendem de carro, permita-me uma pequena explicação. Os carros Fiat não precisam ser arrombados, com alguma força, qualquer gatuno consegue puxar o canto da porta, dobrá-la, enfiar a mão por cima da dobra e abrir o carro. Zeca Chuleta, entretanto, estava entorpecido demais. Já escolhera o carro, arregaçara as mangas para iniciar seus procedimentos, quando percebeu uma diminuta imperfeição em seus planos.

A imperfeição respirava suavemente de dentro do carro. Seus curtos cabelos encaracolados, muito escuros, mantiveram-a ocultas no banco traseiro do Fiat. Vestia um casaco de lã preto e uma calça jeans, mas Zeca Chuleta, como bom gatuno, transpassava as adversidades e a visualizava completamente nua. Uma menina tão nova e miúda, uma imperfeição tão óbvia e oculta, como ela teria um corpo tão perfeito?

Zeca Chuleta ofegava. Era bom em seu ofício, arrombou um carro tão silenciosamente que não acordou a galega dorminhoca. Como operário das mãos leves sempre manteve uma prudente impulsividade. Agora, contudo, sua hesitação ofengante poderia comprometer sua furtividade. No fim, cedeu aos seus impulsos de ladrão.

Zeca Chuleta entrou no Fiat, furtou um beijo intenso e apaixonado e, num rompante, voltou para a escuridão da noite. Antes de sair da vista de vez, virou o rosto e num relance constatou a excelência de sua aptidão... A mais belas das imperfeições ainda dormia, dentro do carro Fiat não-roubado.

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sexta-feira, junho 01, 2007

A Revolta dos Idiotas


por Caio Almendra
Ilustração "La Creazione de Adamo", por Michelangelo Buonarrotti
adaptada por Caio Almendra.

Foi durante uma passeata. O sol estava de lascar a moleira, não se via uma nuvem no céu. Os manifestantes pediam qualidade na educação, merendas melhores e novas instalações para as escolas. Fora do bom senso, o evento fora marcado longe da prefeitura ou do palácio do estado, mas bem perto de um via pública muito movimentada. As mais belas faixas não traziam reinvidicações, mas apenas siglas e logotipos. Apesar das contradições, a multidão parecia unida e coesa em torno dos ideais educacionais.


A harmonia era tal que ninguém soltou um mísero ui, quando Mateus, um homem de 40 anos que nunca cogitou ser professor, arremessou uma pedra contra o sinal de trânsito. Em um átimo, todos o acompanharam como se apoderados de um imenso sentimento de vingança pelas injustiças do mundo. Como ter ideais é sempre bom, o número de reivindicações aumentou. Pediam justiça, comida, o fim do aquecimento global, saúde, o fim das guerras, da miséria e da fome. Queriam um mundo mais justo e fraterno e estavam dispostos a conquistá-los a unhadas. Os sinais de trânsito seriam os primeiros enforcados. A revolução tinha começado e nada poderia separar aquele grupo de 400 mártires vanguardistas.

Do alto de seu trono, Deus observava. Após 6000 anos, suas mais estimadas criações haviam conseguido. O paraíso na terra começara naquela passeata. Quem diria, logo os comunistas! Cheio de esperança pelos homens, Deus resolve encurtar o caminho. Sabia que a boa intenção daqueles homens era suficiente para mudar o mundo, não precisaria esperar o fim da revolta. Sua piedade não lhe permitiria esperar sentado pelos longos meses da revolução. Teria que apressar o processo.

O Todo-Poderoso desceu de seu trono, num espetáculo que não se via desde os tempos de Moisés. Era a imagem e voz mais belas que qualquer um já ouviu. Contudo, ninguém conseguia evitar o pavor que elas carregavam. Sua proposta foi clara. Aqueles 400 iluminados deveriam fazer um único pedido uníssono para Ele. Qualquer pedido seria válido e imediatamente atendido. Deus estava confiante, Ele não poderia errar justo agora.

Quando sua voz se calou, um burburinho cresceu nos cantos da passeata. No canto norte, os iluminados tendiam para o sentido da vida, no sul, à juventude eterna. Alguns falavam em super-poderes(Ué?, se todos nós fossemos igual ao super-homem, o que nós não poderíamos fazer pela revolução!), outros em ressuscitar grandes notáveis históricos.

Passado dois minutos, a dúvida virou discussão, a discussão virou berros e a histeria tomou o lugar da harmonia. Os 400 iluminados tinham mais ódio por si mesmos, do que tiveram pelos sinais de trânsito. Então, Mateus entendeu o que ocorrera: Deus os havia envenenado! O Todo-Poderoso nada mais era do que um grande reacionário disfarçado. Convicto, Mateus começou a espalhar suas palavras de saber. Não demorou muito até os iluminados perceberem. Por fim, um deles sugeriu e aos sussuros sua sugestão foi sendo espalhada. Deus ainda aguardava a resposta.

Em uníssono, ela veio:
"MORRA!"
Assim, Deus foi-se embora. E começou a chover.

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