Dando o cú pela alma do Rei

Museu de Arte Pré-Colombiana de Santiago do Chile, exposição temporária sobre a cultura moche, "Morir para gobernar, Sexo Y Poder en la Sociedad Moche", a teoria do arqueólogo Steve Bourget tenta achar explicações para as esculturas em barro embutidas nos vasos moches. Segundo a teoria, após a morte e sepultamento de um Rei, este segue por dois mundos distintos até poder reencarnar e voltar ao Mundo dos Vivos.
Primeiramente, com a morte, o homem perderia uma parcela significativa de sua vitalidade. Nesse momento, o corpo deveria ser enterrado, para que pudesse transitar ao Mundo dos Mortos. Lá, um intenso ritual de sexo não-fértil, leia-se masturbação mulher-homem, sexo oral mulher-homem e sexo anal heterossexual, fariam que, por sucessivos orgasmos fora de vaginas, o Rei ascendesse ao Mundo dos Ancestrais. Como habitante de tal mundo, o Rei teria poderes limitados sobre o Mundo dos Vivos, poderes que incluíam reencarnar por um breve período de tempo na forma de um animal ou de um homem-esqueleto(ainda provido de membro sexual). Nessas formas semi-revitalizada, o Rei praticaria sexo, novamente não-fértil, com mulheres ainda vivas e, absorvendo parte da vitalidade delas, completaria seu ciclo pós-morte. Nesse momento, seus súditos o desenterrariam e o Rei voltaria para governar seu povo. Diz-se que o período dessa transição durava anos.
Apenas uma religião exótica e nada mais, certo?. Ocorre que os súditos, isto é, os ainda vivos, deveriam, para incentivar a rápida ressureição de seu amado monarca, passar todo o período de transição praticando apenas as modalidades não-férteis de sexo. Acredita-se que durante a transição ao Mundo dos Mortos, os súditos jamais praticavam sexo fértil. Ademais, findo a transição para o Reino dos Ancestrais, as mulheres eram aliciadas a fazerem sexo com qualquer animal que se insinuasse demais para elas, visto que poderia ser o Rei precisando de um pouco de vitalidade para completar seu ciclo. Por fim, se um homem-esqueleto aparecesse para a mulher, esta deveria, obrigatoriamente, transar imediatamente com ele.
O interessante é que tal teoria não surgiu do bolso do tal arqueólogo. Tudo baseia-se em peças artísticas moches, no qual se compreende com a clareza de um filme da Cicciolina, que os personagens estão fazendo sexo anal, oral, masturbando-se ou praticando zoofilia. A datação histórica dessas práticas, igualmente, coincide com o período de luto pela morte de um monarca. Enfim, coisa séria.
O primeiro ponto que salta-me aos olhos é a diferença gritante entre as culturas moche e a cultura ocidental, quando se trata de sexo. Nas sociedades paralelas ao tronco judaico-cristão, é comum a cultura ter um papel determinante na vida sexual da população. De fato, diversas delas contém, inclusive, um certo dirigismo sexual, no qual a vida íntima dos casais eram determinadas por fatores externos. O próprio Kama Sutra, que é mal interpretado como um livro de posições eróticas, é um livro religioso, no qual se veda a prática de certas formas de sexo na decorrência de determinados fenômenos astronômicos, ou ainda, cataloga o tamanho dos órgãos sexuais masculinos e femininos e recomenda o casamento entre homens e mulheres com proporções compatíveis. A sociedade ocidental, por contraparte, insere a vida sexual dentro dos conjuntos das “coisas íntimas” e, a pretexto de possibilitar uma liberdade sexual, reserva o sexo a, praticamente, a individualidade. Em outras palavras, tratamos o sexo como um monstrinho e o guardamos de no sótão. A liberdade morre nas amarras do tabú.
Ao voltarmos à cultura moche, podemos observar possíveis críticas a seu “diriigismo sexual”, por “forçar” certas práticas sexuais a despeito do desejo do casal. Em especial, as mulheres criticariam a negligência ao sexo vaginal e ao orgasmo feminino. Entretanto, essas críticas padecem de maior substancia, visto que, carregadas de tabús e pudismo, ignoram que a criação desses hábitos culturais tiveram influências de ambos os sexos. Os materiais expostos eram de uso doméstico, tais como vasilhas e panelas. Na cultura moche, a maioria das mulheres trabalhavam com os afazeres domésticos cotidianos. Provavelmente, eram elas próprias que produziam as peças com motivos eróticos não-vaginais e, mesmo que assim não o fosse, nenhuma dona-de-casa utilizaria utensílios domésticos que fosse ofensivos ao seu pudor. Se elas fabricavam ou meramente adquiriam copos com um casal praticando sexo anal, é muito incongruente argumentar que elas não endossavam livremente a prática. Ou seja, “dirigismo sexual” também é liberdade. E, talvez, seja mais liberdade que o pudismo nos confere.
Pensemos no exemplo do cozinheiro do rei que fosse fanático pelo boquete da esposa. Seria praticamente um monarcocida em série. Ele exterminaria um à um os Reis-moches, apenas para satisfazer o seu desejo. Os monárcas, por sua vez, não teriam do que reclamar, visto que, após a chegada ao Reinos dos Ancestrais, poderiam personificar um animal ou homem-esqueleto e transar com absolutamente qualquer mulher do reino, casada, virgem ou até mesmo parenta. Podemos, inclusive, imaginar o exemplo da camareira real que se apaixonasse por um cachorro ou llama da sua casa. Para poder copular livremente com seu amado, ela assassinaria rei por rei e, após uma noite de amor daquelas com o tal animal Don Juan, ainda seria encarada pelas outras como a grande mulher que se dispôs a transar até mesmo com um llama para poder salvar a alma do rei. O vendedor de venenos para ratos chegaria em casa e sua mulher o afagaria, fogosa e saliente:
“- Oi amorzinho, como foi no trabalho? Cê não tá muito cansado, né? Depois desses últimos dois anos salvando a alma de Fulano, nós bem que podíamos comemorar a reestréia em alto estilo, não?
-Ih, meu amor, nem tem como... Hoje, tanto a camareira do llama como o cozinheiro real foram lá na loja. Cada um comprou um quilo e meio de chumbinho. A essa hora, o novo-rei já tá morto e gelado.
-Mas, meu bem, se você sabia que eles iriam assassinar o rei de novo, porque diabos vendeu o veneno?”
Cínico, o vendedor mal tem tempo de inventar um desculpa:
“- Amor, e como pretendes que eu coloque dinheiro nessa casa?”
Contrariada, a esposa entra no quarto. O marido observa vorazmente as curvas de seu rebolado enquanto ela se afasta. Pouco depois, ele entra no quarto, nú, alegre e satisfeito.
"-É pela alma do Rei, minha querida, pela alma do bom Rei."
