Conversando com meu amigo imaginário(o quase atencioso Asdrúbal)
Cinco chopes depois dele terminar o assunto do traveco no bar de sinuca, Asdrúbal começou a ficar melancólico. Meio chato, meio niilista, muito realista. Começamos a conversar sobre nossos projetos abandonados, fracassados, com uma breve passada pelos sonhos impossíveis. Ele puxou uma frase do "Vastas emoções e pensamentos imperfeitos", emendou com outra do "Moinho de Vento", depois "Misto Quente", e encerrou o circuito de citações com Fernando Pessoa, um poema do "Mensagem", que ele decorara para comer menininhas, quando ainda estava no segundo grau.
- Sabe Caio?, se fosse para escolher algum desses projetos para acabar, e tivesse que sacrificar todos os outros, eu queria acabar algum dos meus romances.
- Acabar e ponto?
- É. Para mim basta acabar. "Os amantes" seria ótimo.
- Você não acha meio ridículo ter roubado a idéia, o enredo e até mesmo o nome, do livro do personagem de "Bufo & Spallanzani"?
- Um personagem ficcional não pode me acusar de plágio.
- Tá, mas um romance entre um cego e uma surda não é meio piegas demais para ser sua única realização? Nunca achei que você tivesse essa tendência "Melhor é impossível".
- Primeiro, é um romance entre uma cega e um mudo. E, para mim, tanto faz.
- Tá, mas é só acabar de escrever? Não quer publicar nem nada?
- Se sair legal, mas basta acabar.
- Cara, para mim acabar não é nada suficiente.
- Pois é... Você tá no 5º, né Caio?
- Yep... e nada satisfeito.
- O sobre o cinza é legal, sabia? Dá uma vontadezinha de ver filme em preto e branco, de ficar triste e tal.
- Não sabia que você tinha lido... Quando deixei as cópias com você, lembrei que você tinha o hábito de transformar papel velho em bloco de anotação e agradeci por não estar apenas criando mais lixo inútil.
- Eu li sim. Não li tudo, mas li o Cinza e o Cama de Agulhas. Quer dizer, parei na metade. Achei cansativo e parei.
- Yep... é um livro cansativo mesmo. Vivo tentando reescreve-lo.
- Hum(foi um "hum" especialmente longo). Por que não desiste?
- Bem, por que você não desiste de escrever os seus?
- Porque eu não acabei, ora! E sabe de uma coisa? Acho que gosto de tê-los inacabados. É como cuidar de uma horta. Mexo numa plantinha, depois podo outra, pode água numa terceira...
Dei um jeito de tossir alto e soar como "bicha". Asdrúbal continuou:
- Mesmo assim queria acabar um deles. Qualquer um.
- Cara, não adianta acabar. Eles não ficam prontos só por você escrever o desfecho. São entes vivos, famintos por sua atenção. Escrever livros é morar num linha de montagem de bebês de rosemary.
Asdrúbal devolveu a tossida, "bicha!". É sempre bom ter um amigo para se poder trocar ofensas leves. Após uma leve risada, ele tentou me animar:
- Caio, você precisa deixar passar. Talvez não seja para se tocar mais neles. Estão prontos e ponto, mudar não é concluir.
- Pode ser cara...
- Vai por mim.
- Pode ser cara... Bem, minha hora de fazer uma citação: "Set me free why don't you babe".
- Diana Ross?
- Cada um joga com o que pode.
- Bicha!
É sempre bom ter um amigo para se poder trocar ofensas leves.
- Sabe Caio?, se fosse para escolher algum desses projetos para acabar, e tivesse que sacrificar todos os outros, eu queria acabar algum dos meus romances.
- Acabar e ponto?
- É. Para mim basta acabar. "Os amantes" seria ótimo.
- Você não acha meio ridículo ter roubado a idéia, o enredo e até mesmo o nome, do livro do personagem de "Bufo & Spallanzani"?
- Um personagem ficcional não pode me acusar de plágio.
- Tá, mas um romance entre um cego e uma surda não é meio piegas demais para ser sua única realização? Nunca achei que você tivesse essa tendência "Melhor é impossível".
- Primeiro, é um romance entre uma cega e um mudo. E, para mim, tanto faz.
- Tá, mas é só acabar de escrever? Não quer publicar nem nada?
- Se sair legal, mas basta acabar.
- Cara, para mim acabar não é nada suficiente.
- Pois é... Você tá no 5º, né Caio?
- Yep... e nada satisfeito.
- O sobre o cinza é legal, sabia? Dá uma vontadezinha de ver filme em preto e branco, de ficar triste e tal.
- Não sabia que você tinha lido... Quando deixei as cópias com você, lembrei que você tinha o hábito de transformar papel velho em bloco de anotação e agradeci por não estar apenas criando mais lixo inútil.
- Eu li sim. Não li tudo, mas li o Cinza e o Cama de Agulhas. Quer dizer, parei na metade. Achei cansativo e parei.
- Yep... é um livro cansativo mesmo. Vivo tentando reescreve-lo.
- Hum(foi um "hum" especialmente longo). Por que não desiste?
- Bem, por que você não desiste de escrever os seus?
- Porque eu não acabei, ora! E sabe de uma coisa? Acho que gosto de tê-los inacabados. É como cuidar de uma horta. Mexo numa plantinha, depois podo outra, pode água numa terceira...
Dei um jeito de tossir alto e soar como "bicha". Asdrúbal continuou:
- Mesmo assim queria acabar um deles. Qualquer um.
- Cara, não adianta acabar. Eles não ficam prontos só por você escrever o desfecho. São entes vivos, famintos por sua atenção. Escrever livros é morar num linha de montagem de bebês de rosemary.
Asdrúbal devolveu a tossida, "bicha!". É sempre bom ter um amigo para se poder trocar ofensas leves. Após uma leve risada, ele tentou me animar:
- Caio, você precisa deixar passar. Talvez não seja para se tocar mais neles. Estão prontos e ponto, mudar não é concluir.
- Pode ser cara...
- Vai por mim.
- Pode ser cara... Bem, minha hora de fazer uma citação: "Set me free why don't you babe".
- Diana Ross?
- Cada um joga com o que pode.
- Bicha!
É sempre bom ter um amigo para se poder trocar ofensas leves.

2 Comentários:
"Bicha louca!!!" - para garantir meu espaço como grande amigo.
Por
André Pessoa, Às
sexta-feira, outubro 24, 2008
Essa noite terei pesadelos com a linha de montagem de bebês de Rosemary e com romances inacabados crescendo como mato pela minha janela adentro.
Por
renata.ferri, Às
quarta-feira, novembro 12, 2008
Postar um comentário
Assinar Postar comentários [Atom]
<< Página inicial