quinta-feira, dezembro 04, 2008

Chumbala e O Monstro do Grajaú

Brasil, daqui a poucos anos, Rio de Janeiro para ser preciso. Madrugada, carceragem de uma delegacia em algum lugar da Zona Norte.

-Consegue dormir não?
-Não. Tô há dois dias sem dormir direito.
-Culpa? Nóia?
-É... fiz cagada.
-Primeira vez em cana?
-Cana é a primeira. Fiquei dois meses na Febem por furto.
-Bateu carteira?
-Não... Bati um pizza. Tava morrendo de fome, o entregador deu mole, eu corri. Tava com tanta fome que comi a pizza antes de parar de correr, tropecei e fui pego. Mas, cana mesmo só dessa vez.
-E dessa vez?
-157, latro(referindo-se ao crime de latrocínio, que se caracteriza pelo roubo seguido de morte).
-Tú batia pizza e agora virou 157? Como cê fez isso?
-Porra, fiz cagada. Foi azar. Na minha rua tinham dois velhinhos que moravam numa casa grande. A velha era zura para cacete, implicava quando eu pegava as goiabas da árvore dela que caiam na rua. O velho era doente. Diziam na rua que o velho era médico, um homem bom, trabalhava feito louco. Pegou tuberculose no hospital. Minha mãe conta que quando o velho tava de plantão, o mulher dava dinheiro para os garotos do colégio dormirem com ela. Hoje, a velha não dá dinheiro nem para o velho comer. A velha é tão zura que dá mais comida para o cachorro do que para o marido! Vai tudo para a igreja evangélica, para pagar os pecados dela e ela ir para o céu. Vai na igreja todo dia e pagava uma nota toda 5ªfeira.
Quarta passada, eu vi que ela não tinha trancado a porta. Pulei o muro e quando ia abrir a porta, o cachorro latiu e o velho acordou. Eu não achei que o velho fosse acordar, porque o cachorro fica latindo a noite inteira e ele nunca acorda, mas sei lá, dei azar. Eu não quis continuar, não queria brigar com o velho. Porra, coitado do velho. Pulei o muro de novo e voltei para casa.
-E cadê o latrocínio?
-Isso foi semana passada. Nessa semana, eu tive uma idéia de como me livrar do cachorro e pegar o dinheiro da velha. De tarde, peguei um resto de comida, misturei com remédio de dormir e joguei no quintal, junto com a ração. Fui para a flanela e esperei a hora dos velhos dormirem. De madrugada, pulei o muro da casa. Quando abri a porta e não ouvi o ronco do velho, percebi que tinha dado alguma merda. Nem mexi na bolsa da velha, ia pular o muro de volta quando os velhos apareceram no portão com dois policiais. Tentei correr, mas fui pego.
-Porra, e cadê o latrocínio?
-Expliquei para o delegado que tinha pulado o muro para roubar a bolsa, mas desisti no meio e tava voltando para casa. Fiquei um dia em cana, em outra delegacia. Disseram que era 150, violação de domicílio. Mas no meio da madrugada, o delegado me acordou. Porra, o filho da puta me esculachou.
-É... vi que você tá todo arrebentado.
-Porra, nem tô arrebentado por conta do delegado, não. Meia hora de interrogatório de madrugada, esculharam mesmo, mas botaram minha cabeça num balde dágua. O delegado mandou os policiais não deixarem marcas. Queriam minha cara limpa, para aparecer nos jornais. Parece que os tais velhos tinham um neto, que ninguém do bairro conhecia. É o burro do moleque comeu a comida do cachorro. É por isso que os velhos não estavam em casa, tinham ido para o hospital. O tal garoto era doente, tinha nascido com problema no fígado, comeu a comida do cachorro e morreu. Naquela hora, eles estavam voltando do hospital.
-Caralho, você é o cara do jornal, "O Monstro do Grajaú". Te chamaram de pervertido e tudo. Disseram que você tinha envenenado o garoto para tocar nele.
-Filhos da puta! Eu nem sabia que o garoto tava lá. Nem sabia que o moleque existia. Daí, o delegado resolveu me mudar daquela delegacia para essa, por razões de segurança. Disse que eu corria o risco de linchamento. O filho da puta resolveu me mudar de delegacia no meio dia, sem escolta policial nem nada. O pessoal do bairro me bateu tanto, que eu nem sei como sobrevivi. Me joguei de qualquer jeito dentro do camburão, para fugir das pedras.
-Porra, o jornal diz que você tá fudido. Que como vendeu muito jornal, não vai ter advogado, juiz, porra nenhuma. Vai entrar direto na tal lei roberto marinho, vão fazer votação no jornal nacional e vão te mandar para a forca.
-Eu tô ligado. É por isso que estou a dois dias sem dormir. Mas e você? Tá sangrando por que?
-Porra, esse sangue não é meu não. Meu nome é Chumbala, sou assaltante de carro. Não estou dormindo porque trabalho de noite, não tenho o hábito de dormir nessa hora. Eu faço 157 faz 5 anos. Ontem, o babaca reagiu. Dei dois tiros e pronto. Sem novidade, sem jornal vendido, sem lei roberto marinho, sem forca. Se tú se livrar, da próxima vez, pára de viadagem e mata os velhos. Sai mais negócio.

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