Odisseu e Penélope, Branca de Neve e Bruce Waine

Caio Almendra texto
André Pessoa ilustração
André Pessoa ilustração
A Odisséia é um dos relatos escritos mais antigos a tratar de amor. Certamente, é um dos únicos que influenciou de forma direta nossa cultura. Se a modernidade ocidental é fruto da tradição greco-romana, judáico-cristã e da desconstrução bárbara, isto é, uma amálgama entre os estereótipos mitológicos, os dizeres bíblicos e a influência germânica, não podemos atribuir a criação do amor a estes dois últimos. O amor bíblico, em sentido literal, foi rechaçado pela cultura romana. Durante a cristianização do império romano, o apostolicismo negou forazmente a tradição poligâmica (poligamia não como a presença de vários amores, mas como a celebração de diversos matrimônios). Essa poligamia institucional do patriarca Abraão, não se confunde com a multiplicidade do amor. Os bárbaros endeusavam as mulheres e aceitavam a poligamia recíproca, onde à mulher era permitido manter mais de um parceiro. A valorização da figura femina não combinava com a formatação judáica ou com a cultura grega. Esses traços da cultura bárbara foi rechaçado e mesmo perseguido pelo apostolicismo. Sobrou nos os mitos gregos sobre o amor. Em especial, os épicos mitológicos dos homens, do que o amor impiedoso e metafórico dos deuses. Odisseu e Penélope, Eros e Psique, Orfeu e Eurípides, entre outros.
Na eminência da Guerra de Tróia, Odisseu finge-se de louco, para não ter que se alistar. Ele sabia, por conta de uma oráculo, que não conseguiria retornar por muito tempo. Descoberta a falsidade de sua loucura, Odisseu cai em uma tramóia e aceita partir para a guerra, para proteger seu filho recém-nascido. Odisseu é um mito épico, ou seja, durante toda narrativa mostra uma única característica de personalidade marcante e dominante: o desejo de retornar para casa. Contudo, seu amor e nostalgia não o impede de mostrar o entendimento grego de herói. A parte de um maniqueísmo ainda distante, Odisseu entende sua guerra como uma busca do correto, da completude de sua existência. Seu amor por Penélope é forte, pungente, inegável e o faz cometer as maiores loucuras, mas não impede-o de deixá-la, em comprimento do que entende como seu dever de vida. Para salvar sua tripulação da maldição de Círce, atrasa seu retorno em um ano. Igualmente, Odisseu não é casto ou santo, ele dorme com Círce, bem como com outras, durante seu regresso, mas é casado com apenas uma mulher, ele é monogâmico apesar de viver uma multiplicidade de amores. Assim, a Odisséia pode ser vista com uma das origens da faceta cultural que o amor assume contemporaneamente. Odisseu e Penélope são vivos, intensos e com personalidades poligônicas, apesar do realce para a persistência ativa dele, e passiva dela. São alegorias, mas descrevem bem uma forma de amor. O primeiro ponto relevante da narrativa é a distância entre os dois personagens, o masculino passa anos de sua vida a buscar o feminino. Suas histórias estão intimamente unidas, apesar de nunca estarem juntos. A narrativa, portanto, descreve ambas histórias em separado. Odisseu não ama Penélope incondicionalmente, como gostaria o Bardo, separa-se dela para ingressar em uma guerra, não hesita em possuir outras mulheres para salvar seus amigos e considera sua honra a cima de todas as coisas. Ele atravessa o mundo lutando contra o mal e o infortúnio, contudo, mantém um amor profundo a guia-lo de volta para casa.
Penélope é paciente e esperançosa. Não abandona seu amor em meio a notícias de naufrágios e morte. Seu amor supera a lógica e ela continua a acreditar no retorno de seu amado até nos piores momentos. É forte e nega-se a casar-se novamente pelo bem de seu reino. Passa noites insones a desfiar seu vestido, para fugir da obrigação de um novo casamento. É solerte como o marido e usa de diferentes artimanhas para defender sua fidelidade. Seus esforços são igualáveis a de Odisseu e apenas por isso consegue-o novamente. Na ótica simetrista da cultura grega, Penélope é a grande mulher casada com o grande homem, um amor forte que surge da força dos dois amantes, dois personagens que encontram no amor suas forças. A personagem Penélope é tão forte que foi reescrita em diversos momentos. É clara a influência que exerceu sobre os contos de Grimm ou sobre as antigas cantigas quinhentistas e os romances de cavalaria.
Ocorre que nada sobrevive intacto ao tempo.
Na compilação que os Grimm fizeram sobre a tradição oral germânica, as histórias podem ser divididas entre masculinas e femininas. A busca e o fardo desta não são distribuídos por ambos. Algumas narrativas focam na figura do masculino e sua busca ativa pela dama e outras focam na figura da pobre mulher que sofre longa espera por um amor, que ela não sabe existir. Em geral, não é uma busca pelo retorno, como na Odisséia e no mito de Eros e Psique, mas uma busca pelo amor novo. Dessa forma, o príncipe da Bela Adormecida, uma história essencialmente feminina, aparece no penúltimo parágrafo, anda por entre espinhos sem nenhuma descrição de suas emoções, avista pela primeira vez a princesa, a salva e a desposa, sem em momento algum, mostrar quem ele, o príncipe, realmente é. Não expõe por que quer salvá-la, se embusca da glória, da fama, da honra ou meramente de uma nova amante. O príncipe não é um personagem, mas uma força, que adentra a vida da protagonista para salvá-la do mal. Ele a ama, ele luta contra a maldade, mas nunca se sabe o porquê. Em oposição, n'O Pássaro Dourado, o pequeno plebeu utiliza de mil e uma artimanhas, passa pelos maiores infortúnios para salvar uma princesa que chorava, sem antes trocar uma mera palavra com ela. O herói apenas fazia o que achava certo e a princesa é uma mera recompensa pelo seu bom trabalho. Nota-se uma clara influência do ortodixismo moral cristão, que finda com as estripulias masculinas e, igualmente, uma adequação ao padrão de vida da Alta Idade Média, no qual as grandes viagens se tornaram raras e irrazoáveis. A glória saiu dos mares e partiu para o interior das casas. Não se busca o mal para matá-lo, a honra está no interior de uma casa, numa oração noturna.
Na Baixa Idade Média, a perspectiva das Cruzadas e os romances de cavalaria retomam a idéia de retorno à casa. Entretanto, boa parte desses romances conta a história de homens solteiros que vão à guerra. O próprio Robin Hood, até a inserção da figura da Maid Marian, no século XVI, era um herói solitário. Posteriormente, a história de Robin inclui uma nobre casta que se casa com um herói de guerra que se torna bandido para defender o rei verdadeiro. Apesar de ser uma figura forte, os feitos de Maid Marian são completamente secundárias e, até mesmo, irrelevantes frente façanhas de Robin Hood. Robin luta contra a tirania de um nobre, as injustiças de um mundo, enquanto Marian luta contra a obrigação de celebrar um casamento arranjado, luta que só vence com a interferência de Robin.
A fazer um corte nesse excesso de prolixidade e descrições, chegamos à atualidade. Os contos femininos de Grimm foram adaptados para desenhos animados pela Disney. Confessamente, os primeiros super-heróis dos quadrinhos sofreram grande influência de Robin Hood. Se perguntarmos a uma menina qual foi a primeira história de amor que lembra ter visto, ela provavelmente citará os contos de fada, como exposto pela Disney. Possivelmente, um menino no lugar dela falaria como o Homem-Aranha, o Batman, o Super-Homem ou algum protagonista de desenho animado contemporâneo, beijaram as mocinhas recém-salvas. Mesmo que cite um filme da Disney, facilmente confessará que não se impressionou ou mesmo se identificou com ele. A versão cinematográfica da história da Branca de Neve, mostra um príncipe tímido, que aparece nos últimos minutos da história e nada faz que não beijar e se apaixonar por um princesa morta. Um menino não tem porque se identificar com o príncipe. Se quando um grupo deles assitem Tartarugas Ninjas, cada um busca se apelidar com o nome de um dos quatro personagens, nenhum se levantará e dirá: "Eu quero ser o príncipe da Rapunzel". Contudo, o diálogo "O que você quer ser quando crescer, minha sobrinha?" "A pequena sereia, tia" é frequente.
Curioso que as descrições atuais do amor romântico, que possivelmente tiveram uma origem comum, tenham se distanciado tanto. Todos os heróis em quadrinhos são personagens complexos, que habituamente sacrificam sua vida pessoal em nome de um bem maior. Tem romances efêmeros, tristemente terminados pela pungência de seu dever de super-herói. Batman se apaixona por vilãs e tenta, em vão, ressocializá-las. Por fim, persegue suas amadas e as prende, sacrificando-se pela sua causa. Quando se envolve com boas meninas, termina antes que as coloque em perigo. Peter Parker perde tanto tempo lutando contra vilões que usualmente dá bolos em suas namoradas, que acabam por desistir dele.
Essencialmente, o ícone masculino não mais se encaixa com o ícone feminino. Imagine se um super-herói qualquer matasse o dragão que protegia a Bela Adormecida? Inicialmente, suas motivações seriam distintas do príncipe da história, nenhum super-herói mataria por amor. Eles matam monstros para salvar pessoas, para corrigir o que entendem como errado, um certo misto de honra, romantismo e arrogância. Salva a princesa, não haveria um "viveram felizes para sempre", o resgate da mocinha é apenas o começo do problema. Bela Adormecida, após um século aguardando o amado, teria que vê-lo partir para matar outros dragões que maltratam outras princesas. Essas princesas, coitadas, seriam salvas por alguém que não as ama. A Bela Adormecida que espera um amor incondicional e para sempre, teria que se conformar com casar-se com um ser humano complexo, com suas causas próprias, com sua busca própria. Um romântico, sem dúvidas, mas um incapaz do egoísmo de só pensar no amor. E quem aceitaria tal marido? Se o feminino reclama a inexistência de um amante como os príncipes, que as amem incondicionalmente e vivam por suas amadas, o masculino sente a falta de uma mulher que após ser salva, permita que ele continue sua vida e busca pela honra, pela glória, por mais dragões, pelo romantismo. Ademais, num mundo de feminismo e mulheres cada vez mais ativas, o masculino sente também a falta de uma mulher que deseje e agradeça por ser salva. O sentimento de ingratidão é flagrante. Salvar uma mocinha e, principalmente, ser reconhecido como salvador é hoje entendido como uma tentativa de escravizá-la, de mantê-la, de forçar uma estabilidade de relacionamento.
O masculino busca às cegas por quem complete seu amor romântico, sem saber que o feminino que completa o masculino não existe. O feminino espera por quem complete seu amor romântico, um masculino que também não existe.

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